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Santo António



Santo António

Em crónicas anteriores já ficou referido que no Bairro da Misericórdia, uma das festas que a juventude comemorava a preceito era o Santo António. Eram conhecidas as lapinhas, com a figura do Santo colocada no seu trono altaneiro, devidamente decorado com flores e papel colorido. Nesse ano, na década de sessenta, a Maria juntamente com as amigas resolveram levar a peito a comemoração do Santo popular e casamenteiro.
No pátio da casa, armaram o altar. Numa mesa coberta por uma colcha branca, onde, no alto, colocaram uma estampa do festejado rodeado de flores e festão. Realmente a comissão de festas era composta pela Maria e mais quatro amigas, todas elas rondavam os doze anos. Obviamente que as tarefas foram distribuídas, uma ficou de guarda ao “relicário” e as restantes munidas de uma imagem impressa, vulgo santinho, vaguearam pelas ruas do Bairro, rogando uma esmola para o Santo Antoninho. Era bem conhecido o pregão, uma esmola para o Santo António, ao mesmo tempo exibia-se uma estampa do santo. Na verdade, nesse ano o peditório correu bastante bem, o pecúlio acumulado rondava os cem escudos, para elas uma fortuna. Chegou para custear as flores, o papel colorido e o “fogo-de-artifício” e ainda restou, o que para elas, a fartura, foi um grande dilema. Que fazer à quantia sobrante, ficar com ela seria um “sacrilégio”. Aconselharam-se com as mães e, na realidade, cada uma delas proferiu uma sentença. A mãe da Maria sugeriu-lhe que fosse à Igreja dos Terceiros, visto que o Santo padroeiro é o homenageado, e ali, anonimamente, introduzisse todo o dinheiro numa das caixas de esmolas plantada no templo, fazer bem e não olhar a quem. Uma outra disse-lhes que entregassem o dinheiro a uma obra de caridade e propôs o Centro Social de Ruílhe do Padre David. Uma terceira insinuou que o dinheiro fosse entregue à Sociedade Protetora dos Animais, visto que o santo também era o padroeiro dos animais. Todas as outras opinaram no sentido de ofertar o dinheiro, tendo em vista sempre uma obra de caridade ou religiosa. Efetivamente a Maria e as amigas não sabiam que fazer, pois cada mãe aventou uma opinião diferente o que nas suas cabecitas apenas fez aumentar o caos, proporcionando uma grande indecisão sobre a decisão a tomar. Era mesmo difícil, não conseguiam chegar a um acordo no tocante ao destino do dinheiro restante, a confusão era assaz imensa.
A hesitação aumentava a cada ideia apresentada, até que a Dona Otília, que não era a mãe de nenhuma, ao ver a confusão na cabeça das meninas, resolveu oferecer o seu palpite. Dirigiu-se à Maria dizendo:- A Mariazinha também faz anos hoje, dia 13 de Junho, consequentemente, vais à pastelaria compras uma dúzia de bolos, uns bicos de pato, fiambre e queijo, bem como uma ou duas garrafas de laranjada e em conjunto com o santo comemoras o teu aniversário. Aliás, todas vocês bem merecem uma merenda pelo trabalho que efetuaram em prole do santo. Podem estar descansadas que ele no Paraíso não leva a mal se o vosso veredito for o que vos estou a proporcionar. Diga-se de passagem que não é pecado nenhum, portanto não é necessário confessá-lo ao padre na próxima Confissão que lhes fizeres.
Grande Dona Otília, na “mouche” que grande sugestão. Com efeito, mereceu de imediato o apoio unânime de todas as jovens, pelo que se dirigiram à pastelaria da Lusitana, que se situava no Mercado Municipal, onde compraram os produtos para o lanche.
Sem descartar o Santo, pois fazia parte intrínseca da festa, na sua mesa colocaram toda a doçaria e restantes acepipes e começou o regalório. Antes porém, cantou-se os “parabéns a você” que foram dedicados não só à Mariazinha, mas também ao popular santo lisboeta. A festa acabou já era noite dentro, contudo valeu a pena tanto a Maria, as amigas e o Santo, por certo, ficaram encantadas com a festança.


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