Mais uma do Zé Maria
Como os meus
amigos bairristas sabem o Zé Maria, no pretérito Convívio de Habitantes e
ex-habitantes do Bairro da Misericórdia, que ocorreu em de Junho 2016, foi
homenageado, atribuindo-lhe a organização do evento um pequeno objeto de barro,
no qual se encontravam gravados a sua fotografia e um emblema do SL Benfica.
Realmente tal prova de carinho foi do agrado de todos os presentes, mas
principalmente do visado. Verteu algumas lágrimas de emoção quando, com extrema
alegria, mirava a peça de olaria que lhe havia sido ofertada.
È do
conhecimento geral que o Zé, no meu pequeno livro “Estórias de Bairro”, foi um
dos protagonistas de algumas crónicas que publiquei. Na altura, quando encerrei
esse capítulo referi que muitas outras havia para contar. Nesta conformidade
aqui vai uma ou duas, para completar a homenagem que, na altura, lhe foi
prestada.
Certo dia
estava eu, o Carlos (palhaço) e o Bé, em amena cavaqueira no Café Brasil.
Entrementes, chega o Zé Maria e ao sentar-se na nossa mesa, rapidamente nos
disse:- Rapazes, vamos fazer uma sociedade? Admirados com a proposta inaudita,
um de nós retorquiu:- Ó Zé, vamos fazer uma sociedade de quê? A resposta
elucidativa do Zé, logo veio:- Ó pá, vamos montar um motor ao “arear”. “Arear”,
queria dizer Areal, zona que se situa perto do Quartel de Braga. Para dar
continuidade à conversa, de imediato aceitamos o convite formulado. Agradado
com a resposta, naquele seu jeito, muito feliz, meio curvado, ria esfregando as
mãos. Imediatamente, fomos apelidados de “Soces”, ao mesmo tempo que nos
dizia:-No fim do “tabar”, na Dininha, “vamo” apanhar uma borracheira. Nesta
altura testei o Zé, que era e é abstémio, fui dizendo:-Tudo bem, até gostamos
da ideia, eu, o Carlos e o Bé, apanhamos uma borracheira de cerveja e tu o que
bebes? Eu, apanho uma borracheira de água de “cavareiros”, porque a minha mãe
não deixa beber vinho nem cerveja. Agora, comento eu:- Era uma borracheira
limpinha visto que a dita era proporcionada por água puríssima de Carvalhelhos.
Derivado deste episódio, durante muitos anos fomos tratados, amistosamente,
pelo nosso querido cúmplice associativo, por “soces”.
Face à sua personalidade,
o Zé mudava de humor constantemente. Essa variação, era notória quando
apreciava determinada situação. Quando andava de mau humor, era normal
denominar a oficina onde trabalhava, propriedade de familiares, por Casa do Zé
da Velha. Também quando se chateava com o seu irmão Daniel (perdoa-me Daniel se
estou a ser indiscreto), chamava-lhe “menino ouro”, o futebolista João Pinto
devia pagar direitos de autor ao Zé pelo apelido que lhe foi dado. Em contra
partida, quando andava de bom humor e nós dizíamos-lhe que trabalhava na casa
do Zé da Velha, ele depressa nos emendava e muitas vezes essa emenda vinha
acompanhada com alguma ameaça, dizendo:-A oficina chama-se Casa Vieira, não é
Zé da Velha, ouviste? No que concerne ao “menino ouro”, também referia:- Não
“guiga” (diga) isso, meu irmão “Niel” não gosta. Essa mudança de humor também
se notava no seu grande amor pelo Benfica. È realmente verdade que em algumas
ocasiões, alterado fisionomicamente, dizia:- “Puta pariu” Benfica. Agora sou
“spot” ou “poto”, conforme a maré. “Puta pariu” Eusebe, Chalana ou Coluna, são
“conos” da Suiça ou “panereiros”, agora sou Vítor Baía ou Damas ou Manuel
Fernandes. Todavia quando caía em si e nós o confrontávamos com essas
afirmações depreciativas do glorioso, ele depressa dizia:- “Tava a bincar”” o
Benfica é o maior, da sua espessa carteira sacava um cromo com o emblema do
clube da águia ou de algum seu atleta e beijava-o até ao exaustão.
Relacionado
com a minha vida profissional, a par da história da detenção do Ademar, existem
outras. Num determinado dia, um energúmeno qualquer, por causa do Benfica,
cutucou o Zé. Toda a gente sabia que ele reagia, às vezes com violência, à
provocação e dessa vez, infelizmente, assim foi. Para o segurar o tal
energúmeno deu uma sova ao Zé que foi necessária intervenção hospitalar para
sanar as mazelas provocadas. Com muita propriedade o Sr. Costa, progenitor do
Zé apresentou queixa dessa bárbara agressão na PJ de Braga. No dia da
inquirição do ofendido e do seu pai dirigiram-se à minha pessoa, pois ambos
desconheciam a identidade do funcionário que os ia atender, visto que o aviso
de notificação, onde constava o nº de Processo e a identificação do Inspetor,
havia sido perdido. Desses fatores o Sr. Costa dá-me conhecimento e solicita-me
ajuda no sentido de saber a quem se dirigir. Quando me encontrava a abandonar a
sala de espera para me dirigir à Secção que investiga esse tipo crime, o Zé dá
um pulo na minha direção diz:- É o “velhote”. Na realidade esta dica serviu
perfeitamente para identificar o funcionário em questão já que o mesmo se chama
J.Velho. O Sr. Costa admirado com a perspicácia do filho. Logo me disse:- É
isso mesmo, é o Inspetor Velho, não sei onde raio o Zé foi buscar o velhote. O
Zé apenas dizia:- Ei sei, eu sei…
Em algumas
ocasiões, o Zé quando me encontrava apresentava-me várias queixas.
Efetivamente, tais lamentações iam desde a maledicência do Benfica, difamação
de alguma sua “namorada”, ou até mesmo alguma ameaça ou injúria que
eventualmente tivesse sofrido. Ouvia-o e depois para o sossegar dizia-lhe:- Vou
tratar do caso. Ele então retorquia:- Vai “pendê-lo” (o eventual prevaricador)?
Podes estar à vontade que vou. Então o Zé delirava e ficava satisfeito com a
resposta. Porém, deixava-me sempre a questão:- O “Mareiro” vai ajudar-te?
(Mareiro era o meu camarada Malheiro). Respondia-lhe afirmativamente. Então lá
seguia o Zé, repetindo várias vezes:- O Mareiro é mau, o Mareiro é mau… Esta
afirmação levou-me a questionar o meu colega ao qual perguntei:- O que fizeste
ao Zé Maria, pois ele quando fala de ti apenas diz que o Mareiro é mau, o
Mareiro é mau. Não fiz nada, disse-me: - De facto o que acontece é que o
conhecimento que tenho com o Zé aconteceu no Café Viana (antigo), os amigos
comuns diziam ao Zé cobras e lagartos sobre a minha pessoa e ele, pelos vistos,
tornou isso uma vantagem para ele. Estas duas passagens servem para documentar
uma famosa passagem na qual se refere que era deficiente mental, contudo, não era
burro.
Ficámos por aqui, reiterando o
imenso carinho que sempre tive por figura tão cativante do nosso Bairro.
Entretanto o Zé Maria, infelizmente, já faleceu. Descansa em paz.
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