O comboio e o GD Bairro da Misericórdia.
Era um dia,
ainda quente, de finais Setembro, em meados da década de sessenta. O pessoal
que, na altura, fazia parte do Grupo Desportivo do Bairro da Misericórdia,
tinha marcado a reunião no largo fronteiro da Escola Primária, para dali,
partir em direção a Couto de Cambezes, onde ia disputar um encontro de futebol,
amistoso, contra a equipa local. O último a chegar, embora residisse, paredes
meias com a escola, foi Nel “esvaora”, embora apresentasse desculpas, aliás
muito esfarrapadas, logo ali levou uma descompostura do presidente, o saudoso
Pedro Freitas. Advertiu-o que para a próxima ficaria em casa, pois o comboio
não esperava. Ao ouvir o termo comboio acendeu-se em mim o desejo de também ir.
Viajar de comboio e acompanhar o pessoal do Grupo Desportivo, era tudo o que,
no momento, podia aspirar. Porém, existia um contratempo fortíssimo, não
possuía os cinco escudos para a viagem de ida e volta, estava completamente
liso. Comentei este desejo e a falta de “massa” ao Chico Chipenda que, como eu,
também mostrou vontade de fazer companhia ao grupo. Realmente, os nossos
queixumes foram escutados pelo Lino Veloso que, imediatamente, nos disse:- Se
querem ir, vão. Embora tivéssemos alertado para a falta de dinheiro, o Lino
acabou por dizer, não há problema, isso resolve-se. Com efeito, a equipa estava
toda, o guarda-redes, o Felisberto Carvalhal, os laterais eram o já citado
Manel e o Armando, os centrais o Bi e o Raul Martins, os médios Nadir, Chico
Freitas e Ninito, os extremos o Lino Veloso e o Serafim, por fim o avançado
centro era o Zé da Jaquelina. Suplentes, o Tone Marceneiro e o guarda-redes,
creio que nesta altura era o Serra. A comitiva era chefiada pelo presidente o
já aludido Pedro Freitas.
Lá se iniciou
a marcha até à Estação dos comboios. O Chico carregou o saco com duas bolas, e
eu o saco de massagista, tínhamos que ser úteis. No local o Pedro recolhe de
cada um os cinco escudos e adquire os bilhetes necessários para viajar. Vi que
alguma coisa não estava a correr como o previsto. Na realidade não havia
bilhete para mim nem para o Chico. Obviamente que supusemos que aquilo que o
Lino nos havia dito não tinha passado de uma brincadeira. Aliás ele era useiro
e vezeiro nesse tipo de atos. Tristes e dececionados íamos assistir à partida
do comboio e depois regressar ao Bairro, pelo que entregamos os sacos que
transportávamos ao responsável pela comitiva. O Lino ao assistir a esta ação,
depressa nos disse: Onde vão? Vocês vão connosco. E bilhete? Retorquimos em
uníssono. Já disse que não há problemas, entrem com o pessoal na carruagem,
acabou por dizer o nosso interlocutor. Cumpridores, lá entramos. Seja o que
Deus quiser, disse para mim.
A equipa foi
dividida por dois compartimentos, num deles o Lino determinou que eu e o Chico
nos sentássemos no chão, entre os bancos e com as costas para o lado da parede
que dava para o exterior. Seguidamente recolheu todos os sacos dos atletas que
foram colocados em cima de nós, ocultando de modo eficaz os nossos corpos, com
a recomendação de estarmos muito quietos até à passagem do “pica”. Assim fizemos,
imóveis que nem estátuas e calados que nem ratos. Quase que nem respirávamos. Pelo
matraquear das rodas sobre os carris, pela sensação de movimento, bem como pela
audição forte da buzina, sentimos que o comboio tinha iniciado a marcha. Segundos
após o revisor assomou na entrada da carruagem. Entre cânticos: “É hora, é
hora, é hora de ir embora…” ou “ É linho, é linho, quem se meter com o pessoal
do Bairro leva logo no focinho…”. De facto a algazarra, intencional, era
medonha, deu a impressão que o homem da CP, tinha ficado pouco à vontade com o
cenário que se lhe deparou. Não desconfiou de nada e deu a ideia que queria sair
dali o mais rápido possível. Fez o seu papel e não ligou ao monte de sacos.
Quando transitou para a carruagem seguinte, logo depois da paragem em Mazagão,
recebemos a ordem de sair debaixo da sacaria. Que alívio, deu para apreciar
melhor o meio de transporte, para mim novo, que estávamos a utilizar. O
compartimento admitia oito passageiros, tudo era em madeira, incluindo os
bancos, as prateleiras por cima dos mesmos para acomodar bagagem. A carruagem
acima das costas dos bancos era totalmente aberta e tinha um corredor de ponta
a ponta. A unir as carruagens havia dois pequenos varandins, completamente
abertos, apenas com guardas laterais. Tudo foi visionado com enorme
curiosidade.
Depois de se
imobilizar, para meter ou largar passageiros, ou efetuar cruzamento com outro
comboio que viajasse no sentido inverso, nas estações ou apeadeiros de Aveleda,
Tadim, Ruilhe e Arentim, cerca de meia hora lá arribamos a Couto de Cambezes.
Abandonamos o
comboio que se despediu com uma forte buzinadela e iniciamos a viagem até ao
campo de futebol, que distava do apeadeiro cerca de 1 quilómetro, encosta acima.
Para a época até nem era mau, possuía balneários, com água fria claro, o
terreno era mais ou menos liso, com balizas institucionais, bem marcado com
cal. A única coisa que não batia certo era uma enorme e frondosa macieira que
encobria a baliza do lado sul. Foi, precisamente deste lado que o Carvalhal
iniciou o desafio. Por essa razão eu e o Xico, posicionamo-nos atrás dessa baliza
para recolher as bolas que saíssem para, obviamente, ajudar a tarefa do nosso
“keeper”, não havia apanha bolas. Porém, logo nos minutos iniciais um avançado
da equipa local chutou, com bastante força, à baliza. No entanto, a bola saiu
por alto, atingindo a árvore de fruto já referida que se agitou, fazendo cair
algumas maçãs, já maduras, ao solo frente à baliza. Depressa esquecemos a bola,
eu e o Chico entramos em campo para recolher os apetitosos frutos.
Imediatamente, fomos avisados para deixar o campo. Logicamente que obedecemos,
mas fazendo uma “limpeza” ao terreno, ficando livre de maçãs, que deram para o
lanche. Esta situação ainda ocorreu mais algumas vezes. Contudo, quem efetuou a
recolha dos frutos foi o próprio Carvalhal que comeu mais maças que defesas que
realizou.
O jogo
terminou e, com sinceridade, já não me recordo resultado, realmente o que ficou
na memória foi o episódio das maçãs.
No regresso a
Braga, para mim e para o Chico usou-se o mesmo estratagema da ida que resultou
na íntegra. No entanto, a saída na Estação de Braga, era controlada pois dois
funcionários da CP que recolhiam os bilhetes dos passageiros para, deste modo,
poder identificar os borlistas. Como é lógico eu e o meu camarada de viagem
paramos e avaliamos a situação. Como já era fim de tarde princípio de noite, já
estava “lusco-fusco”, deixamos a estação e caminhamos, disfarçando a silhueta,
junto à vedação, até à passagem de nível de Maximinos (junto à ex-fábrica
Maconde) e por aí abandonamos, sem qualquer problema, a propriedade da CP.
Assim acabou
um dia da minha adolescência, com muita aventura e merenda gratuita, assim como
o batismo nas viagens de comboio e a primeira saída com o Grupo Desportivo do
nosso Bairro.
Em homenagem, ao Pedro Freitas, Lino Veloso, Ra
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