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Omar, a picada.


Omar, picada.                                     

As missões militares que executávamos no exterior (mato), de uma maneira geral dividiam-se em três, a saber: Missões de Vigilância e Patrulhamento, Assaltos e destruição de Bases da Frelimo e Colunas (picada). Obviamente, que dedicarei um capítulo a cada uma delas, todavia, vou começar pelas Colunas, na medida em que eram a nossa maior dor de cabeça. A perigosidade destas missões era sustentada pela exposição a que éramos submetidos, bem como pela maneira como, podíamos e devíamos, reagir às emboscadas ou aos ataques à morteirada de que éramos alvo. A reacção a um ataque, era sempre defensiva, na medida em que não podíamos abandonar o comboio de viaturas, dado o risco de as mesmas e o seu conteúdo, serem destruídas pelo inimigo.
Já abordei este tema de forma ligeira quando me referi à viagem de Porto Amélia para Mueda e daqui para Omar. Todavia, neste capítulo vamos esmiuçar esta acção militar.
Em Omar efectuamos duas colunas de reabastecimento, uma em Agosto de 1972 e outra em Março de 1973, nestas colunas era nossa incumbência, ir buscar e levar a coluna entre Omar e o Posto 34. Isto de ir buscar e levar quer dizer, na gíria militar, encabeçar a coluna e quem encabeçava a coluna tinha por missão proceder à eventual desminagem da picada que por si, expunha fortemente ao perigo de uma emboscada, bem como aos efeitos nefastos da explosão de uma mina não detectada. Os perigos da emboscada, eram evidentes face ao posicionamento do pessoal no terreno. Realmente, á frente do rebenta minas, a viatura que em capítulos anteriores já descrevemos, formavam-se duas alas, uma em cada rodado já formatados em missões anteriores. Abriam as alas dois elementos, que transportavam, por arrasto, dois engaços de madeira compridos (5 a 6 metros), com o intuito de detectar e rebentar as minas anti-pessoais eventualmente colocadas no percurso, recordo que estas minas, na sua generalidade, eram accionadas por uma pressão superior a 400 gramas. Imediatamente atrás seguiam dois elementos que procediam à sua segurança. Depois, seguiam dois picadores de cada lado, que, igualmente, eram intercalados por elementos que procediam à segurança. Os picadores executavam o serviço de picagem, o mesmo era efectuado com uma pica, que não passava de um varapau, com uma ponta de ferro aguçada na extremidade, com comprimento variável entre os 25 e os 30 Centímetros. Perfuravam o solo com a finalidade de, pela introdução no mesmo, detectar, pelo contacto e pelo som da pancada dado num objecto mais duro, as minas anti-carro. Efectivamente, os primeiros picadores efectuavam uma picagem mais vasta, os segundos só entravam em acção se o picador da frente suspeitasse de algo de anormal. Consequentemente, efectuavam uma picagem mais cuidadosa e concentrada. Estes artefactos explosivos eram accionados com uma pressão superior aos 350 quilos. Para rematar este grupo, atrás, num dos rodados, seguia o perito em minas e armadilhas, no caso do meu grupo de combate era eu, no outro rodado seguia o elemento que transportava e usava o detector de metais e apenas entrava em cena se eu ordenasse, ou se algum dos segundos picadores me solicitasse. Outrossim, a par da chefia, executava o serviço de detectar e desarmar as minas anti-carro ou uma eventual armadilha, se o portador do detector metálico detectasse algo de suspeito. Atrás de nós seguiam mais dois elementos de segurança. Na verdade, guardava-se uma distância segura, entre os últimos elementos deste grupo e o rebenta minas. Este espaço podia variar entre os 25 e os 30 metros Não esquecer que ao lado do condutor da viatura da frente, estava montada uma metralhadora ligeira MG e respectivo apontador que, obviamente, também procedia a segurança do grupo dianteiro.
Se o especialista em minas e armadilhas entrasse em acção, era sinal de que existiam fortes possibilidades de estarmos na presença de uma armadilha explosiva. Neste caso, a coluna era imobilizada, o pessoal da frente formava um anel de segurança em volta, um raio de, no mínimo, uns 25 metros, do local assinalado, e, aí só trabalhava o perito. Executava um serviço perigoso e solitário. Munido com uma faca de mato, desviando a terra com todo o cuidado, procurava colocar bem visível o artefacto de maneira a vê-lo bem e enxergar a composição do mesmo. Sacava-lhe a espoleta e só depois com uma extensa corda é que o removia puxando-o do “ninho”. Após aguardar alguns segundos é que voltava ao artefacto, recolhia-o e guardava-o na viatura do grupo que nessa altura se encontrava apenas com o condutor e um segurança. A espera era efectuada com o sentido de apurar se por debaixo daquela obra de trabalho mecânico e explosivo, havia outra. Remexia-se o local, no sentido constatar que nada mais de perigoso havia para assinalar. Recordo que o meu camarada Camões que já citei em anteriores situações, faleceu numa situação destas. É certo que esperou, contudo, não esperou o suficiente, consequentemente, quando chegou junto da mina, já retirada do “ninho”, esta rebentou espoletada por uma armadilha com retardador, causando-lhe a morte imediata.
 Quando se tratava de material desconhecido ou a desmontagem do material parecia ser difícil, procedia-se ao rebentamento do mesmo. Portanto, colocava-se um petardo em cima do material a destruir, efectuava-se a ignição do mesmo, protegíamo-nos dessa explosão, e estava feito. Em princípio, esta seria a acção mais fácil para nos livrar desse perigo, mas, não. É rigorosamente verdade que no manejo do material era o mais seguro. Porém, a explosão produzia um estrondo e uma densa e alta coluna de fumo, que serviam de marco de referência para o inimigo. Era certo e sabido que passados alguns momentos, iniciavam um ataque à morteirada. Por outro lado a cratera provocada pela explosão dava azo a que se procedesse a um desvio, criando mais uma curva na picada. Originando, também, várias manobras, demoradas, para contornar a cratera em questão.
Face ao posicionamento do grupo da frente, normalmente, a frelimo abria as emboscadas na cabeça da coluna, na medida em que a reacção era retardada, não esquecer que os portadores dos engaços, os picadores e o portador do detector de metais levavam a sua G3 a tiracolo, pois com as mãos manejavam outros objectos. É óbvio que tinham segurança, contudo, estes só podiam reagir com muito cuidado, de outro modo, podiam atingir o colega da frente.
Na coluna de Agosto de 1972, o meu grupo de combate (2º) e o 3º, assim como um grupo da Companhia de Intervenção, foram incumbidos de levar a coluna até ao Posto 34. As chefias resolveram que não levássemos viaturas, a fim de nos facilitar o regresso ao aquartelamento. Logicamente que sem viaturas não havia necessidade de picar e o retorno, embora a pé, podia ser a corta-mato. Também, não existiria o ruído das viaturas para que fossemos localizados pelo inimigo.
Entre os quilómetros 68 e 54, picou o Grupo da CI, na medida em que eram mais novos, não obstante terem picado em mais extensão, fizeram-no, em princípio, na zona mais pacífica. Entre os quilómetros 54 e 44, picou o 3º Grupo, neste percurso fomos vítimas de uma emboscada. A mesma, como era habitual, abriu na cabeça da coluna, todavia, não provocou nenhuma vítima nesse grupo. Efectivamente, tivemos uma baixa, o Furriel Cristo, pertencente à Companhia de Mueda que se encontrava a meio da coluna. Apesar do efectivo militar que participava nesta missão rondar os 250 elementos, estivemos cerca de quatro horas debaixo do fogo inimigo (armas ligeiras e morteiro). Foi preciso solicitar apoio aéreo para sairmos daquela difícil situação. Ao meu Grupo, calhou a missão de picar os últimos dez quilómetros que ocorreram sem quaisquer situações especiais. Quando chegamos ao Posto 34 eram cerca de 17,00 horas, consequentemente, 34 quilómetros, demoram 12 horas a efectuar. Foram, doze horas de muito sofrimento, muita dor, muito cansaço e muita tensão. O calor, o pó do capim e a poeira ainda pioravam a situação. A letra daquela canção do Paco Bandeira “ Lá longe, onde o sol castiga mais/Não há tristeza nem ais/ Há coragem e valor …” nunca foi tão pertinente.
Dado o adiantado da hora, seguimos para a sede do Batalhão, em Mocímboa do Rovuma, onde pernoitamos. Na alvorada do dia seguinte, depois de se ter arranjado um guia, iniciamos o regresso a Omar, a corta mato. Foi decidido e bem, não efectuar o regresso pelo trajecto da picada, embora mais curto, com certeza que iríamos ter problemas no mesmo, pois era muito mais exposto.
O meu Grupo efectuou mais uma coluna, apenas com cinco viaturas, com o intuito de recolher no quilómetro 48 da picada, uma Companhia de Comandos que procedeu a operações naquela região. Foi outra experiência dura, porque na ida, apenas ia o meu grupo, éramos vinte e cinco, contando com os cinco condutores, o enfermeiro e o rádio telegrafista. Levando em linha de conta que o grupo da dianteira era composto por 16 elementos, mais os dois do rebenta minas - o apontador da metralhadora e o apontador do morteiro - restavam dois que procediam à segurança à retaguarda, por isso iam instalados na última viatura. Na segunda viatura ia instalado o rádio telegrafista, a terceira marchava sem qualquer passageiro, na penúltima ia instalado o enfermeiro. Quando pensava no que havia ocorrido na coluna de Agosto, vinha-me à ideia que podia acontecer alguma tragédia. Para agravar o clima, no quilómetro 63, por conseguinte, a cinco quilómetros do aquartelamento, detectamos uma mina anti-carro e sob a mesma, encontrava-se uma bomba de avião de 25 kg (nossa e por explodir), com intuito de aumentar a força demolidora do fornilho (fornilho = mina+outro explosivo). Todo o material foi levantado em segurança. Este facto ainda aumentou a tensão e o nervosismo. Após dura e espinhosa jornada, cerca das 15,00 horas, encontramos a tal Companhia de Comandos. A mesma era comandada por um Capitão do qual jamais esqueci o nome e de quem guardo boas recordações. Coloquei-lhe a seguinte questão: Tínhamos demorado dez horas para efectuar vinte quilómetros, se utilizássemos os mesmos meios íamos demorar outras dez horas para efectuar o regresso. Nesta conformidade, sugeri que na volta, não fosse efectuada qualquer picagem, a fim de que a velocidade aumentasse um pouco. De qualquer maneira não menosprezaríamos a segurança, colocaria dois elementos, um em cada guarda-lamas do rebenta minas, que verificariam com muita atenção se o rodado marcado na picada na viagem da ida, se encontrava remexido. Como é óbvio, caso isso tivesse tido lugar, imobilizaríamos a coluna e iríamos verificar os motivos de tal mudança. De outro modo, teríamos que pernoitar na picada e suportaríamos os malefícios aí adjacentes. O tal Oficial, embora do Quadro, respondeu-me, eu era um simples Furriel Miliciano, o senhor é que é o responsável pela coluna, logo cabe-lhe a si tomar as melhores decisões. Assim sendo, pedi voluntários, porque se tratava de uma tarefa difícil, perigosa e fora do comum. Com efeito, apenas o João se ofereceu, pelo que me instalei no outro guarda-lamas, e com a vertiginosa velocidade de 10 KM/hora, as viaturas lá iniciaram o regresso a Omar. Chegamos ao aquartelamento, cerca das 17,00 horas, incólumes e satisfeitos por ter passado mais um dia muito difícil das nossas vidas.
Como dizia a canção “ A erva lá na picada, pisam-na os guerrilheiros “, eram mesmo guerrilheiros no sentido mais lato e grandioso do termo. A minha homenagem a aqueles que perderam a vida naquele imenso sarcófago. Muito particularmente, ao Furriel Miliciano Cristo, que também foi meu camarada em Tavira.

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