Idas ao campo de aviação.
Ainda
no século passado, concretamente nos anos sessenta, no Bairro da Misericórdia,
para a juventude, uma das maneiras de passar o tempo, principalmente nas longas
ou curtas, consoante a perspetiva, férias letivas de verão, era ir até ao campo
de aviação que, para as nossas pernas curtas, situava-se quase no fim do mundo.
Por essa razão esta viagem não se repetia muitas vezes. A finalidade era jogar
uma partida de futebol e no fim tentar apanhar algum grilo, para cantarolar,
alegremente, nas nossas casas.
Reunido
o grupo, pois a caminhada era efetuada assim mesmo. Lá saímos do Bairro,
tomando o caminho que dava para a Senhora do Monte. Realmente, logo ali, junto
à venda da batateira, algumas vezes, eramos parados pelo saudoso Pedreiro
Senhor Macedo, por motivos de segurança, ia haver “tiros” na pedreira. Depois
de várias explosões e de ouvirmos as pedras a sibilar voando por cima das
nossas cabeças, tal qual os estilhaços de obus em cena de guerra, era um pavor
enorme. Na realidade, era mesmo assustador. Alguns minutos após, recebíamos a
ordem, simpática, do pedreiro cabo-verdiano, para avançar. Porém, o conselho
vinha sempre:- Cuidado rapazes, o monte tem muitas armadilhas e na estrada tenham
muito cuidado com os carros. Na maré achávamos o aviso desnecessário, mas como
era oferecido simpaticamente, nós agradecíamos. Passávamos em frente à pedreira
e pouco mais adiante, começávamos a descer para a estrada de São Martinho. Em
algumas situações lá víamos um coelho a atravessar velozmente o caminho. Na
verdade, lá perdíamos algum tempo a tentar localizar a lura do dito, com a
intenção de o apanhar. Muníamo-nos com paus, para abrir caminho pelo mato denso
e para servir de arma para abater o bicho. Acho que nunca tivemos êxito neste
tipo de operações. Contudo, era um corre-corre dos diabos e no fim lá vinha um
comentário de algum membro do grupo:- Estive quase a apanhá-lo, mas o “gajo” á
última da hora deu uma pirueta e escapou. Bem sabíamos que era imaginação
fantasiosa, todavia alguém respondia:- Para a próxima apanhamos o animal.
Chegados
à estrada, logo a frente, do lado direito existiam e acho que ainda existem
umas “Alminhas” aqueles pequenos santuários em granito, de índole católica,
que, normalmente, possuem um quadro das almas que habitam o purgatório, rogando
preces veementes aos passantes para que transição se desse rapidamente para o
paraíso. Num dos périplos, deparámos que tais “alminhas” estavam engalanadas
com festão de papel e muitas velas, umas a arder e outras não. Na nossa boa-fé
e respeitando o local, pretendemos acender as velas que se encontravam apagadas,
a fim de que as almas tivessem mais luz. Todavia, alguém inadvertidamente
chegou fogo ao festão que parecia que tinha gasolina, começou a arder
violentamente, era impossível apagar o fogo. Na realidade era um dia quente de
Junho e não havia água perto para abafar as labaredas. Por consequência a
decisão tomada foi deixar sorrateira e com pressa o local, para não sermos
responsabilizados por algum dano provocado, mas aludindo sempre a má sorte pois
não era nossa intenção provocar aquele acidente, para alguns de nós seria mesmo
sacrilégio que tínhamos de revelar ao sacerdote numa próxima Confissão.
Seguíamos
pela estrada até ao cruzamento do Cemitério de Dume, aí rumávamos a norte,
cruzando a estrada que vinha da Confeiteira para Real. Daí para a frente era
caminho em terra, ladeávamos a escola, iniciava-se uma pequena descida e quando
ela aplanava virávamos à esquerda. A meio deste caminho, do lado esquerdo,
havia uma poça, um tanque fabricado de forma rústica. Numa determinada ocasião
deparamos que dentro da mesma existiam, três ou quatro sacos de zarapilheira
que no seu interior tinham tremoços que estavam a demolhar. Na nossa infantil
ingenuidade vimos logo um petisco. Abrimos um saco e começamos a meter na boca
alguns deles, de imediato foram cuspidos e proferidos alguns impropérios.
Pareciam favas cruas. Santa ignorância.
Quando este
caminho entroncava com um outro, deixávamos o mesmo e por um carreiro que se
intrometia bouça adentro, chegávamos ao campo da aviação. A viagem, se não
houvessem paragens pelo caminho, demorava cerca de uma hora.
No local, já
existiam campos demarcados nas zonas que ladeavam a pista de aterragem. Escolhia-se
o melhor que estava disponível. Formavam-se as equipas, “deitando pés”.
Normalmente os dois melhores jogadores colocavam-se frente a frente, a cerca de
cinco metros, um do outro e começavam, à vez, a caminhar frente a frente,
colocando somente um pé alternadamente, aquele que fecha-se o percurso era o
primeiro a escolher um colega de equipa. Estabelecia-se o tempo do prélio,
acaba aos doze e muda-se aos seis. Quer dizer, ao décimo segundo golo a partida
findava. Trocava-se de campo e fazia-se um pequeno intervalo, quando uma das
equipas chega-se ao sexto golo. Às vezes acaba-se cedo, outras vezes, quando os
jogos eram mais renhidos, não dava para chegar aos doze.
Acabado o
jogo lá íamos à cata dos grilos, munidos de uma “palheira” arranjada num
pequeno arbusto, cutucávamos as pequenas tocas, lá saía um grilo, noutras ocasiões
uma fêmea que, imediatamente, era morta, por esmagamento. Pois tínhamos a ideia
que estas, não cantavam e ainda por cima matavam os seus pares, cantadores, no
fim do ato sexual. Ais os epítetos que lhe atribuíamos, nem queiram saber! …
Lá
iniciávamos o regresso, na maior parte das marés quando chegávamos ao lar, já o
sol se tinha posto. O sermão costumeiro pela entrada tardia na residência, e o
inquérito de onde e como passamos a tarde. Era fácil responder, fomos aos
grilos ao Monte Castro ou ao Monte dos grilos, era assim que denominávamos a
encosta onde atualmente se situa o Bairro de São Martinho. As nossas mães,
normalmente, contentavam-se com esta resposta, o bichinho era o alibi. Arranjava-se
uma gaiola a preceito onde se enjaulava o grilo e era uma sorte se ele cantava
e se chegava ao fim de Agosto.
Bons velhos tempos. Good old days.
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