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O Senhor Artur



O Senhor Artur


Retomando o tópico das figuras típicas do Bairro da Misericórdia, era de todo impossível não falar no Sr. Artur Correia, mais concretamente o Sr. Artur “Piolho”. Era na realidade uma figura incomparável, muito popular, sempre simpático e muito aberto, principalmente, para a juventude.
Residiu em três casas no Bairro da Misericórdia, na Rua Dr. Dias da Silva, daqui mudou-se para Palmeira, pouco tempo depois regressou e morou na Rua Dr. Cruz Teixeira, finalmente fixou-se de, forma definitiva, na Rua Gonçalves Braga.
Era o patriarca de uma numerosa família, tinha sete filhos, seis rapazes e uma rapariga, o Jorge, o Manuel, o Artur, o Fernando, o José, o Dionísio e a Aurora, infelizmente dois deles já partiram – o Manuel e o Fernando “Caçoila” – a quem aqui deixo a minha homenagem, recordando uma afirmação do Fernando que por ser simpática e ingénua aqui reproduzo. Na realidade, quando, pela primeira vez entrou na Escola Primária do Bairro da Misericórdia, respondendo a uma questão da Professora Maria da Luz Santos da Cunha, sobre a constituição da sua família, fê-lo assim:- Em casa somos seis e o nosso “baike” sete, senhora professora. Convidado pela mestra a identificar os irmãos, fê-lo da seguinte forma:- Jorge, Nel, Artur, Eu, Zé, Aurora e o “baike” que era o cão. O Dionísio ainda era um projeto.
As lapinhas de Stº António eram sempre realizadas à sua porta e obviamente por si orientadas. Recolhia-se a lenha para a fogueira da noite do dia doze, levava-se a efeito o peditório, com um “santinho” na mão. Realmente era bem conhecido o pregão: - “Uma esmolinha para o Santo António”, ao mesmo tempo que se exibia a estampa do dito. No fim, lá se ia gastar a receita em fogo-de-artifício, para estourar e dar cor à noite de festa. Num ano, eu e o Valdemar, até tentamos pescar um peixe, no Rio Este, onde atualmente se situa o Complexo Desportivo da Rodovia, usando um pedaço de tecido, a servir de “rede”, com o intuito de dar vida ao pequeno lago que se fabricou na lapa, abaixo do santo. Mas face à escassez de peixe e ao fraco material para os capturar esse desiderato não foi conseguido. Cerca da meia-noite acendia-se a fogueira e ligava-se o “toca discos” e a festança, plena de alegria e movimentação, prolongava-se até de madrugada. Antes porém o cortejo do santo saía em andor e percorria várias ruas do bairro.
Também eram famosos os “papagaios de papel” ou “estrelas”, como nós as denominávamos, fabricadas pelo Sr. Artur. Eram lançadas no cimo do Monte Castro, as dele eram as que pairavam mais alto e de maneira mais suave, eram vermelhas, azuis ou verdes, eram sempre coloridas, de facto eram únicas, quando olhávamos para o céu reconheciam-se, pela flutuação aérea muito suave, facilmente as “estrelas” do Sr. Artur. Houve uma delas que se soltou esvoaçando para liberdade, o fio que a amarrava ao solo rebentou e, por isso, voou como tendo vida, só sendo parada pelo alto campanário da Igreja do Carmo. Às vezes comentávamos essa situação com ele, enchia o peito e dizia, confabulando obviamente:- Vocês não viram nada e aquela que me fugiu e só parou no cruzeiro do Monte Picoto, essa sim, é que era uma “estrela” de primeira categoria, nunca mais fui capaz de fazer outra igual. Claro que não acreditávamos, mas só pelo prazer de o ouvir, até participávamos ativamente na conversa.
Pelo menos para alguns de nós, era quase obrigatório passar pela sua residência no términus da missa do galo, que se realiza na quadra natalícia. Nessa breve visita, oferecia-nos sempre uma fatia de bolo-rei e um “calinhos” de vinho do porto, cuja qualidade sempre gabava e jamais faltavam dois dedos de prosa. Os assuntos eram variados, todavia, quando a matéria era controversa e quando se aproximava alguém que a não podia escutar, lá vinha o aviso:- Há roupa na corda! …
Quase todo espólio fotográfico do Bairro da Misericórdia, dos anos 50, 60 e 70 é de autoria do Sr. Artur ou de algum dos seus filhos. Era bem célebre a frase que ele proferia antes de premir o botão da “laica”, nome que dava ao aparelho fotográfico da conhecida marca Leica que ele usava nesses trabalhos:- Olha o passarinho! … Casamentos, batizados, passeios turísticos, crianças, na realidade tudo fotografava.
Apenas possuo boas recordações desta família, na verdade era e é boa gente, agradecendo os numerosos registos fotográficos deixados que, decerto, contribuem enormemente para a história do nosso bairro que saudades Sr. Artur.
Figura 27: Mulheres do Bairro

O Guarda Noturno

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