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Bola no Rascão



Bola no Rascão.

Já aqui se falou em futebol, nomeadamente nos campos que a juventude bairrista usava para praticar o seu desporto favorito, o futebol. Esta história ocorreu no campo de baixo que se situava na parte traseira dos primeiros edifícios do lado esquerdo, da Rua Dom Francisco de Noronha. Do lado poente ficava uma pequena congosta que fazia paredes meias com a Quinta das Andorinhas, ou quinta do Rascão como nós a denominávamos.
Certo dia e como era usual, o pessoal encontrava-se por ali, esperando que alguém trouxesse uma bola, para dar início a mais uma partida renhida de futebol. A determinada altura chega o João, com uma bola de couro ou ”capão”. Realmente foi uma grata surpresa pois esse tipo bolas, na época, eram raríssimas. O que era corriqueiro era a existência de bolas de trapos ou de plástico. Aliás as de borracha já eram um luxo, agora de couro, era uma sumptuosidade. A excitação era grande, portanto de imediato o pessoal se organizou, pelo que os guarda-redes “deitaram pés” para escolherem alternadamente a sua equipa. Na medida em que o grupo era constituído por um número ímpar, havia necessidade de deixar um elemento de fora, usualmente era o menos dotado de dotes futebolísticos. Nesta ocasião a sorte tocou o dono da bola, o João ficou de fora, com a promessa que seria por pouco tempo, pois iria haver substituições. Vá lá vai, os que jogavam não queriam sair, quando o jogo já decorria há cerca de 20 minutos, a bola sai do retângulo, o João apanha a “redondinha”, mete-a de baixo do braço e o jogo acaba, pois diz que vai para casa. Imediatamente foi rodeado pelos intervenientes ativos na partida no sentido de o fazer repensar sobre a atitude que estava a tomar. Ainda assim foi-lhe prometido que iria entrar de imediato. O estratagema do dono da bola produziu efeito positivo, na medida em que o que ele queria, como todos, era participar ativamente na partida.  Foi integrado na equipa que já estava perder, consequentemente, a sua entrada forjou o equilíbrio das forças em confronto. Porém, o João tinha os pés “virados para a doca” a dado momento a querer defender a sua baliza dá uma biqueirada bastante defeituosa na bola, ela com um raio, passa por entre os choupos e como uma bala foi para ao campo do Rascão. Alguém alvitrou:- Quem mandar a bola para a quinta vai busca-la! O João ainda tentou arranjar quem fizesse o serviço por ele. Todavia, teve azar, ninguém se ofereceu para a realizar a tarefa. Logo, ele trepa o muro que delimitava a propriedade, localiza a bola há cerca de trinta metros, desce e em silêncio, disfarçando a silhueta, e muito devagar, para não assustar o Leão, o cão de guarda da quinta que era um enorme castro laboreiro, que mais parecia um touro, caminha para ela. Contudo, o Leão não estava a dormir, como bom guarda, levanta-se e localiza o intruso e corre para ele, é alertado dessa situação pelo Lino que se achava em cima do muro. Por consequência, numa correria louca, acompanhada com alguns tombos, o João enceta a fuga para regressar ao campo, no entanto o raio do cão encontrava-se cada vez mais próximo, ladrava ameaçador e quando este já lhe cheirava os calcanhares, o acossado começou aos gritos, pelo que o Lino pulou do muro para a quinta e qual “dog witcher” coloca-se frente à besta sem qualquer receio ou temor, começa a falar-lhe com carinho, assobiar e fazendo gestos lentos para o acalmar. Realmente, com surpresa, amansou a fera, dando tempo ao João para sair, embora ofegante e todo arranhado, lá sobe o muro e deixa o palco da peleja, agradecendo encarecido ao Lino a ajuda prestada. Ainda deu para dizer, que susto do “caralho”! O “bégueiro” do cão ia-me ferrando.
Após um breve intervalo e após o do dono da bola sossegar, demais a mais o João nesta maré, agora com alguma razão, já queria regressar para casa. Mas dissuadido ficou, assim o prélio reiniciou.
A estreia da bola de “capão” estava a ser marcada pela falta de sorte, desta vez foi o Emílio que prega um chutão na bola e ela, veloz como uma granada de morteiro, lá foi morar direitinha para o meio do Rascão. Agora avisado pelo episódio anterior o Emílio, só saltou para a quinta quando teve a certeza de detetar a bola, de localizar o animal de guarda e depois de gizar um plano de retirada seguro e eficaz, pois o “dog witcher” já não se encontrava no local, para o proteger. Além do mais, solicitou ao Zé que subisse ao muro e se colocasse de atalaia, a fim de vigiar os movimentos do canídeo. De facto o amigo assim procedeu, subiu a pequena muralha ficando de vigia. O Emílio, calmamente, dirige-se à bola, recolhe-a e sem pressa dirige-se para o tapamento da fazenda agrícola. Outrossim, o raio do Leão que era competente, pressentiu estranhos e com fortes latidos, bastante ameaçadores, lá inicia a perseguição do intrometido. O Zé dá o alerta, assim Emílio acelera o passo rumo á saída, já com o cão a morder-lhe os calcanhares começa a subir a sebe granítica, para ajudar o Zé dá-lhe uma mão e puxa-o com firmeza para cima, livrando-o dos dentes aguçados e do bafo mal cheiroso do bicho, ao mesmo tempo que disse:- Salvei-te Milo! … Ficou célebre esta frase.
Foi demais, na realidade a infelicidade marcou a inauguração do uso da bola de couro, depois destes dois incidentes, foi acordado dar como encerrada a partida, mas os intervenientes passivos dos mesmos fartaram-se de rir e gozar com os mesmos, conquanto muito admirados com os dotes de “dog witcher” do Lino.

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