O muro da Dona Jaquelina
Era assim por nós denominado, o
muro que se situa na Rua Costa Palmeira, no Bairro da Misericórdia e que era
sobranceiro ao quintal da residência da família Ferreira Carmo da Cunha, cuja
matriarca era a Dona Jaquelina. Realmente, este muro marcou, em todos os
aspetos, o pessoal da minha geração, residente na zona norte do Bairro, desde a
infância até à juventude. Era o nosso epicentro social. Ali nos reuníamos a
falar de futebol, de política e perdoem-me as leitoras do sexo feminino, de
gajas. Era aqui o palco de muitos dos nossos jogos, desde o futebol até ao
esconde, passando pelos jogos do botão e o “caga e meija”. A casa da família
Santos e depois da família Belo da Costa, muitas vezes serviu de baliza, para
jogarmos aos “centros”. Isto é, marcávamos uma baliza, até a desenhamos na
parede, ali postava-se um guarda-redes que jogava frente a uma “catrefada” de
atacantes. O jogo consistia simplesmente numa espécie de pontapé de canto,
marcado junto ao jardim do Sr. Francisco (para seu desgosto), um elemento
centrava a bola e os atacantes procuravam introduzi-la na baliza, com a
oposição do guarda-redes, a regra é que a bola não podia cair ao solo. Quem
conseguisse mais golos ganhava a disputa. Existiam ainda as “peladinhas”,
jogavam-se na rua, de noite ou de dia, as balizas eram simplesmente os postes
de iluminação, situavam-se junto à residência nº 3 e no local que agora é
ocupado por uma cabine elétrica de alta tensão. Muitas bolas foram destruídas
pelo Sr. Francisco, quando estas caíam no seu quinteiro ajardinado. No que
concerne ao “caga e meija” e ao jogo do botão, bem como as metas, as cavidades
necessárias para a efetivação desses jogos eram realizadas junto à parede da
casa da Dona Jaquelina. Já no tocante ao “mosca, mosquito e moscardo” o jogo
era efetuado em qualquer das paredes.
Na verdade este muro, durante esse
período, podia ter ficado assinalado pela tragédia. Com efeito, quatro
companheiros, em quatro ocasiões diferentes, caíram ao quintal, apesar de o
desnível ser de, mais ou menos, três metros, felizmente qualquer dos azarados
saiu incólume da queda. O primeiro a cair foi o “Tone”, irmão da Guiomar, nessa
altura havia trabalho de reparação no pavimento pelo que os trabalhadores
colocaram uma grande quantidade de areia, para uso nas obras, que nivelou o
muro com a rua. Jogando a cabra-cega, o Tone, de olhos vendados, procurava
apanhar quem dele fugia, pelo que subiu para a areia e não valeu de nada os
avisos sobre o perigo eminente que o restante pessoal lhe prestou, pois ele
presumiu que o queriam confundir na busca, assim caminhou para o abismo e
estatelou-se no quintal. O segundo foi o meu irmão Carlos. No tempo sofria de
epilepsia, estava calmamente sentado no muro juntamente com outros companheiros
na conversa quando, de súbito, sofreu um desses ataques que normalmente
chegavam sem aviso. Inanimado caiu de costas para o precipício. Efetivamente a
sorte dele é que a queda foi amparada pelo arame de secar a roupa e fê-lo
rodopiar, pelo que a chegada ao solo deu-se amortecida e quase de pé, tombando
suavemente para a frente. O terceiro foi o Lino, o irmão do Calito e do Barão,
porém este tombo foi mais “soft” pois deu-se em dois lances. Foi durante uma
“peladinha”, este perseguia a bola para o lado poente, a velocidade era tanta
que não conseguiu parar, caiu para o socalco que existia no final do muro e daí
para o quintal, mas tudo muito rápido. Obviamente que a passagem pelo socalco
amainou o tombo final. O último a cair foi o “Barão”, a queda deu-se do lado
nascente do muro e seguiu-se a uma brincadeira estúpida, alguém o desafiou a
andar por cima do muro e sabe-se lá porquê desequilibrou-se e só parou no
quintal. No entanto, nessa altura, a Dona Jaquelina possuía no canto formado
pelo muro e pela residência um galinheiro, tal compartimento tinha a cobri-lo
uma rede, para evitar uma possível fuga das galinhas, essa rede, portanto,
amorteceu a queda, salvando o Barão de sequelas físicas graves. Felizmente, não
matou nenhuma galinha mas foi o cabo dos trabalhos arranjar o “teto” do
galinheiro. Qualquer deles apenas sofreu o susto, embora o meu irmão nem disso
se lembrava, pois a queda deu-se quando se encontrava em pleno estado de
inconsciência.
Figura 26: Moços
do Bairro
Na pequena brochura que escrevi
sobre algumas histórias do bairro reportei uma passada com o Zé Maria, quando,
daquele local, fugimos à Polícia e este não nos identificou, não obstante ser
instado fortemente pelos Agentes a fazê-lo. Porém, noutras ocasiões tivemos que
nos esconder, pois o Zé Maria, sem qualquer aviso prévio, a noite, quando
chegava de levar o leite à irmã que na altura residia na zona do mercado, se
dirigia à residência da família Ferreirinha Antunes e pressionava a campainha
elétrica da porta. Lá tínhamos que fugir pois não havia meio de convencer
aquela família que nada tínhamos a ver com o sucedido. Contudo, o Zé Maria, em
algumas marés, avisava, dizendo:- Rapazes, vamos tocar campainhas? Só podia ser
a da casa do Sr. Antunes, pois nas redondezas não havia outra. Aí tínhamos
tempo para gorar as intenções do Zé.
Também era aí que o Raul ligava o
seu gira-discos a pilhas e fartamo-nos de ouvir os Beatles, os Rolling Stones,
Otis Reading, os Creedence Clewater Revival, Scott Mackenzie e por aí fora.
O muro da Dona Jaquelina era sem
dúvida um ponto de reunião, um ponto de assembleia, um parque de jogos, uma
sala de música, que marcou favoravelmente e de forma bem vincada a nossa
meninice até à juventude. Era um local especial que nenhum de nós esqueceu. Não
é assim, companheiros de infância e juventude?
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