Osvaldinho
Continuando a recordar figuras do Bairro como tema. Nesta perspetival, temos
o Osvaldo, ou o Osvaldinho.
Pelas minhas contas deve ter 62 anos de idade, presentemente e desde há
alguns anos encontra-se internado no complexo de Areias de Vilar – Barcelos, do
Hospital Psiquiátrico de São João de Deus, sofre de demência permanente. Creio
que o Osvaldo nasceu são em termos mentais, todavia, acho que foi vítima de um
ataque de meningite, ainda com meses de idade, que lhe tolheu,
irreversivelmente, a capacidade cerebral.
Era conhecido e popular não só no Bairro, mas também em toda a cidade.
Outrossim, era conhecido pelo seu gosto por porta-chaves, óculos e chaves de
automóvel. Viatura ou garagem abertos eram chamariz irrecusável, para o
Osvaldinho. Durante determinada altura até andava com um volante de plástico
debaixo do braço, pois também era louco por carros. Usava uma linguagem
completamente desbragada, em cada frase que proferia tinha que incluir dois ou
três palavrões. Ainda no Verão de 2014, encontrei-o na praia de Ofir, embora já
não nos víssemos há alguns anos conheceu-me de imediato. A sua saudação foi a
seguinte:- Olha este filho da puta, que andas aqui a fazer? De imediato foi
chamado a atenção pela funcionária que acompanhava o grupo de veraneantes,
oriundos de Areias de Vilar, dizendo-lhe que tivesse cuidado com a língua.
Resposta do Osvaldo:- Não faz mal este “caralho” é meu amigo, é do Bairro. Lá
estive, por minutos, a conversar com ele. Acabou por me pedir uma moeda para
tabaco e lá lhe dei depois de solicitar autorização à perceptora, uma nota de 5
euros. Como é sabido, ele é um fumador inveterado.
Bem assim, eram conhecidas e sentidas as fortes palmadas nas costas que
dava como cumprimento, quando aparecia, por trás, sem ser percebida a sua
chegada. Do mesmo modo se autoflagelava, principalmente com murros ou com
objetos, batendo, com alguma violência, na cabeça quando era fortemente
contrariado ou provocado.
Contudo a história que gravei e que me melhor classifica o Osvaldo, foi
passada com o Sargento Vilarinho, ao tempo, a prestar serviço, como Comandante,
no Posto de Braga da GNR. O caricato do sucedido é que o Sargento era tido como
prepotente e abusando de autoridade constantemente. A sua maneira de impor a
lei era a violência. Não digo que era uma figura sinistra, mas que criou a fama
criou, esta apenas se desvaneceu após a revolução dos cravos quando os abusos de
autoridade começaram a ser tratados judicialmente. Porém, este episódio
passou-se no período áureo do Sargento.
Certo dia o Osvaldo passava junto ao Quartel da Guarda Nacional
Republicana, no Campo da Vinha e resolveu sentar-se, como era hábito, num pequeno
parapeito que existia ao lado da porta principal. O sargento chamou-o à atenção
e ordenou-lhe que saísse daquele local. O Osvaldo respondeu-lhe: - Saio o caralho…,
olha, vai mas é trabalhar que não fazes nada. Embora despótico, o Vilarinho
sabia da condição psíquica do interlocutor, por isso respondeu-lhe: - Tu é que
podias ir trabalhar, assim não fazias asneiras. Resposta do Osvaldinho: - Ó meu
caralho…, vais mas é tu trabalhar que eu sou maluco! … O representante da lei
ficou sem resposta e não quis mais conversa com o nosso homem, deixando-o ficar
a descansar no banco improvisado.
Outra história que se conta passou-se quando foi sujeito à inspeção
militar. Regra geral, antes do exame médico, todos os mancebos eram obrigados a
despir-se completamente, tinham que se apresentar, à junta médica,
completamente nus, para que tal exame fosse levado a efeito, com mais eficácia
e rapidez. Com o Osvaldo não existiu exceção, tinha que comparecer, perante os
examinadores, tal qual como veio ao mundo. No entanto, quando apareceu na sala
de exames, estava em cuecas. O Sargento Enfermeiro ordenou-lhe que tirasse
aquela peça de roupa interior imediatamente. Resposta: - Queres ver que este
caralho quer ir-me ao cú! O Sargento olhou para ele, com vontade de o castigar,
mas o Coronel Médico, nem o deixou falar. Mandou o Osvaldo sair e vestir-se,
considerando realizado o exame médico.
Outras histórias haveria para contar com o Osvaldinho como referência,
porém, ficámos por aqui, sem deixar de assinalar que sinto muito carinho por
este ser humano que se entrelaçou nas nossas vivências bairristas. Muita saúde
e longa vida a este sexagenário que continua a ser um menino.
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