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Monte Crasto



Monte Crasto

                Esta elevação situa-se a norte do Bairro da Misericórdia e é assim denominado, porque na época pré-romana terá ali existido um aglomerado castrejo, conhecido pelo Castro Máximo. Todavia, nós apelidávamos o mesmo de monte picoto, era uma espécie de picoto 2. Primeiramente o acesso dava-se por um caminho que se situava entre as duas pedreiras do lado sul, em frente à loja do Sr. António (pissinhas), mais tarde o avanço da exploração desses depósitos graníticos, originou que o carreiro sumisse. Realmente as pedreiras ficaram unidas. Então o acesso passou a efetuar-se pelo lado nascente, bairro Dr. Nozes.
Com efeito, ali situava-se um dos palcos de diversão da meninice da época da minha infância, a par dos campos de futebol - escola, de baixo e dos padres, bem como o monte da escola. Naquela elevação orográfica, desenvolviam-se várias atividades, o lançamento de estrelas (papagaios de papel), explorações em busca de tesouros perdidos, banhos no rio de moinhos (o ribeiro que passa de nascente para poente, na base norte do monte), caça do coelho com varapaus, acho que nunca apanhamos nenhum. Na verdade, das árvores ali existentes, principalmente dos carvalhos, cortávamos galhos para as forquilhas das fisgas, os bugalhos para jogar nas metas e no jogo que se efetuava com as cápsulas das garrafas de cerveja e laranjada. Também para construir os sticks a fim de jogar hóquei em campo, estes eram muito melhores que aqueles que eram manufaturados com troços de couve e, finalmente, ramos flexíveis para construir arcos e flechas. Porém aquele local era principalmente o quartel-general das forças tipo D. Quixote que defendiam o bairro de um suposto invasor bárbaro.
                Os quartéis eram desenhados em círculo no solo, com pedra solta chegando, por vezes a possuir um metro de altura, não tinham, telhado. Havia uma espécie de hierarquia, um comandante e o restante pessoal era a soldadesca. Não existiam telhados nem portas. Este exército não tinha uniforme, contudo, possuíam cartolas vistosas e muito coloridas feitas com papel e coladas com grude grosseira ou sabão amolecido. As armas eram, as fisgas, bem como os arcos e flechas já referidos e espadas construídas a partir de tocos de vassoura ou algum pau, mais reto, que se conseguisse retirar dos carvalhos. Simulava-se o descanso e sono, o pessoal deitava-se e fechava os olhos, mas qual força de elite, havia sempre sentinelas e quando bradavam às armas, era o sinal que o inimigo – fantasma - estava a atacar a fortificação. Rapidamente o pessoal se alinhava na borda do quartel, brandia as espadas e despachava algumas flechas para o ar e pequenas pedras atiradas com as fisgas, ao mesmo tempo que se gritava alto e bom som, era ótimo assustar o inimigo. Para descontração das tropas existiam atividades circenses, tipo cambalhotas, rodas e algum exercício mais exigente e, obviamente, palhaços. Era tudo pensado, para manter a tropa feliz e descontraída e, consequentemente, apta para as duras pelejas.
                Quando o sol começava a esconder-se lá para as bandas do mar, dava-se o regresso a casa em desfile. Formados a três encimavam cada fila um elemento que levava à cinta uma lata (tambor)) na qual batia com dois paus (baquetas), fazendo um barulho (tum terrrum, tum terrum) para ritmar a marcha. O comandante marchava garboso na frente.
                Com muita alegria, lá se encerrava mais um dia, na medida em que estavam certos que todos tinham vencido mais uma dura batalha, contra um poderoso inimigo, quais moinhos quixoteanos.

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