M´Panze - Isolamento e Mudança
Em finais de Outubro teve início a estação das chuvas, conforme se ia avançando no tempo mais chovia e, consequentemente, mais dificuldades existiam em transitar na picada. Por falta de escoamento o terreno tornava-se cada vez mais lamacento. Apenas as Berliets e o Unimog (burro do mato) tinham possibilidades de sair, pois possuíam tracção às quatro rodas. Além do mais, o Unimog tinha guincho que era peça importante para quem circulava naqueles terrenos e naquelas condições. Realmente, o primeiro aviso de alerta foi dado quando em determinado dia a moto-bomba de tirar água ia desaparecendo riacho abaixo, tal foi o aumento do volume e caudal do mesmo, bem como a rapidez em que tal fenómeno ocorreu. Até que o imprevisível aconteceu. A ponte construída em Outubro pela Engenharia, no percurso entre a estrada de alcatrão e M´Panze, pura e simplesmente desapareceu. Efectivamente, foi arrastada pela forte corrente do rio que quadruplicou em largura e na força do caudal. Nem vestígios ficaram, não obstante as aduelas, aplicadas na construção da ponte, serem enormes e pesarem centenas de quilos cada, bem perto da tonelada. Perante esta realidade, ficamos completamente isolados. Por consequência, a dificuldade no reabastecimento era grande. Apenas podia ser efectuado por helicóptero, todavia, face à pouca capacidade de carga daquelas aeronaves, cerca de 800 kg, o que transportassem dava apenas para duas refeições. Para remediar a situação ainda se adquiriu gado vivo. Assim, quando se matava uma rês, a carne da mesma era servida nas duas refeições do dia. Lembro que neste aquartelamento nem sequer havia frigoríficos. Com efeito, quando se matou o primeiro animal foi uma autêntica tourada. Em primeiro lugar foi com bastante dificuldade que se conseguiu laçar o bicho, parecia que estava a adivinhar a sua triste sina. Depois de laçado, também foi a difícil a sua imobilização, foi preso a uma árvore, deixando a rédea bastante curta. Finalmente o abate. Na realidade, foi improvisada uma choupa, o matador utilizou-a. Todavia, ou por fraca qualidade do artefacto ou por imperícia do matador, o animal nunca mais morria, fartava-se de berrar. Nesta conformidade, alguém foi buscar uma pistola Walter 9 MM. Porém, só ao terceiro tiro é que o bicho tombou. Tivemos carne fresca nas duas refeições desse dia. Lembro-me que no dia anterior tínhamos esgotado o stock das salsichas, se não fosse o boi, apenas havia para a refeição arroz e massa. Para acompanhar só se fossem uns restinhos de marmelada que ainda havia no depósito de géneros. Até o stock de ração de combate estava quase no fim. É evidente que esta situação não podia continuar, sob pena de passarmos fome. Ou o helicóptero vinha a M´Panze dia sim, dia não com abastecimentos, ou de outra forma não havia possibilidades de os víveres chegarem ao aquartelamento. Como é óbvio, esta solução para os altos comandos era extremamente dispendiosa, logo quase impraticável. Nestes termos, resolveram, em fins de Janeiro, efectuar mudanças. Assim, a Companhia 3497, que se encontrava estacionada em Honde, foi transferida para a zona de Manica. Perante esta rotação, a nossa Companhia foi ocupar o lugar daquela pelo que se transferiu para a localidade em referência. Contudo, a mudança foi difícil e muito trabalhosa. Lembro que as picadas estavam quase intransitáveis. Face a esta calamidade, o material mais miúdo, mais sensível e o mais necessário, foi transportado para junto do rio, onde existia a ponte, sendo passado em jangada para a outra margem. Aqui era carregado em viaturas da Companhia de Vila Gouveia que o transportou para Honde. No tocante às nossas viaturas e o material mais grosseiro e menos preciso, foram para a localidade denominada Maximino, situada a cerca de 25 km, contados a partir do local da ponte desaparecida, onde se encontrava instalada a Companhia 3496, foi utilizada uma velha picada que ladeava o rio para norte, na margem esquerda do mesmo. Antes porém a Engenharia veio em sentido contrário com uma máquina de terraplanagem a compor a picada e a ajudar as viaturas quando estas atascavam no terreno lamacento. As viaturas ficaram nesta localidade, esperando a época da seca. Ao meu grupo tocou a tarefa de vaqueiros, isto é, transportamos todo o gado vivo que ainda possuíamos, a pé, desde M´Panze até Honde, foram 45 km a penates, efectuados num dia só, com a agravante de se andar ao ritmo dos animais. Todavia, a grande dificuldade foi a passagem do rio. Os animais não iam para a água e muito menos para a jangada. Foi quando alguém se lembrou que uma das vacas tinha parido. Face a essa situação, a vitela foi colocada na jangada e passada para outra margem. Logo que pisou solo firme começou aos berros. Foi o chamariz perfeito, de imediato a mãe se lançou ao rio nadando para o outro lado, guiando-se pelos berros da cria, foi seguida imediatamente pelas outras reses. Como dizia o Camilo de Oliveira, “Foi certinho direitinho”.
Durante estas operações de passar material de uma margem para a outra, havia sempre necessidade de ter algum pessoal na água. Por via disso, em determinada altura, o Silva que se encontrava no meio do rio, começou a gritar e com pressa em abandonar a água, quando conseguiu, com surpresa, trazia agarrado á perna, na zona dos gémeos, um pequeno crocodilo., que não largava o “osso”. O enfermeiro teve que fazer uma força danada nas mandíbulas do réptil para que este deixasse o “bife”. As marcas da mordedura ficaram bem patentes, após a desinfecção da ferida, o Silva ainda foi conduzido a Vila Gouveia, para o levar alguns pontos para ajudar na cicatrização da mesma.
Honde, era um aldeamento que se situava nas margens da estrada de alcatrão, entre Vila Pery e Tete, a cerca de 10 km de Vila Gouveia. Tinha população nativa, tinha também escola e existia um estabelecimento comercial, uma cantina, propriedade de um casal de madeirenses. Estes estabelecimentos vendiam de tudo, desde alimentação até aos medicamentos, passando pelo vestuário, sapatos, artefactos para trabalho, produtos de higiene e limpeza, brinquedos, etc. Nos arredores existia uma quinta, também propriedade de um outro casal de madeirenses. A par da produção de algodão que era a grande cultura, também se cultivava milho e existia um enorme pomar de laranjas. Embora a origem destes dois casais fosse a mesma, a Ilha da Madeira, o seu comportamento para com os nativos era totalmente antagónico. O casal da quinta, parece que tratava com rectidão e justiça todos os seus assalariados. Até se dizia que não era molestado pela frelimo devido a esse facto. Na verdade, já poucos brancos viviam isoladamente nessa zona com receio da acção daquela organização. Por outro lado, o casal da cantina já não agia tão bem assim. Recordo que quando cheguei a Honde, depois de um dia estafante, esse casal recebeu-nos com enorme alegria. O Senhor Alves, assim se chamava o homem, dirigiu-se-me convidando-me para comer uma sopa e beber um copo, sendo certo que este convite foi dirigido também aos meus soldados, mas brancos. Perguntei-lhe a razão do convite não ser extensivo aos africanos. Apenas me disse: -Senhor Furriel, nesta terra não se pode dar muita confiança aos pretos, se não eles abusam. Logicamente que eu, como líder, não aceitei o convite. Mas dei conhecimento do mesmo aos soldados europeus. Apesar disso, nenhum deles aceitou por solidariedade com os camaradas africanos. Acho que a nossa recusa não caiu bem ao Sr. Alves, problema dele obviamente. Noutra ocasião no balcão da cantina, assisti a um acto que também não abonava o tratamento do cantineiro para com os autóctones. De facto, o sal, o açúcar, o café e o grão. Aliás, todo alimento deste género era vendido por medida e não por peso. Em determinada altura, apareceu um rapazito, com cerca de dez anos querendo comprar uma medida de açúcar, apresentando uma moeda de 2$50. O Sr. Alves guardou a moeda, dizendo ao rapaz que de momento não havia açúcar, portanto, ia levar uma medida de sal. O rapaz retorquiu que a mãe o tinha mandado buscar açúcar e não sal. Resposta do comerciante, se não levares o sal, não levas nada, já que a moeda está na gaveta. Diante deste ultimato o miúdo pegou no sal e lá foi para casa. Não teci nenhum comentário, mas disse ao rapaz que se a mãe ou pai viessem contestar a troca de produtos, antes, viessem ter comigo que os ajudaria na reclamação. Contudo, ninguém apareceu.
Honde, já possuía estruturas, embora débeis, mas suficientes para que a Companhia se pudesse instalar condignamente. Existiam pequenas construções que nos foram legadas pela Companhia 3497. A água pela primeira vez corria numa bica. Embora fosse apenas duas vezes ao dia víamos viaturas civis e, principalmente, estávamos a dez km de Vila Gouveia, que era uma vila pequena mas com população mista que rondaria as 3.000 almas.
Desta vez quero deixar a minha homenagem ao 1º Sargento Figueiredo. Era o mais velho da Companhia, a quem chamávamos, paternalmente de “karéku”, face á sua grande calvície. Era solidário, mostrou essa qualidade quando ajudou o Soldado Torrado, debaixo de fogo, aquando do ataque á morteirada em Omar, no célebre 28 de Maio e mais tarde quando ajudou o Tenente-Coronel, quando, também em Omar, durante um ataque caiu no “tanque” da lama. Face ao seu porte físico, nós dizíamos que ele era a prova evidente que o homem descendia dos macacos. Tirando a careca, era bastante peludo, era baixo, tronco e braços compridos, desproporcionados comparando com as pernas. Efectivamente, á noite e em silhueta passava, sem ofensa, por chimpanzé. Grande amigo. Faleceu, de morte natural, embora inesperada, pouco depois do nosso regresso.
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