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Carrinhos de rolamentos.



Formula 1, em madeira

                O fenómeno dos carrinhos de rolamentos também aconteceu no Bairro da Misericórdia, nos tempos idos dos anos 50 e 60 do século passado. Havia carros, motas, com rodas de madeira, rolamentos, guiadores e alguns até travões possuíam. Cada construtor colocava no “veículo” as características que desejava, ou, numa segunda hipótese, mais comum, material que havia disponível. Existiam mesmo algumas “obras de arte”. Recordo que, nessa época, a Rua Dom Francisco de Noronha, era alcatroada, aquele “piche” antigo, negro e que no verão, face às temperaturas ambientais bastante elevadas até derretia. Depois lá andava o Sr. Francisco a colocar umas pazadas de areia, a fim de proteger o solo. Todavia, de certo modo estragava a pista, pois o piso ficava desnivelado. Apesar desta situação tal facto não obstava a que os “condutores” pegassem nas suas “máquinas”, dirigindo-se à linha de partida que se situava, na “fronteira” do Bairro, junto ao entroncamento da rua principal com a Avenida da Cadeia. Com efeito, aproveitando o declive, de lá partiam solitários ou em grupo e vertiginosamente percorriam um percurso que findava, mais ou menos, no cruzamento com a Rua Gonçalves Braga ou Dr. Costa Palmeira. Na maior parte das vezes havia despistes, principalmente na curva, no cruzamento com a Rua Dr. Cruz Teixeira, pois o “relevé” desta sacudia para fora, se o condutor não fosse hábil, inclinar o corpo para dentro, era certo e sabido que iria acontecer, infalivelmente, tombo. Se bem que apareciam algumas escoriações lá se voltava ao ponto de partida e nova corrida, nova viagem!
                Nestas andanças “automobilísticas” também havia fiscalização, a mais séria era da polícia, amiudadas vezes aparecia de rompante, originado a fuga apressada e, em algumas ocasiões, não era possível levar a o carrinho. Consequentemente, o fim dele – carrinho- era a destruição pois, os homens da lei, não perdoavam. O já referenciado Sr. Francisco, também não deixava passar a cena em branco, porém fazia-o somente avisando do perigo que se corria e advertia, em tom ameaçador, que iria falar com os pais dos “motoristas”. Da mesma forma já que se passava à sua porta, o Chefe Carvalho, não obstante ser, um ser humano de excelência, também não deixava passar em claro o “evento desportivo”, ainda efetuou algumas interceções, por via disso destruiu uns carritos.
                Efetivamente, o perigo era enorme, passando pela pouca segurança do carrinho, até ao facto de, eventualmente, chocar com algum automóvel em circulação, apesar de na altura o tráfego rodoviário ser diminuto, no entanto o risco era real e muito sério. Diga-se de passagem que o problema foi resolvido pela Santa Casa da Misericórdia que, em determinada altura, mandou substituir o alcatrão por empedramento de granítico, consequentemente, lá se foi a pista, na medida em que com este novo piso os carrinhos não rolavam, as ranhuras que existiam entre os paralelos de granito provocavam a imobilização das rodas dos referidos carros. Aliás, os rolamentos até quebravam.
                Embora perigoso, contudo vividas com muita emoção, lá se foram as corridas loucas de carrinhos de rolamentos, ficou-se apenas com a “pista de ensaios” que se situava sob os alpendres da escola primária, mas só se podia usar fora de horas ou ao fim de semana. Além disso, podem crer que não era a mesma coisa! Ali as coisas eram muito previsíveis e havia necessidade de arranjar um “motor acessório”. Alguém tinha que empurrar o conjunto, carrinho e condutor e às vezes não era fácil arranjar um.

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