As bicicletas do Adão.
Muita juventude
do Bairro da Misericórdia aprendeu a andar de bicicleta, com as velhas máquinas
que se alugavam no ”garagista” Adão, cuja oficina se situava no Campo da Vinha.
A locação era por uma hora, duas ou a tarde, o preço variava entre 2$50 e
10$00. Também era necessário deixar como caução, o bilhete de identidade, ou na
falta deste um objeto ou uma peça de vestuário. Quando o aluguer não era
efetuado com segundas intenções, deixava-se o BI. Todavia, quando se pretendia
usar a bicicleta por muito tempo e pagar pouco, arranjava-se uma velha camisola
e entregava-se ao mesmo como penhor, ao mesmo que se frisava que o progenitor
não deixava andar com o BI. Nestas ocasiões, obviamente que não se devolvia a
bicicleta pessoalmente, na hora combinada como final da locação. Com efeito, na
maior parte das vezes, ao fim do dia, abandonava-se na zona da praça ou mesmo
do Campo da Vinha. Nesta conformidade, normalmente às segundas-feiras, o Adão
montado na sua velha motorizada Pachancho, rondava aqueles locais, com intuito
de as recolher e, obviamente transportá-las para a sua garagem. Numa dessas
operações de coletagem, faltava-lhe um velocípede, consequentemente, teve que
alargar, em termos geográficos, a sua pesquisa, por isso veio até ao Bairro da
Misericórdia em busca dela, pois possuía a sensação que o locador era daquele
aglomerado populacional. Com efeito, percorreu os lugares mais recônditos do
Bairro, a congosta, a pedreira, a cadeia e o monte da escola. Realmente foi
neste último lugar que achou a bicicleta, a qual se encontrava coberta por
folhagem e ramos de árvore. Transportou-a à mão até ao largo do edifício escolar,
onde, aliás, tinha deixado a sua motorizada. Preparou o regresso ao Campo da
Vinha, por consequência depois de montado na motorizada, apenas a conduzia com
a mão direita e com a mão esquerda levava o velocípede em paralelo, parecia
quase um número de circo. Porém, quando desceu a Rua Graça Júnior e chegou à
Rua D. Francisco de Noronha, constatou que, naqueles termos, não seria muito
fácil subir a Rua Abade da Loureira, face ao enorme declive daquela artéria
citadina, por conseguinte parou e olhou em seu redor. Naquele momento ia a
passar o Gaspar, um jovem do Bairro, ao qual perguntou se sabia andar de
bicicleta. Este respondeu que não era nenhum Alves Barbosa, contudo, dava-lhe
um jeito. Nestes termos, convidou-o a montar-se na bicicleta e na sua retaguarda
iriam até ao Campo da Vinha. O Gaspar aceitou o convite, já que ia ter umas
pedaladas gratuitas. O Adão na frente com a motorizada e o Gaspar atrás com a
bicicleta, lá iniciaram a marcha. No entanto, quando iam a meio do campo que
separava o Bairro da Misericórdia da Rua Abade da Loureira, o Gaspar sem
qualquer tipo de aviso, guina à direita e num sprint vigoroso dirige-se para a
entrada da quinta do Rascão e aí roda para a direita metendo-se pela congosta
até ao Bairro da Senhora do Monte, desceu até à pedreira do Silva, escondendo-se
no Monte Castro, esperando aí até que o clima acalmasse. Entretanto, o Adão quando
já estava a chegar à Praça olhou para trás de bicicleta e ciclista nada. Supôs
que o rapaz talvez não tivesse pedalada para subir a rampa, pelo que inverteu a
marcha e desceu a rua. Mas do Gaspar e da bicicleta nem vestígios e, por outro
lado não havia a quem perguntar o que aconteceu, na medida em que, naquela
hora, aquele local achava-se completamente ermo. Dizendo mal da sua sorte e
proferindo um rol de pragas ao moço, ainda deu uma volta pelo Bairro, mas a
vistoria correu negativamente, recolhendo, sem a máquina, à sua oficina. O Gaspar
após espera duma hora monta-se na “burra”, vem até ao Bairro onde por um dia se
fartou de pedalar, repartindo esse prazer com os seus amigos que, naquele meio
tempo, foram aparecendo. Já era noite, quando o estabelecimento do Adão se
encontrava encerrado, o Gaspar foi deixar o veículo de duas rodas junto à
Igreja do Pópulo, pois segundo a sua opinião o prejuízo do Adão não seria
muito!
Noutra ocasião
o Raul e o João foram alugar, ao Adão uma bicicleta, o Raul já sabia andar na mesma,
mas o João ainda se encontrava numa fase muito primária de aprendizagem. Já se
equilibrava, ainda assim era-lhe difícil curvar e dominava muito precariamente
os travões e o guiador. Quase em frente à porta do antigo Quartel 8, virado
para sueste, o João montado no velocípede, o Raul a segurar no selim, lá
iniciaram o movimento. Quando este último larga o assento da bicicleta o João
entre em pânico e sem travar, sem curvar vai direitinho, como uma bala, a um
monte de melões e melancias, propriedade do famoso Toninho do Melões,
estatelando-se em cima da fruta esmagando parte dela. Seus malandros gritava
histericamente o efemininadoToninho, ides pagar o prejuízo. Ó pagas diziam em uníssono o Raul
e o João, encetaram a fuga até ao Bairro, não se importando com os estragos,
quer da fruta quer da bicicleta. O João apenas disse mal da vida dele pois
tinha deixado no Adão como aval do aluguer, um “pull over”, ainda novo que
havia recebido do padrinho aquando do seu aniversário. Na verdade ia ser uma operação
difícil, justificar-se perante a sua mãe da perda daquela peça de vestuário.
Mas tudo está
bem quando acaba bem, pelo menos para a juventude bairrista!
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