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Casar dentro ou fora do Bairro?



Casar dentro ou fora do bairro? Eis a questão.

                O dilema que se coloca em título foi durante muitos anos, principalmente para os homens, uma situação embaraçosa de difícil resolução. O famoso antropólogo Sir Edward B. Tyler já dizia:- “Frequentíssimas vezes na história do mundo, as tribos ancestrais devem ter tido de si a alternativa simples e prática entre casar-se fora da tribo ou ser-se morto fora dela.” Não obstante alguns aventureiros procurarem parceira fora da tribo, todavia, regra geral era que a maior parte, por temor à segunda premissa, preferir o casamento endogâmico, isto é, casar no grupo social a que pertencesse. Obviamente que estes costumes, com o passar dos tempos, por variadíssimas razões, foram-se diluindo, persistindo, atualmente, em algumas tribos remotas do Amazonas ou na Nova Guiné. Efetivamente, o facto de poder ser morto, devia-se a fatores meramente defensivos da tribo endógena, pois era uma incógnita prever o que podia advir, em termos sociais, da ação de um desconhecido, bem como ao ciúme provocado à ala masculina. Era o temor do desconhecido.
                Salvaguardando as devidas distâncias e circunstâncias, resquícios desse costume ainda chegaram ao nosso Bairro, com maior incidência nos anos 50, 60 e 70. Realmente era muito difícil a um rapaz do exterior conseguir namorar com uma moça bairrista. A resistência da rapaziada era enorme. Foram conhecidas várias escaramuças, sendo certo que algumas surtiram efeito, ao ponto do pretendente abandonar a tentativa da conquista da mulher amada. Porém, a maior parte conseguiu os seus intentos.
                Por outro lado, foram muitos os pares, em várias décadas, residentes no Bairro, que deram o nó e constituíram família. Consequentemente este acontecimento não foi exclusivo de uma época, tanto aconteceram matrimónios na década de 50 do século XX, como no século XXI. Realmente, o primeiro casal a formar-se, se não estou em erro, foi o Alberto Cerqueira e a Maria José, o segundo foi o Felisberto Carvalhal e a Mariazinha, seguindo-se muitos outros, mais de três dezenas. Com efeito, as relações sociais muito próximas produziam um conhecimento muito profundo e intenso da personalidade das pessoas, facilitando o surgimento de relações mais íntimas e entranhadas, ao ponto de provocar a situação de marido e mulher. Na verdade, nem todas as uniões perduraram no tempo, todavia essa situação não significa que as escolhas foram efetuadas de forma extemporânea ou levianamente. Por vezes as opções são bem realizadas, contudo, por motivos anormais e não esperados a união finda. Mas, regra geral, no Bairro, foi a consistência na ligação conjugal que mais aconteceu.
                Na realidade seria fastidioso estar, agora, a mencionar a identificação dos casais bairristas que deram o nó. Podíamos ferir alguma suscetibilidade e além do mais, era o mais certo, omitir algum. No entanto, estou certo que muitos se vão reconhecer neste breve artigo e a mim só me resta desejar-lhes as maiores felicidades, como dizem os espanhóis: salud, dinero y amor.
               

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