Avançar para o conteúdo principal

O Compasso Pascal



O Compasso Pascal

O Compasso pascal, de um modo geral é uma tradição cristã portuguesa, todavia, é cumprida e festejada mais a preceito na cidade de Braga, não fosse esta vetusta cidade conhecida pela Roma portuguesa. Realmente consiste na visita casa a casa de uma paróquia, daqueles que a queiram receber, do Crucifixo de Jesus Cristo no Domingo ou Segunda-feira de Páscoa, a fim de celebrar a sua Ressurreição.
Um grupo de paroquianos, com ou sem o seu pároco, liderados por um crucifixo que representa a presença de Jesus vivo, percorre as casas dos paroquianos que manifestem a vontade de receber a visita de Jesus, ressuscitado nesse dia festivo. Em cada uma das residências, após uma bênção inicial, os habitantes desse lar beijam a cruz de Cristo como demonstração de fé.
Esta visita é vista como uma forma de confraternização dos membros da comunidade paroquial com a oferta de alimentos da quadra ou apenas uns minutos de repouso para o grupo itinerante prosseguir a sua missão. É também habitual ser aproveitada para oferta de donativos pecuniários à paróquia, para pagamento de eventuais direitos paroquiais, a chamada côngrua.
O nosso Bairro, aquando desta visitação religiosa, era alindado com colchas coloridas que se colocavam nas janelas e nas sacadas, bem como espalhar de pétalas e folhas de flores, bem cheirosas, pelo percurso que iria ser utilizado pelo Compasso. Nos longínquos anos 50, 60 e 70 o século passado, na Paróquia de São Vicente, o conjunto de pessoas era sempre chefiado pelo Pároco, ou pelo coadjutor, ainda numa terceira hipótese por algum padre dos Jesuítas. O grupo era composto cinco ou seis pessoas, marchando na frente o mais jovem que agitava fortemente uma sineta, anunciando a chegada. Uma vez dentro da casa a visitar, o Cura abençoava a residência e os componentes do agregado familiar e só depois é que dava a beijar a figura de Jesus Cristo que se encontrava incrustado na Cruz. Era oferecido à equipa de pessoas alimentos, normalmente os doces típicos da Páscoa, bem como bebidas. Finalmente, aquele que devia ser o mordomo ou tesoureiro, recolhia as dádivas pecuniárias ofertadas pela família visitada.
Esta festividade religiosa era das poucas situações para que os nossos progenitores nos obrigassem a permanecer em casa. Na realidade, só éramos libertados da obrigação de nos manter no domicílio após da passagem do Compasso e cumprir todos os preceitos do ato, não digo que era uma prisão, mas quase!
Recordo-me que na Páscoa do de 1966, a 10 de Abril, o Sporting Clube de Braga jogava no Estádio 28 de Maio (na altura denominava-se assim) contra o Sport Lisboa e Benfica, para a 1ª mão dos quartos-de-final da Taça de Portugal. Muito roguei a Deus para que o Padre Jorge não tardasse muito. Sempre com um olho na Avenida da Cadeia, pois o Compasso vinha das Palhotas e com o ouvido no ar, no sentido de ouvir a sineta a alertar da chegada da comitiva, aguardava bastante angustiado, não queria de todo perder este jogo. Com efeito as minhas preces foram ouvidas, quando a comitiva arribou à minha residência seriam cerca das 15,45 horas, o jogo iniciava-se às 16,00 horas, acho que ainda dava para ir até à Ponte. Suponho que fui o primeiro a beijar o crucifixo, antecipando-me ao meu saudoso pai. Da mesma forma também fui o primeiro a abandonar a casa e sempre a correr desde o Bairro até ao 28 de Maio, foi um ápice. Porém, o jogo já tinha começado mas, felizmente, ainda deu para ver os quatro golos que o Braga marcou ao Benfica, resultado final 4-1 a favor do Braga, obviamente. Aliás, oito dias antes, no dia 3 Abril, as mesmas equipas tinham-se defrontado no mesmo local, para o campeonato e o resultado havia sido 0-0, por via disso existiam fortes esperanças que, na partida da Taça, o Braga fizesse um bom resultado contra o todo-poderoso Benfica. E, realmente fez.
Bons velhos tempos, na verdade, a visita pascal era uma festa que se vivia com muita fé e alegria. A vitória do Braga e depois mais tarde, contudo ainda nesse ano, a conquista da Taça de Portugal, foi um aparte.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

M´Panze. Contactos com o IN.

M´Panze. Confrontos com o IN.                                                            Nesta zona, embora existissem bastantes indícios da acção bélica da frelimo, em nada se comparava com a situação vivida em Cabo Delgado. Ainda não tinha sido constatada a existiam de minas anti-carro, nem, tão pouco, anti-pessoais. Todavia, isso não obstou que houvesse contacto com IN e com resultados bastante negativos, em termo humanos, para a nossa Companhia. Sofremos duas emboscadas na picada, uma em Outubro e outra em Novembro. O aquartelamento, numa noite de Novembro foi molestado com uns tiros, uma espécie de ataque. Finalmente, já em Fevereiro, também durante a noite tivemos um reencontro em pleno mato. A ...

Hugo Viana e Quim, fora do Europeu.

Hugo Viana e Quim, fora do Europeu “Tudo leva a crer que o Seleccionador Nacional, vai dar-se ao luxo de deixar de fora o Bosingwa, o Hugo Viana, o Quim… Resumindo vai ser a Selecção dos amigos e afilhados, como é possível deixar de fora um atleta com a categoria do Hugo Viana. Recordo para quem não sabe que este atleta foi preterido pelo Paulo Bento quando da cedência do mesmo pelo Valência. Antes de ingressar nas fileiras do SC Braga, esteve para ser recrutado pelo SCP e só não o foi porque o treinador da altura daquele Clube, Paulo Bento, disse que ele não se enquadrava no perfil técnico táctico do Sporting. Acho esta afirmação, no mínimo caricata, não se enquadra porquê? Os passes certeiros do Hugo não servem o Cristiano Ronaldo ou o Nani. Os centros, tensos e guiados quase por GPS para a cabeça do ponta de lança da selecção, também não servem? A inteligência do Hugo no controlo do jogo, quer a defender ou a atacar também não serve? Ou a maior dos comentadores desportivos e...

Azia sulista.

Terça-feira, 8 de Março de 2011   A vitória do SC Braga sobre o SL Benfica foi tão evidente que nem sequer tinha pensado em escrever sobre ela. Também não é pelo facto dos benfiquistas, nomeadamente o seu presidente e o seu treinador, arranjarem desculpas para a derrota sofrida, pois no futebol a culpa da derrota é sempre de terceiros, jamais nossa. O que chateia, perdoem-me o termo, foi a maneira desbocada como o Sr. Vieira se referiu à gente de Braga. Obviamente que não dou aval a qualquer tipo de violência, nomeadamente à agressão Javi ao Alain, da entrada duríssima do Maxi Pereira sobre o Ukra, do pisão do Alain Kardec sobre o Sílvio, como também não aprovo o facto de alguns adeptos do SC Braga terem atirado uns isqueiros e duas ou três bolas de golfe para o relvado. Mas sejamos francos os arremessos foram tão escassos que essa atitude, embora criticável não passou por ser a demonstração da revolta que ainda existe em Braga face aos factos ocorridos na época passada. Não sei se...