M´Panze. Quotidiano.
O quotidiano em M´Panze era menos intenso que em Cabo Delgado. Dentro do aquartelamento, havia um grupo de serviço à água e outro de protecção e segurança á equipa de Engenharia que se encontrava a desmatar o terreno para instalar a população. Foi neste serviço que ganhei rotina a conduzir automóveis. Até a essa data, a minha experiência na condução era, em casa, tirar e meter na garagem o carro do meu pai. De facto, o serviço de protecção á engenharia consistia em colocar o pessoal de manhã nos locais a vigiar, depois de duas em duas horas, o graduado de serviço passava por lá para efeitos de controlo. Nesta deslocação era utilizado o Jeep e para não ocupar mais ninguém, o pessoal era pouco, o graduado conduzia a essa viatura. Por conseguinte eu não fugi á regra, sendo deste modo, nunca disse que não sabia conduzir, que comecei a treinar a condução e, obviamente, a ganhar experiência nessa função. Havia um outro tipo de serviço, a vigilância interna das instalações, como não existiam, torres de vigilância para acomodar as sentinelas, a tarefa era efectuada quase ao nível do solo. Existiam também as colunas de reabastecimento que aqui eram várias, na medida em que não existia pista para aviões, para reabastecimento aéreo, nem frigoríficos para conservar alimentos. Havia as missões de patrulhamento e vigilância. O objectivo destes patrulhamentos era recolher população que vivesse no mato e conduzi-la para o novo aldeamento de M´Panze. Também visava a detecção de guerrilheiros da frelimo que, aliás, era muito difícil. Pois aquela organização, pelo menos naquela altura, ainda não possuía bases fixas na região, deste modo camuflavam-se no meio da população. Todavia, a sua acção era demais conhecida, designadamente na doutrinação da população civil e nas acções de força sobre algumas viaturas, tanto militares como civis, que transitavam na estrada de Vila Pery para Tete. Nomeadamente, as que seguiam carregadas, em coluna e com escolta militar, com material para a construção da barragem de Cabora Bassa.
No tocante às colunas de reabastecimento, normalmente, quinzenais, saíam de M´Panze no Sábado com destino a Vila Pery e regressavam na 2ª Feira. Isto para dar um Domingo de folga e um descanso merecido ao pessoal. Recordo que numa dessas situações assisti a um jogo de futebol, a contar para a Taça de Portugal, entre o Textafrica (clube representativo de Vila Pery) e o Atlético Clube de Portugal de Lisboa, ganhou o Atlético por 3 a 1, ganhando por isso a eliminatória. Lembro-me que nessa equipa jogavam o Vasques, o Botelho, guarda-redes, o Nogueira que mais tarde ingressou no Belenenses, no SC Braga e no Sporting e o Nelo, o actual treinador Nelo Vingada. Também se ia ao cinema, recordo-me de ver os filmes “A Filha do Ryan”, bem como o “Frederico Barba Ruiva”. As sessões da noite começavam às 21,15 horas. Acontece que no dia em que fui ver o segundo filme acima referido, tinha chegado com o pessoal a Vila Pery à hora do almoço. Depois do banho e da refeição, quando me encontrava já vestido à civil, o Alferes Martins, da minha Companhia, chamou-me e incumbiu-me de uma missão inopinada que era levar víveres a uma Companhia de GE´s que se encontrava estabelecida, para os lados de Manica, a cerca de 80 km de Vila Pery. Na medida em que não estava a contar com a missão por um lado, pelo outro, também não era à nossa Companhia que cabia essa tarefa, fiquei, para não ser malcriado, mais aborrecido do que uma criança a quem tiram o rebuçado das mãos. Consequentemente, foi sob muito protesto e indignação que fui cumprir o que me tinham determinado. Apenas levei duas viaturas, uma Bedford e um Unimog 404, fui à Manutenção Militar carregar os alimentos, consistiam em caixas de cerveja, sacos de farinha e arroz. A mercadoria encheu as viaturas. Nesta conformidade, os soldados acomodaram-se em cima da citada carga. Saímos de Vila Pery pelas 17,00 horas, disse ao Toni, que era o Condutor da Bedford, na qual eu ia instalado, que tínhamos duas horas para fazer os 160 km, porque não queria perder a sessão de cinema. Aliás, já tinha comprado o bilhete. Cerca de 50 km eram efectuados em estrada de alcatrão, os últimos trinta eram em picada. Efectivamente, a viagem estava a ser efectuada em bom ritmo, mesmo depois de deixar o alcatrão. Na realidade, a picada era larga e com bom piso, nada tinha ver com a de M´Panze nem, tão pouco, com de Omar. Todavia, quando estaríamos a cerca de 5 km do objectivo, rolávamos numa longa recta da qual não se via o final, no entanto, essa recta era cortada pelo vale dum riacho que apenas era visível já quase em cima do declive. Na verdade o Toni abrandou a marcha, senão voaríamos sobre o vale, contudo, face à forte travagem no piso de areia, a viatura entrou em derrapagem, saindo da picada iniciando um percurso a corta mato, partindo tudo á sua frente, por sorte manteve-se sempre em cima das quatro rodas. Foram momentos terríveis, andei aos tombos dentro da cabine. O condutor agarrou-se ao volante e não saiu do lugar. Quando olhei para a caixa de carga e não vi ninguém a minha grande preocupação foi a saúde do pessoal que seguia na mesma. Saí para o terreno e perguntando a quem me ia aparecendo como estava, felizmente, estavam todos bem e sem grandes mazelas. No entanto, neste momento apresentavam-se dois problemas, primeiro levar a carga que sobrou, algumas caixas de cerveja partiram-se, aos GE´s, segundo sacar a viatura do meio do mato e voltar a coloca-la na picada, pois apesar o motor funcionar perfeitamente, ela resvalava na vegetação e não conseguia vencer a rampa bastante íngreme. Assim, passei o que pude para outra viatura que era mais pequena que escoltada por quatro elementos marchou para o objectivo. Incumbi o 1º Cabo que chefiou essa escolta de tentar arranjar uns cabos a fim de possuir alguns meios para retirar a viatura acidentada do sítio onde se encontrava. Cerca de meia hora depois tal viatura regressou na companhia de uma outra dos GE´s, um Unimog Mercedes (burro do mato) com guincho. Nesse lapso de tempo, limpamos o terreno entre a viatura e a picada, livrando-nos de algumas árvores e tapando alguns buracos. Quem conduzia o “burro do mato” era o Alferes que comandava a força especial. Na verdade, qual foi o meu espanto, quando constatei que se tratava do Souto, um ex-colega de liceu e meu amigo. Antes de falar no acidente demos um grande abraço e ambos constatamos que o mundo era mesmo pequeno, realmente, encontramo-nos nestas condições e onde o judas perdeu as botas. Com alguma sorte e a ajuda do guincho do “burro do mato”, lá conseguimos retirar a viatura e colocá-la na picada, entretanto, o 404 volta ao aquartelamento para levar o resto dos mantimentos. Verificados os danos apenas foi verificado que se tinha partido um farolim e dois apoios da cabine do lado do condutor. Com arame prendeu-se, como foi possível, a cabine e depois de me despedir do Flores, pedindo-lhe desculpa pelas cervejas que se partiram no acidente de trânsito e agradecendo-lhe todo o apoio, lá iniciamos o regresso. Não obstante esta trapalhada, ainda deu para ir ao cinema, quando entrei na sala dava-se o primeiro intervalo, portanto, até ali só tinham exibido as notícias (NO DO - espanholadas), publicidade e documentários das próximas sessões. Porém, o sucedido chegou bem para o susto.
Quando o destino era Vila Gouveia jamais deixei de visitar o parque de merendas e repouso, o tal dos tijolos para o forno, dávamos sempre uns mergulhos na piscina natural. Com efeito, a água era bastante fresca, pura e cristalina, era, verdadeiramente, reconfortante tomar banho numa água com aquela excelente qualidade. A maior parte do pessoal banhava-se nu, face ao sossego e ao isolamento não havia o perigo de ofender os bons costumes e a moral pública.
No aquartelamento também se disputavam rijas partidas de futebol, contudo, aqui eram mais escassas dado a população militar ser mais pequena e os afazeres serem em mais quantidade. No concerne ao resto, exceptuando os passatempos com os ratos, era a mesmíssima coisa como no norte. Ler, beber e jogar. O Natal de 1973 foi passado em M´Panze. A par das batatas com bacalhau e o bolo-rei fornecidos pela Companhia, compramos um leitão para a ceia, dado que o jantar era às 16,30 horas, quem o matou e o preparou foi Vítor, dado que era de Anadia julgando-se, portanto, preparado para o desempenho. Porém, uma coisa foi certa, o desgraçado do animal, foi morto com uma navalha de barba sofreu imenso nunca mais morria. Mas mesmo assim marchou. Não comemos as tradicionais uvas passas, todavia, comemos uvas naturais e de origem local. Na frontaria da tal casa que seria cantina, onde estava instalada a Secretaria e os 1º e 2º Sargentos, existia uma ramada com duas videiras de uva branca. Efectivamente, frutificaram em Dezembro daí, alguns cachos serem guardados para a ceia natalícia. Mas segundo os naturais a produção voltava a repetir-se em Junho, consequentemente, era produção bianual, boa terra. Neste capítulo deixo a minha homenagem ao 1º Cabo Condutor Auto, António dos Santos Ferreira, o Toni, meu companheiro no infortunado acidente de viação acima mencionado, falecido há cerca de seis anos.
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