Na continuação da saga da minha escola de futebol, desta vez vou dedicar a escrita ao Campo de Baixo. Este campo situava-se entre as traseiras das primeiras casas da ala esquerda da Rua Dom Francisco de Noronha e a congosta que existia entre este campo e a Quinta das Andorinhas, ou a Quinta do Rascão como nós a denominávamos. Apelidávamos a exploração agrícola deste modo, pois o caseiro ou proprietário da altura chamava-se Rascão.
Era principalmente um campo de Verão, na medida em que no Inverno tornava-se num autêntico lamaçal pelo facto de ali desaguarem duas linhas de água. A par de recinto de jogos de futebol era também um local onde passávamos muito tempo, aproveitando a linha de sombra proporcionada pelos choupos existentes em paralelo com o muro que delimitava o campo e a congosta, jogávamos às cartas. Esse jogo, normalmente era o “montinho”, todavia, também se jogava à “pedida” e ao “sete e meio”. Efectivamente o que movimentava esse jogo de cartas eram as apostas que se faziam com os “bilhetes de concurso”, ou seja com os cromos da bola. Até parecia um casino. Mas vamos ao que interessa, no campo as balizas eram duas pedras e havia dois tipos de desafios que ali se davam. Durante a semana, ao fim da tarde, pelo pessoal que ia aparecendo. É de realçar que alguns companheiros já trabalhavam, normalmente, saiam do emprego às 19,00 horas, logo que podiam voavam para o campo para ver se ainda tinham lugar no prélio desse dia, era uma desilusão completa se esse desiderato não fosse conseguido.
Os outros jogos disputavam-se ao Domingo pela manhã, aqui já se jogava de uma forma mais ou menos organizada. Embora com a índole de clube popular já existia o Grupo Desportivo do Bairro da Misericórdia. Porém, os componentes desse grupo, naquela altura, eram da geração anterior à minha. Nesta conformidade, o grupo que eu integrava era o pessoal da parte Oeste e Norte do Bairro, chamava-se a Associação Desportiva do Bairro da Misericórdia. Na parte Este e Sul do bairro existia o Académico do Bairro, havia ainda o grupo da Cadeia e o grupo da Praça. Combinavam-se os jogos e eram realizados com bastante entusiasmo e emoção. Contudo, os mais renhidos e disputados eram aqueles que eram jogados pelas equipas do bairro. Aliás, eram as melhores. As equipas eram compostas por sete elementos, tipo futebol de sete, os membros do meu grupo eram: O Fernando, o Raul, o Duarte, os irmãos Manuel e Joaquim Vidrago, o Valdemar, o Eduardo Conceição, o João Belo e eu. Na verdade, o nosso grupo era auto dirigido, exercíamos todas as funções inerentes a uma equipa de futebol. No tocante, ao Académico, o mesmo era constituído pelo António Almendra, Elísio, Carlos, Chico Xavier, Luís Braga, Jorge Boticas, o Rui, o José Louro e António Sousa. No entanto, este grupo já tinha um director que, por trabalhar na Farmácia Brito, exercia em paralelo as funções de massagista, estou a falar no Carlos Pereira. Nestes jogos já usávamos equipamentos. Os que nós utilizávamos eram brancos, camisola e calção, mas para diferenciar do GDBM que eram vermelhos, os nossos números eram em azul. Compramos as t-shirts no Bazar Cruz, na feira compramos tecido branco e azul, o branco foi para fazer os calções e o azul foi para criar os números para apor nas camisolas. Realmente, quem efectuou este serviço foi o Valdemar, para a feitura dos calções desfez uns já velhos tendo com eles manufacturado uns moldes que serviram para a produção dos novos. Era só criatividade e inovação.
Como já disse paralelo ao campo existia a Quinta do Rascão e a sudeste exista a Quinta da Tábia, eram locais onde nos abastecíamos de fruta, sem falar com o dono obviamente. No Rascão eram as uvas, os pêssegos e as maças, já na Tábia eram as uvas e as castanhas. Mas estas colheitas nem sempre eram fáceis, por vezes tinha-se que correr à frente do lavrador ou do seu cão que era bem pior. Mas tudo acabava em bem. Por estranho que pareça o nosso abastecimento em água era efectuado no Rascão, mas aí solicitávamos licença para ir à bica, realmente era uma água pura, fresca e cristalina. Por vezes a caseira, após conceder permissão, dizia-nos: Quando ides ao pomar às maças e aos pêssegos, não pedem licença a ninguém. Logicamente, que mostrava-mos uma carinha de inocentes e respondíamos que nunca tínhamos ido roubar fruta a nenhum lado, muito menos ali. Perante a insistência dela lá íamos dizendo: Se calhar foram os rapazes das palhotas, nós já os vimos por aqui muitas vezes. Logicamente que ela não acreditava pelo que proferia a ameaça de sempre: Eu que vos apanhe exibia um longo varapau, deixo-vos as costas em brasa.
Para terminar, já depois do 25 de Abril de 1974, já na existência formal do GD Bairro da Misericórdia, houve uma tentativa de construir ali um recinto poli desportivo. Foi obtida a licença da Mesa da Santa da Misericórdia de Braga para utilizar o terreno, todavia, por vários motivos gorou-se a construção desse equipamento desportivo.
Bons tempos.
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