Omar. Despedida.
Já há algum tempo, sabíamos que a transferência da Companhia era um dado adquirido. Também sabíamos que iríamos para a zona de Vila Gouveia, hoje Catandita, que em termos militares se encontrava sob as ordens do Comando de Sector, instalado em Vila Pery, hoje Chimoio. A localidade onde nos íamos estabelecer chamava-se M´Panze. Fundamentalmente, a nossa missão era de soberania, mas também recolher a população espalhada pelo mato e reuni-la num aldeamento a construir no local acima referido. Em princípio era uma zona ainda pacificada, todavia, a frelimo já provocava pequenas escaramuças, sobretudo sobre viaturas civis e procedia, no âmbito da guerra psicológica, á catequização da população. Contudo, para nós o que contava era sair do maior inferno de Cabo Delgado, fosse para onde fosse.
Em Omar, o nervosismo e a ansiedade aumentava com o aproximar do dia da partida, este estado de espírito era mais notado naqueles que, há dezoito meses ali se encontravam de forma contínua. Não obstante a aproximação da nossa retirada, as chefias preocupadas com as condições de vida deste aquartelamento, sobretudo com a qualidade da água, já há tempos tinham encarregado uma firma civil, Fundações A. Cavaco, sediada no Algarve, para efectuar um furo artesiano, dentro do perímetro militar, a fim de que a água fosse obtida com mais facilidade e também que a mesma fosse de melhor qualidade. É realmente certo que as obras já decorriam. No entanto, a grande dificuldade era, mesmo, encontrar água potável. Acho que o furo já possuía mais de mil de profundidade e nada. Aliás, para colocar a lama retirada do furo de perfuração, foi construído um enorme buraco para a conter, teria cerca de 500 M2 de área e cerca de 2 M de profundidade. Por motivos de segurança, mais para sinalizar a área de perigo, ao redor desse buraco foi construída uma cerca em madeira.
Sabíamos que iria haver coluna, estávamos em Agosto. Consequentemente, encontrávamo-nos apreensivos, pois como é sabido os perigos na picada eram, de facto, enormes. Porém, não obstante essa realidade, quiçá para premiar o nosso extremo degredo, os Comando decidiram que a retirada fosse efectuada de avião. A viagem aérea teria destino Mocímboa da Praia e daí para Porto Amélia o meio a ser utilizado seria o marítimo. Na ponte aérea entre o ponto de partida e chegada, apenas foi utilizado um avião Islander, pilotado pelo marido da Íris, lembram-se? Foram retiradas todas as cadeiras da aeronave, obviamente excepto a do piloto e a do co-piloto, pelo que o pessoal sentava-se no chão, com a bagagem. Por consequência, a comodidade era mínima, contudo, ninguém reclamou. Na verdade, era preferível mil vezes esta incomodidade de que as agruras e o temor da picada. Perante a capacidade do avião, em cada viagem, apenas seguiam onze homens com a respectiva bagagem. Nesta conformidade, a ponte aérea durou dois dias.
O critério para a organização dos grupos da saída foi simples, em primeiro lugar grupos de combate, dentro destes a ordem numérica e por último as secções de apoio. Como integrava o 1º Pelotão, coube-me o privilégio de integrar o primeiro grupo a sair de Omar. Era uma euforia total por parte dos soldados, pelo que já referi, iam sentados no chão do avião com as malas e os sacos. No que me diz respeito, ia instalado ao lado do piloto, na cadeira do co-piloto. Por conseguinte ia comodamente sentado e com uma visão espectacular sobre os terrenos verde do planalto dos macondes. Quando o avião começou a rodar na pista, o piloto, com um risinho irónico disse-me: Quer ver como eles se calam. Sinceramente, jamais presumi o que ele ia fazer. Na realidade, quando iniciou a manobra de deixar o solo fê-lo de maneira abrupta, iniciando a subida quase a pique. Quando ganhou altura suficiente efectuou um voo picado em direcção a terra que na verdade calou o pessoal da “galeria”. Todavia, a mim começou a dar-me a volta ao estômago que quase ia chamando pelo “gregório”. Foi preciso chamar-lhe a atenção para esse facto, senão acontecia mesmo sujeira. Nem deu para mirar, calmamente, Omar, pela última vez. Com a mesma ironia que me disse que ia calar os rapazes, disse-me que eu era um fracote. Pois, disse eu. Mas aquela visão de ver a terra a aproximar-se rapidamente de nós foi mesmo estonteante, mesmo no sentido literal do termo. Quando dei por mim já sobrevoamos o famoso Lago Lidede. Sobrevoamos também a localidade de Nangade e cerca de meia hora depois e sem nenhum tipo de problema já estávamos a aterrar na pista de Mocímboa da Praia.
Nesse dia foi aerotransportada metade da Companhia, pelo que, a outra metade ficou para o dia seguinte, pelo pernoitou em Omar. Nessa noite, decidimos ir jantar a um restaurante. Porém, a dificuldade foi arranjar um na medida em que Mocímboa da Praia, embora fosse um espectáculo em termos naturais. Como urbe era uma aldeola, no entanto, lá conseguimos encontrar um bar que se situava na praia. Comemos somente marisco, lagosta e camarão acompanhados por grandes canecas de cerveja, foi um fartote. Estávamos na esplanada do bar, a comer á “fartazana”, quando se abeirou do grupo, um pescador nativo que ofereceu lagosta a 10$00 o kg. Não aceitamos por motivos óbvios que não o preço evidentemente. Todavia, alguém lhe disse que o preço era baixo, em resposta sussurrou-nos que o dono do bar só lhe oferecia 6$50 por kg e o marisco tinha que ser bem pesado.
Quando chegamos ao Quartel, cerca das 23,00 horas, soubemos que os “checas” que nos foram render tinham chegado a Omar nesse dia de coluna e sem qualquer tipo de problema na picada. Aliás, o Comandante do Batalhão, por motivos psicológicos acompanhou a Companhia nessa viagem. Acontece que nessa noite foram vítimas, no aquartelamento, de um ataque à morteirada, o primeiro para eles e o décimo oitavo para nós. Nesta altura, o Comandante de Batalhão denotou valentia, dirigindo os soldados na defesa do reduto encaminhando-os, de peito aberto, para as valas ao mesmo tempo que lhes dirigia palavras de apoio e incentivo. Porém, existem imprevistos, as granadas de morteiro nem sequer explodiram dentro do perímetro, mas começaram a sibilar de forma aguda por cima da cabeça do Tenente-Coronel, era essa a sua patente. Nesta altura, perdeu toda a compostura e começou a correr veloz e cegamente para a vala de defesa. Contudo, fê-lo tão precipitadamente que não vislumbrou o buraco que arrecadava a lama provinda do furo artesiano. Na realidade, cego e precipitado rebentou com a cerca e caiu lá dentro. O lamaçal era, tal qual, areias movediças, não conseguia sair, pelo que começou desesperadamente a gritar por ajuda. Lá se foi a pose e a soberba que os militares de Cavalaria normalmente ostentam. Nenhum dos “cavaleiros” se chegava e o homem, angustiado, cada vez gritava mais. Apenas serenou quando chegou junto dele, ainda em pleno ataque, o 1º Sargento Figueiredo da minha Companhia, que lhe estendeu uma ripa de madeira e o ajudou a sair do lodaçal. Foram para a vala, após o ataque dirigiu-se para os seus aposentos sem dirigir a palavra a ninguém. Logo que pôde, envergonhado, apanhou a DO para Mocímboa do Rovuma, via Mueda, e nunca mais voltou a Omar.
No dia seguinte, logo cedo, recomeçou a ponte aérea, entre as localidades em referência. Efectivamente, a mesma acabou por volta das 15,00 horas. Uma hora mais tarde, toda a Companhia se dirigiu para o cais de Mocímboa da Praia, com o intuito de apanhar o barco para Porto Amélia. O tal barco era uma corveta da Marinha Portuguesa que se encontrava ao largo, visto que ao cais não podiam aportar, por razões técnicas, barcos de médio e grande calado. Nesta conformidade, desde a doca até à corveta, a viagem foi efectuada num batelão que era, nem mais nem menos, uma plataforma flutuadora arrastada por um barco rebocador. Cerca das 18,00 horas já todo o pessoal estava dentro da corveta. Em virtude de ser exclusivamente um barco de guerra não tinha qualquer tipo de condições para passageiros. Assim, as praças acomodaram-se na coberta do navio. Nós, os Sargentos, ficámos na sala de refeições dos sargentos da embarcação, no tocante aos oficiais, como eram poucos, conseguiram arranjar aposentos para os mesmos. Zarpou pelas 20,00 horas. O jantar foi servido já a bordo, sendo certo que o mesmo não foi muito pesado. Pescada cozida com hortaliça e batatas cozidas. De qualquer maneira os nossos colegas marinheiros avisaram-nos que o mar estava picado, por conseguinte, o navio iria balançar muito. Consequentemente, mesmo tomando a pílula contra o enjoo, fomos aconselhados a não nos mexer muito. No que me disse respeito, cumpri, até onde pude, o conselho. Mesmo após a refeição permaneci no mesmo lugar até às 4,00 horas. Nessa altura tive necessidade de me deslocar aos lavabos, a fim de efectuar uma necessidade fisiológica básica. Na realidade, logo que me pus em pé tive que correr em direcção ao WC e antes de urinar comecei a chamar pelo “gregório”. No entanto, fiquei aliviado e para apanhar ar vim para coberta. Aí, assisti a um espectáculo espantoso. As ondas com a altura superior a sete metros batiam na frente do navio e de seguida espraiavam-se por cima do mesmo, dando a sensação que estava chovendo. Os soldados enrolados nos seus panos de tenda, abrigavam-se como podiam, encharcados, até aos ossos, tiritavam de frio. Também, presenciei a um admirável nascer do sol, nunca tinha visto nenhum no mar e, na verdade, foi um espectáculo único, inolvidável. A viagem demorou doze horas e dentro destes condicionalismos cerca das 08,00 horas, já com o sol alto, atracamos no cais de Porto Amélia.
Cansados mas felizes conseguimos, novamente, respirar a civilização. Vamos aguardar, calmamente, o futuro, mas vamos viver, intensamente, o presente, nestas condições não interessa sonhar muito.
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