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O Guarda Noturno



O Guarda Noturno


Um guarda-noturno é um profissional que exerce a atividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período da noite, auxiliando as forças de segurança
Em alguns lugares de cada concelho do nosso País, podem ser estabelecidos serviços de guarda-noturno pela respetiva câmara municipal, a pedido de entidades públicas ou privadas dessas áreas, tais como as juntas de freguesia, moradores e comerciantes. Ao estabelecer um serviço de vigilância noturna, a câmara define a sua zona de atuação, bem como procede a uma abertura de um concurso de seleção e licenciamento dos profissionais que irão prestar o serviço. Até há pouco tempo, todas estas responsabilidades cabiam aos governos civis distritais.
Estes vigilantes noctívagos prestam um serviço público, devidamente uniformizados e armados, sob tutela do comando policial da zona, tanto pode ser a Polícia de Segurança Pública ou a Guarda Nacional Republicana. As rondas pela sua zona de atuação podiam ser realizadas a pé ou numa viatura própria.
São remunerados pela contribuição dos beneficiários locais do seu serviço. Normalmente, aos beneficiários contribuintes, são distribuídos distintivos autocolantes, para serem colocados nas suas viaturas e instalações, assinalando que as mesmas estão sujeitas a uma vigilância prioritária de um guarda-noturno.
Trajam uniforme próprio, com as letras "GN" nas platinas e com os distintivos de guarda-noturno.
Nos anos sessenta e seguintes quem executava essas funções no Bairro da Misericórdia, era o simpático Senhor Coelho. Fardado e armado com pistola e sabre, um pouco depois da meia-noite lá aparecia ele, sempre atento e vigilante. Porém, não desprezava a companhia de alguns dos habitantes que eventualmente encontrasse, pois, segundo dizia, a noite passava melhor. Nessa perspectiva, principalmente nas noites de sexta-feira ou sábado, fazíamos, muitas vezes, companhia ao Sr. Coelho, depois de ter assistido a uma sessão de cinema no Teatro Circo ou no São Geraldo. Ou após ter visto, no Café da Praça, um episódio da famosa séria televisiva, passada no oeste americano, chamado Bonanza. Escutávamos atentamente as suas histórias de polícias e ladrões, sabendo nós que o mesmo confabulava um bocadito, principalmente quando assumia o papel de herói, pois nós sabíamos sem qualquer tipo de embargo que era um tanto medroso. Realmente de vez enquanto pregávamos alguns acintes ao vigilante, como por exemplo fazer ruídos ou movimentos estranhos em algum quintal. Ele quando pressentia algo de anormal, não ia investigar, antes pelo contrário, fugia do sítio, assobiando para o alto, fazendo que não era nada com ele. Em algumas ocasiões, após de ter sido provocado o restolho, dando uma grande volta, íamos ter com ele comunicando-lhe esses factos suspeitosos. Numa primeira instância desvalorizava a situação, todavia, perante a nossa insistência para lá se dirigia. Porém, em quaisquer circunstâncias, não desprezava a nossa companhia. Para a justificar dizia-nos:- Venham lá ver comigo, vão constatar que estão enganados e que nada de anormal se passa. No local, não se chegava muito à frente, antes pelo contrário, ficava na retaguarda, dizendo a um de nós para lá ir, pois eramos mais jovens e assim passavam melhor pelos obstáculos. Mas que fossemos à vontade, pois ele estaria sempre de atalaia a zelar pela nossa segurança, exibindo o coldre da pistola e a grande espada, ambos postados à cintura. Mas tudo bem, excetuando as pirraças que lhe pregávamos o que, na realidade desejávamos era conversa ou companhia para dois dedos de prosa e parece-me que o desejo era sempre recíproco, pois ele tentava sempre a adiar o nosso regresso a casa, para isso inventava histórias ou prolongava conversas, às vezes, sem qualquer jeito ou interesse. Religiosamente no último Domingo de manhã de cada mês, lá aparecia nas residências a efetuar a cobrança mensal, referente aos serviços prestados. Outrossim é inteiramente verdade que, mesmo sem o seu conhecimento, substantivamente fazíamos o seu serviço. Recordo-me que em determinada altura, seriam cerca de duas horas da madrugada e era Verão, estávamos na conversa, no campo que intermediava a Rua Abade da Loureira e a Rua Dom Francisco de Noronha, quando reparamos que um vulto tinha entrado num quintal de uma das casas, logo no princípio da artéria principal do bairro. Imediatamente para lá nos deslocámos e num avanço rápido e silencioso, quase militar, comandados pelo João da “Luisinha”, intercetamos o intruso a espreitar por uma das janelas de uma residência onde só residiam moças estudantes. Era bom de ver o que o mirone pretendia. No entanto, para nosso espanto constatamos que era um elemento de uma força de segurança e residente no Bairro da Senhora do Monte ou no Bairro de São Martinho. Mesmo com essa qualidade foi chamado a atenção pelo ridículo e pela obscenidade da sua ação. Inclusivamente, o nome mais simpático que lhe atribuímos foi de “porco”. Contudo, lá se foi justificando, dizendo que o seu ato nada de anormal possuía. Aliás, encontrava-se em missão especial. Na verdade estava ali para constatar se os locatários se encontravam a praticar alguma ação subversiva, ouvindo a rádio moscovo, logo numa ação prevista e punida pela lei portuguesa. Desfaçatez e pouca vergonha não lhe faltaram. Nessa altura, a nossa vontade era pregar-lhe uma carga de “porrada”, mas como era da bófia, ficamos apenas pela intenção. De qualquer modo foi convidado a deixar o local e a deixar as moças em paz. Tendo respondido cinicamente que ia embora pois já tinha acabado o serviço. Pois tinha! Grande velhaco.
Vamos acabar a história da forma como a iniciámos, falando dos guardas noturnos, figuras típicas que marcaram uma época e que, se calhar, atualmente voltariam a ser muito úteis. Aqui fica a homenagem a estes homens, lembrando o Senhor Coelho.

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