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Omar. Notas soltas 2.


 Omar. Notas soltas 2.                      .

Continuando o capítulo anterior vou narrar mais alguns episódios que, igualmente marcaram o quotidiano, da nossa Companhia. Já falei, por alto, nos nossos duches, eram uns cubículos, talvez com a área de 3 metros 2 (1,5X1,5), com cerca de 2 metros de altura, cercado com chapa ondulada de zinco, sendo certo que num dos lados havia uma porta. O cimo era totalmente descoberto e existiam, apenas, duas traves em madeira, sobre as quais se montava um bidão de 200 litros de capacidade. Do lado virado para baixo, no buraco roscado, acoplava-se um espalhador de água (chuveiro), antecedido de um passador, para fechar e abrir. E, obviamente, para regular a intensidade da saída da água, que, como é lógico, jorrava dali para cima do utilizador. Já o lado de cima era completamente aberto e por aí se abastecia de água aquela espécie de depósito. Era a arte do desenrasca e funcionava bastante bem. Por razões de segurança ainda se escorava o bidão com quatro arames, dirigidos e presos nos quatro cantos do pequeno recinto. Todavia, acidentes existem sempre. Efectivamente, num dia de temporal, fortes ventos e chuvas tropicais, o camarada Feteira, resolveu higienizar-se, para isso, e como é lógico dirigiu-se a um dos balneários. Como já referi nesse dia havia muito vento e uma rajada mais forte conseguiu libertar o bidão das cordas que o sustentavam caindo para dentro da “casa de banho”, atingindo o Feteira na cabeça. Não ganhou para o susto, abriu a cabeça e foi necessário aplicar alguns pontos de sutura na ferida aberta. Felizmente para ele o bidão estava com pouco volume de água e não lhe provocou nenhum traumatismo craniano grave, mas que podia ser uma situação muito grave podia.
Na época mais quente, tempo das chuvas, sobretudo ao fim da tarde princípio da noite e após algumas bátegas de chuva tropical, saíam do solo umas formigas aladas que voavam, principalmente, para os locais iluminados. Efectuavam voos curtos e rápido em volta das luzes, após alguns momentos caíam-lhe as asas pelo que tombavam aos magotes, acumulando-se na base do poste que suportava a iluminação. A primeira vez que assisti a este fenómeno, também reparei que a maior parte dos africanos corriam para esses locais e enchiam, com sofreguidão, sacos com aqueles bichinhos. A ânsia na recolha era enorme e, por vezes, até se desentendiam. Movido pela curiosidade indaguei junto de um deles a razão daquele comportamento. Efectivamente, foi-me dito que aquela formiga era um óptimo petisco, acompanhava tão bem uma cerveja tal qual o camarão ou o tremoço. Perante esta resposta solicitei a um deles que me arranjasse algumas formigas para provar. Na verdade, trouxe-me um saco com uma quantidade enorme. Mirei e remirei os bichinhos, já com uma “laurentina” na mão, contudo, a coragem faltava-me. No entanto, o meu colega Mota, não esteve com meias medidas, começou a petiscar e gostou, disse-me que sabiam a pinhão e eram bastante crocantes. Realmente, ganhei coragem comi duas ou três para provar. Confirmei o sabor a pinhão e a característica crocante do petisco, mas também senti o rabear da formiga ao ser trincada, em boa verdade, não fiquei cliente. Todavia, o Mota e o Leites comeram todo o conteúdo do saco, originando que os camaradas com mais sensibilidade de estômago, os que acharam que o pitéu era nojento, nem sequer entravam na messe de sargentos.
Noutra ocasião, no mato, já perto do final de uma missão de patrulhamento e vigilância, quando já nos dirigíamos para o aquartelamento e no local onde efectuamos a última paragem, um dos soldados africanos do meu grupo pediu-me licença para abrir uma toca de rato. Como não vislumbrei nada contra, autorizei. Aliás, nem sabia muito bem o que ele queria fazer ou dizer. Passados uns minutos apareceu junto de mim, eufórico, com uma ratazana ou uma toupeira, quase do tamanho de um coelho. Matou-a com uma pancada seca, com a mão, na cabeça, sacou-lhe a pele e retirou-lhe as miudezas, guardando-a com muito cuidado no seu saco. Apenas lhe perguntei se aquilo se comia, respondeu-me afirmativamente e que “eras maning de bom”. Na hora do jantar apareceu na messe com o “bicho” numa travessa devidamente grelhado e convidou-me para participar na degustação do petisco. Aqui não tive a coragem que tive para com as formigas, pelo que lhe agradeci e desejei-lhe bom apetite.
Noutra ocasião, quando levamos a efeito uma operação de limpeza de ratos na messe e nos aposentos dos sargentos, asseguro que liquidamos mais de quatrocentos ratos, foi uma carnificina total, nem o “sheltox” matava mais do que nós. Porém, nessa altura lembrei-me do amável convite daquele meu subordinado, pelo que, o chamei e para retribuir ofereci-lhe os ratos que quisesse. Olhou-me desconfiado e disse-me: “Não meus furiel, rato de cidade não és bom pra comer”, pelo que declinou a oferta, desconfiado para com a minha atitude, não sabendo se eu tinha sido sincero ou se eu queria brincar com ele. Com efeito, na minha ignorância apenas quis ser amável.
Finalmente, noutra maré numa das operações diárias de recolha de água no riacho que se situava a cerca de mil metros do aquartelamento, pousado numa das árvores sobranceiras ao referido riacho encontrava-se um casal de pombos, em tudo iguais aos da Metrópole, exceptuando a sua cor, estes eram verdes. Arrulhavam felizes e ignoravam, de todo, a nossa presença. Olhei para eles e vi um bom prato, digno de substituir as salsichas ou os estilhaços de carne que habitualmente comíamos às refeições. Avisei o pessoal que iria fazer um tiro, pelo que, apontei com cuidado, pois tinha que atingir a ave de raspão, de outra forma podia, com o potente tiro da G3, desfazê-la por completo e lá se ia a iguaria. De facto, foi tiro e queda, atingi-o numa asa pelo que caiu ao solo. Aliás, tive que lhe apertar o pescoço para a matar. Passado momentos, alguém me chamou a atenção que o outro componente do casal ainda se encontrava no galho da mesma árvore impávido e sereno. Voltei a atirar, procedendo da mesma forma. Desta vez acertei na cabeça pelo que esta caiu redonda no chão. A par de terem dado uma óptima refeição que, aliás, reparti com o cozinheiro Brandão, pois foi ele quem elaborou o petisco. Fiquei admirado até surpreendido com a passividade da segunda ave, não se assustando com o estrondo do primeiro tiro. Não sei se é verdade ou mentira, mas um dos meus soldados africanos, disse-me que esta raça de pombos é monogâmica e quando um se separava do outro, normalmente, esperava por ele no mesmo sítio onde se havia dado o desenlace.
Sempre disse que em Omar não existia população civil. Porém, tal afirmação não corresponde inteiramente à verdade dos factos, na medida em que ali habitava o casal Jarina. O homem era um idoso, já com cabelos totalmente brancos e para ver usava uns óculos, sendo certo que as lentes pareciam fundos de garrafa. Havia um provérbio africano que rezava assim: Quando o cabelo do preto pinta, três vezes trinta. A fazer fé neste dito popular o velho Jarina teria 90 anos de idade. Se calhar esta presunção sobre a idade não falhava por muito. No tocante à companheira, devia ter menos da metade da idade dele. Durante dezoito meses para muitos elementos da Companhia, ela foi a mulher mais bonita do mundo, pelo facto de ser única.
O casal vivia do trabalho de costura, o ancião usava uma velha máquina de costura da marca Singer, para o seu trabalho, os seus clientes, como é óbvio, eram os componentes da companhia e a função consistia principalmente em recuperar fardamento que pelo uso ou acidentalmente se tivesse deteriorado. Existiam também os “mainatos” eram quatro ou cinco. Executavam o serviço de carregadores para a Companhia. Para os Oficiais, Sargentos e algumas Praças executavam serviço de lavandaria e passagem a ferro. O contratado por mim chamava-se Manuel e era da raça Macua. Os Macondes eram demasiado orgulhosos para efectuarem este tipo de serviço.
Relembro aqui as pequenas “machambas”= a pequenos canteiros, que construíamos, com o intuito de ali plantar, principalmente, vegetais para saladas, tal como alface e tomate, eram semeados, depois era só controlar o crescimento, rapidamente frutificavam. Com o produto ali conseguido faziam-se belas e saborosas saladas. Era terra quase virgem e face à humidade e ao calor, tratava-se de uma cultura fácil e rápida.
Recordo que a maior parte dos Atiradores, eram oriundos do Minho e Trás-os-Montes. Para alguns transmontanos a tropa foi a porta de saída do atraso de vida em que se encontravam a maioria das aldeias desse distrito. Para atestar um pouco a personalidade, sobretudo social, de alguns elementos, apresento um episódio absolutamente verídico que aconteceu o Soldado Germano, transmontano de gema. Em determinado dia apareceu muito queixoso na Enfermaria, lamentando-se de uma violenta dor de cabeça. O Furriel Enfermeiro disse-lhe que as famosas pastilhas “LM”, um analgésico que curava tudo, se encontravam esgotadas. Portanto, para dores apenas tinha em stock supositórios dolviran. Assim, se quisesse aliviar o mal-estar teria que ser com aquele medicamento. O Germano, desesperado disse que tomava qualquer coisa pois as dores eram muito fortes, pelo que levou dois supositórios com a recomendação de utilizar o segundo se após seis horas da administração do primeiro, tais dores persistissem. Acontece que passados cerca de três horas o Furriel Enfermeiro encontrou o Germano, perguntando-lhe se estava melhor. Este respondeu que sim que estava um pouco melhor, contudo, o supositório havia sido difícil de tomar. Aliás, ainda tinha um enorme amargor na boca e na garganta face a essa tomada…
Por aquilo que já foi dito sobre a componente física e psíquica de alguns elementos da Companhia, fica claro que alguns eles, como por exemplo o Segismundo e o Suarez, cada um pelo seu motivo, jamais deviam ter sido incorporados no serviço militar e por maioria de razão, nunca mas mesmo nunca deviam ter sido colocados em cenários de guerra. Efectivamente na Metrópole, ninguém imaginava o que se sofria no Ultramar. A juventude sofria histórias gigantescas de coragem e sacrifício. Mas no fundo não passava de carne para canhão.

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