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Piscinas da pedreira



As “piscinas” naturais de Monte Castro

Nos anos 50 e 60, no Bairro da Misericórdia, no estio, quando o calor apertava e a canícula fincava, para a juventude bairrista e lugares limítrofes, um dos locais para se refrescar eram os lagos, formados pela água da chuva que escorria para as pedreiras do Monte Castro. Muito menino aprendeu a nadar no charco que se desenvolveu na pedreira situada mais a nascente, aquela que se conhecia pela pedreira do Teixeira. Não obstante ser um sítio arriscado, pois não se tinha pé e o fundo era irregular, bem como profícuo em objetos perigosos. Todavia, isso não importava, o pessoal parecia os patos as resfolegar nas águas mais cristalinas, do lago mais aprazível do mundo.
Várias brincadeiras e partidas tiveram aqui lugar. Porém, recordo-me de uma que alguém pregou ao saudoso Zé Luís (irmão do Bé). Realmente, um grupo de jovens, incluindo o visado, depois de realizada uma renhida partida de futebol, que teve lugar no campo da batateira, foram refrescar-se ao lago da pedreira do Teixeira. A maior parte tomou banho conforme veio ao mundo, isto é, nu. Um interveniente, mais folgado e brincalhão, saiu mais cedo e, disfarçadamente, apanhou o molho da roupa e o calçado do Zé Luís, indo coloca-los no pátio da sua residência, que era sita na Rua do Meio. O bom e o bonito, foi quando o Zé, depois de deixar a água, completamente restabelecido do esforço do jogo da bola, constatou que a sua roupa tinha, simplesmente, voado. Na verdade, queixou-se e acusou toda a gente que ainda estava no local. Porém, na realidade, ninguém nem sabia da nada. Todos os usuários da “piscina” presumiram que o vestuário havia sido furtado, na medida em que prevaricador o praticou o ato sem cúmplices, saindo de “fininho” e esperava, junto à casa do Zé, devidamente dissimulado para desfrutar do “panorama”. Apenas restou à “vítima”, tapando as vergonhas com as mãos, dirigir-se à residência Pimenta e solicitar uns calções ou umas cuecas ao Toneca, a fim de ir, mais menos, protegido até casa. Aqui chegado de imediato confirmou a brincadeira ao ver as suas roupas e os sapatos, bem em frente da sua porta. Ouviu, ao longe, uns risos de gozo que o saudoso Lino Veloso, soltava alegremente. Somente murmurou uns impropérios inaudíveis, apenas se percebendo:- “Hás-de pagá-las…”
Contudo, somando as várias queixas dos pais, bem como o contínuo desenvolvimento na extração do granito, o lago foi esvaziado.
 No entanto, logo surgiu outro, agora na pedreira mais a poente, aquela que era conhecida pela pedreira do Amândio. Neste local os fins e as brincadeiras eram os mesmos, tomar banho, nadar, enfim refrescar-se. Mas, não há bela sem se não, infelizmente, o divertimento, em finais da década de 60, veio a finalizar em tragédia. Acabou por ali falecer por afogamento, um jovem de 13 ou 14 anos, que era residente nas Palhotas. Para recuperar o cadáver foi necessária a presença dos Bombeiros que, com uma moto-bomba, esvaziaram o charco e lá bem no fundo, entre várias pedras soltas, jazia um corpo de uma criança.
Acabaram-se, para sempre, com as “piscinas” do Monte Castro. Era certo que havia um certo risco e grande irreverência ao frequentar aqueles locais. Que, afinal, veio a pagar-se com um preço extremamente caro.
Mas também que ficaram, boas recordações, ficaram.

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