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Uma questão de barro...



Uma questão de barro.

No nosso Bairro, na infância e na adolescência, existiam várias brincadeiras que eram vividas com bastante determinação e alegria. Realmente era o caso de algumas meninas, a Lucília, a Carmo e outras. Um dos divertimentos preferidos era simular o “batizado” das suas bonecas. Arranjavam um rapaz para fazer de “cura”, que obviamente presidia à cerimónia. Havia “pia batismal” e logicamente que existiam os padrinhos. Efetivamente, após o encerramento do evento, confecionavam um bom lanche. Este normalmente passava por assar, numa pequena assadeira de barro, aposta sobre uma fogueira, três ou quatro batatas, comprar sardinhas ou carapaus à peixeira Glórinha e fritá-las no recipiente já referido. Lembro-me de comprar um quarteirão de carapau pequeno por uma coroa (50 Centavos).
Nessa maré tudo correu normalmente até ao momento de ter que lavar a assadeira. Na verdade, quando a meteram no tanque de lavar e face ao contraste de temperaturas existentes entre a água e o recipiente, este quebrou-se. Grande problema, no próximo acontecimento festivo não iria haver merenda, na medida em que a loiça já era. Todavia, a Lucília logo disse:- Não há problema, na próxima terça-feira, vamos ao Campo da Vinha, à feira, e compramos uma nova. Realmente não deve ser cara. Por sua vez, a Carmo logo retorquiu:- Atenção, eu não tenho dinheiro e a minha mãe, com certeza que não me dá nem um tostão para esse fim. Contudo a Lucília logo a descansou, dizendo:- Eu resolvo o problema. Não te aflijas, eu arranjo uns trocados. Só pretendo é que me acompanhes. O diálogo terminou assim:- Assim sendo não há problema, se apenas queres companhia, eu vou contigo, disse a Carmo.
Na tal terça-feira, a Lucília convocou a Carmo para cumprir aquilo que tinham combinado, isto é, comprar a tal assadeira para ser usada em futuras festas. No entanto, antes de deixarem o Bairro, a Carmo indagou a Lucília no sentido de apurar onde esta arranjou a “massa” necessária para a compra do objeto, visto que nenhuma delas possuía rendimentos próprios. A Lucília descansou-a dizendo:- Pedi, encarecidamente, à minha mãe e esta não me deu. Aliás disse-me para ter juízo que as “patacas” não caíam das árvores! Consequentemente, no fim do jantar, arranjei maneira de ir à bolsa dela e “fanei” umas moedas. Está descansada. Na realidade, embora não concordasse inteiramente com a atitude da amiga, com esta explicação lá marcharam até ao Campo da Vinha, local onde, nessa altura, se efetuava a feira semanal de Braga.
Localizado sítio onde os oleiros mercavam os seus objetos e acessórios, com a Lucília á frente lá se dirigiram a uma tenda. Todavia, a Carmo estranhava a atitude Lucília. Com efeito, ela observava, atentamente, para todos os lados, principalmente para o lado norte, Rua Alferes Alfredo Ferreira e nordeste, Avenida Visconde de Nespereira, fazendo supor que estava a preparar um caminho de regresso apressado e pensado para o Bairro. Aliás, nem perguntava à tendeira pelo estado de fabrico da assadeira e o seu respetivo preço. Acabou por pegar numa pequena assadeira, mirou-a e, paralelamente, sem encarar a tendeira, iniciou a fuga, a correr, em direção à Avenida Visconde Nespereira. Apenas gritou para a Carmo, foge Carminho…! Está, atónita, nem sabia o que fazer. Mas, por intuição, também começou a correr e, de facto, fê-lo em direção à Rua Alferes Alfredo Ferreira. Sem olhar para trás, ofegantes e sem perigo, ambas chegaram ao Bairro. Ainda assim a Carmo não perdoou a atitude da Lucília, pelo que ainda teve oportunidade de lhe dizer:- Ó Lu o que foste fazer? Tu roubaste a assadeira. Pregaste-me um susto dos diabos. Por momentos fiquei sem saber o que fazer, o que me valeu foi o instinto e corri também. Se minha mãe souber disto dá-me uma coça que vou ficar oito dias de molho. A Lucília descansou a Carmo dizendo-lhe:- Ninguém vai saber disto, portanto está descansada e fecha-te em copas. Aliás temos resolvido o problema da louça, possuímos uma assadeira novinha em folha e que nos ficou de graça, na próxima festa teremos a nossa merenda. Para finalizar ainda adiantou:- Entre roubar a minha mãe e a tendeira, é óbvio que é melhor subtrair a tendeira, visto que não lhe faz diferença nenhuma. Não é bem assim, disse a Carmo. Porém, acabaram às gargalhadas, dizendo em uníssono:- Que aventura! Mas é melhor não nos metermos noutra…

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