Doutor Nozes
Uma figura incontornável no Bairro da Misericórdia e bairros limítrofes
era, sem embargo, o Dr. Nozes. Sempre o conheci como Professor de Educação
Física, ou Ginástica, como na altura se dizia, no Liceu Nacional Sá de Miranda,
onde era conhecido pelo professor “Vaqueiro”. Esta alcunha derivava do facto de
usar sempre as calças muito subidas, o cós ficava-lhe, sem exagero, quase de
baixo dos braços, deixando à vista as peúgas, parecia que, como dizia o povo,
“ia regar o milho”. Residia e era proprietário de uma série de casas no Bairro
de Monte Castro que também era conhecido pelo seu nome. Outrossim era famoso o
Pássaro Azul, o seu automóvel da marca Simca, a quem, um dia, lhe trocaram os
limpa-vidros por duas escovas de dentes. Era um forreta de primeira apanha,
aproveitava tudo. Na verdade, se visse um prego enferrujado no chão,
recolhia-o, guardava-o na pasta que sempre portava e levava-o para casa.
Realmente ele encontrava servidão para tudo.
Face à personalidade avarenta que
possuía, prestava-se, muitas vezes, a ser alvo de várias brincadeiras ou
partidas. Não vou enumerar, aquelas que lhe eram pregadas no Liceu, porque
foram tantas que, a meu ver, davam para um livro e não para uma simples
capítulo.
Num determinado dia, quando o saudoso
António Vides, se encontrava a merendar uns carapaus fritos, com uns amigos, na
Taberna do Diabo, entrou no estabelecimento o Dr. Nozes, que de imediato, gabou
o aroma daquele saboroso peixe. Todos sabiam que ele não gastava um tostão em
merendas. Aliás fora de casa apenas comprava o essencial. Então o António, face
a esse comentário, disse-lhe: Caro Doutor, de facto estão deliciosos. Prove
alguns. Não, ainda não fiz a digestão e com certeza não me iam cair bem,
replicou o Dr. Nozes. Logicamente que se tratava de sovinice e não de falta de
apetite, pois era sabido que ele era um bom “garfo” e bastante guloso.
Assim para
testar o apego excessivo ao dinheiro o António acabou por desafiar o
interlocutor: - Meu caro, se comer um quarteirão deste peixe, eu pago a
“dolorosa”. O Doutor desconfiado olhou para ele e disse-lhe: - O caseiro não
está a brincar? Olhe que eu como. Não estou nada a brincar, estamos perante
testemunhas idóneas e eu responsabilizo-me, perante a Senhora Maria pela conta,
isto se o Doutor comer o peixe todo e frisava o todo, se não pagará o senhor. Obviamente
que se responsabilizará pela despesa. Aceito o desafio, depois virando-se para
a Senhora Maria, disse: -Prepara-me lá o quarteirão de carapaus, arranja-me uma
fatia de pão e uma tijela, das grandes, de vinho.
Lá veio o
peixinho, frito simplesmente em banha, produto caseiro e oriundo de um lavrador
amigo dos donos da taberna. O Dr. Nozes digeriu, pegando os peixes pelo rabo e
comendo-os até desaparecerem na sua boca. Não deixando vestígios do mesmo,
engolia cabeças, rabos nem, sequer, as espinhas escaparam, marcharam na
totalidade. No final, jocosamente, com aquela sua voz grave e muita
característica ainda disse: - Não há por aí um pudim para sobremesa?
Vá ser guloso ao raio que o
parta, lá me “quilhou”, disse o António. Eu a presumir que ia deixar, pelo
menos, as espinhas! … Está bom de ver que eu já estava preparado para lhe dizer
que não ia pagar pois não acreditava que iria comer o peixe na íntegra, julguei
que, desta vez, o ia apanhar. Presumi que lhe ia causar um desgosto ou um
enfarte por ter que alargar os cordões à bolsa. Afinal nesta maré, não levei a
melhor, enganei-me. Pois é a julgar morreu um burro, disse rindo, o Dr. Nozes!
…
Noutra ocasião, um grupo de
jovens do Bairro da Misericórdia, resolveram pregar uma partida a esta
personagem. Seriam cerca das 4,00 horas da madrugada, dirigiram-se à residência
do Dr. Nozes, atando um carrinho de linhas, de cor preta, ao batente da porta
de entrada da casa. Desenrolaram-no até à base do Monte Castro, escondendo-se
nesse local, ficaria onde atualmente se situa uma serralharia. Depois puxavam
pelo fio que movimentava o batente fazendo o barulho característico, truz-truz,
que anunciava visitas ao residente. A parte residencial da casa situava-se no
1º andar, mas a porta ficava no rés-do-chão, subia-se por umas escadas
interiores. Após a terceira ou quarta tentativa, o Dr. Nozes, meio
estremunhado, assomou na janela que se situava por cima da porta. Realmente,
qual foi o seu espanto, quando viu a aldraba a bater sozinha, presumidamente a
bater sem que alguém a manuseasse. Assustado, melhor apavorado gritou: - Isto é
diabo! … Truz-truz, novamente. O Doutor cada vez mais intimidado gritava para a
sua esposa:- Ó Lerena, isto é diabo! Vai lá baixo ver. A esposa respondia: -
Estás maluco, vai tu. Todavia, também assomou à janela e da mesma forma ficou
assustadíssima. Por largos minutos se estendeu esta cena, o alarido cada vez
maior, razão pela qual os vizinhos acordaram e vieram verificar o que se estava
a passar. Toda a gente ficava admirada, mas ninguém ganhou coragem para ir
junto do batente ver o que se estava a passar. Na verdade, isto de confrontar o
demo não é para todos. Já alguém sugeria que se chamasse a Polícia. Porém,
localmente ninguém resolvia o assunto. Como a partida já começava a não ter
piada, foi resolvido colocar termo à mesma, deu-se um puxão mais forte na linha
que rebentou, recolheu-se o carrinho e resolveu-se abandonar o local. Antes
ficou combinado que um dos elementos do grupo que residia muito perto do local
do “crime”, passaria por lá, armava-se em “corajoso” e colocava termo à
brincadeira. Com efeito, assim aconteceu, o Cristóvão (nome fictício),
aparecendo pelo lado da cadeia, mostrando-se muito surpreso, perguntou, à
multidão que entretanto se juntou, o que se estava a passar. Foi-lhe dito que a
aldraba batia sozinha e, por isso, só podia ser o diabo ou coisa do outro mundo
a fazê-lo, pois ela era muito pesada e nenhuma rajada de ar conseguiria
movimentá-la. Valente, firme perante o perigo, o Cristóvão, desloca-se à porta
e agarrando na ponta de fio que ficou agarrada ao batente, disse:- Isto é
brincadeira de mau gosto, andou alguém a brincar com as pessoas, isto não se
faz. Do medo e do temor passou-se à gargalhada, todos menos o casal Nozes,
obviamente. O Doutor virou-se para o Cristóvão dizendo-lhe: - Caseiro amigo se
me descobrir os mentores desta brincadeira, dou-lhe uma rica recompensa. O
caseiro, mantendo a pose, retorquiu: - Vou fazer os possíveis para identificar
os autores. Contudo, caro doutor dispenso a recompensa, fá-lo-ei apenas por
amizade, consideração e boa vizinhança. Aqui o Dr. Nozes ficou mais descansado,
não fosse o Cristóvão mesmo descobrir os autores e lá tinha que largar uns
cobres, sendo por amizade é muito mais económico.
Para finalizar resta acrescentar
que o Dr. Nozes era uma figura muito simpática e popular, apesar da avareza refinadíssima.
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