Avançar para o conteúdo principal

Honde - 25 de Abril


 Honde - 25 de Abril
                                                                 
Recordo sempre com assombro o dia que no calendário se identifica como “25 de Abril de 1974”. Encontrava-me na localidade de Honde. No dia anterior, uma Quarta-Feira, tinha ido a Vila Gouveia, a fim ser inquirido pela PIDE/DGS, apenas pelo facto de ter requerido no Governo Civil de Vila Pery, no pretérito mês de Fevereiro, um Passaporte que fosse válido para todos os países que mantivessem relações diplomáticas com a República Portuguesa. Na verdade, a inquirição durou mais de três horas, tive que expor totalmente a minha vida, foram ao mais pequeno detalhe, quantos irmãos tinha, que fazia o meu pai, que fazia a minha mãe, que posses financeiras possuía, qual era a minha profissão na vida civil, para que é que queria uma tão vasta gama de países inscrita no documento, se queria ir em turismo ou se queria emigrar. O rol de perguntas era tão vasto e a mesquinhez era tanta que me deu vontade de dizer ao Inspector que já não queria Passaporte nenhum, mas aguentei-me. Não obstante nada de anormal existir na minha vida, segundo aquele, nada garantia que o documento requisitado fosse emitido. Aliás, o tal Inspector disse mesmo que ia estudar o parecer a fornecer ao Governador Civil. Nesse mesmo dia, após a chegada ao aquartelamento, como responsável pelo 1º Pelotão, fui chamado pelas chefias, que me ordenaram a preparação de uma escolta para que no dia seguinte, pelas 04,30 horas, estivesse pronta, na Ponte do Pungué, para proteger uma personalidade do Governo Provincial que iria visitar as obras da construção da barragem de Cabora Bassa. Efectivamente, o nosso trabalho consistia em escoltar, fornecer segurança a eventuais investidas da frelimo, á referida coluna entre o cruzamento da estrada nacional com o Rio Pungué, logo a seguir ao Vanduzi, era ali que se iniciavam as escoltas militares até Vila Gouveia. A passagem pela PIDE/DGS e esta Operação Militar inopinada deixaram-me bastante nervoso, isto para não usar outro substantivo do calão, na medida em que já possuía, como se dizia na gíria militar dois meses de “mata-bicho” e, por outro lado, não era muito comum efectuar operações deste género. Aliás, nunca tínhamos efectuado nenhuma deste calibre. Realmente, o perigo era sempre iminente, claro está, que havia sempre a possibilidade de encontro com o inimigo. Na realidade, o alvo era demasiadamente apetecível se a identidade do escoltado chegasse ao conhecimento da frelimo. Não há dúvida que em tempos, tal situação não me incomodava muito, naquela altura do “campeonato” o temor de morrer ou ficar estropiado importunava-me bastante. Era muito aborrecido ter problemas sérios com dois anos e dois meses de Comissão. Ainda estavam bem presentes na memória as emboscadas de M´Panze, que vitimaram mortalmente três camaradas e feriram com gravidade um quarto. Por motivos óbvios deitei-me cedo e preocupado. Por consequência, por via do nervosismo e da angústia, também pelo calor e pela humidade a noite estava a ser muito mal passada. Quando seriam cerca das 03,00 horas alguém me chamou. Consequentemente, presumi que já seriam horas para preparar o pessoal e as viaturas para a missão anunciada, resignado com o meu triste fado lá me levantei com o espírito do costume, a tarefa, por muito difícil ou por muito que me custasse ou contrariado, iria ser realizada. Todavia, para minha surpresa constatei que quem me chamava era um dos elementos do posto de comunicações, o Carlos ou o Flávio, não me lembro. Com efeito, avisou-me que a escolta tinha sido anulada, por consequência, a ordem anterior estava revogada. Sem qualquer outra explicação fiquei extremamente feliz. Contudo, tal situação não era muito comum pois estas ordens partiam sempre do Comandante e éramos sempre convocados para o posto do comando para as receber. Por conseguinte, indaguei-o sobre o facto de ser ele a efectuar abordagem e o porquê da anulação. Referiu-me que havia sido o Comandante da Companhia quem lhe ordenara que me transmitisse a ordem, dado a hora excepcional em que a mesma tinha chegado ao aquartelamento. No que concerne à origem da mensagem relâmpago que anunciava a extinção da escolta, apenas me disse que tinha vindo do Comando do Sector. Ainda insisti, perguntando, de novo, qual o motivo da supressão da missão. Porém, apenas me foi referido que na mensagem em questão não existia qualquer referência sobre o motivo da anulação da mesma, mandava anular simplesmente. Especulei, presumindo que o motivo do adiamento fosse algum problema logístico ou de alteração de agenda da individualidade em causa. Agradeci aos deuses e face a esta situação voltei para vale de lençóis e a partir daqui, não há dúvida, que dormi muito melhor. Todavia, sempre esperei que a cada momento chegasse nova ordem a promover novamente a escolta em questão.
Entretanto, na manhã de Quinta-Feira, dia 25, enquanto tomava o pequeno-almoço, reparei que havia qualquer coisa na atmosfera que não era normal. A Rádio Clube de Moçambique, não se encontrava no ar, estava completamente em silêncio. A Emissora Oficial de Angola, apenas transmitia marchas militares, sem comentário de alguma espécie. Era rigorosamente verdade, que o nosso elo de ligação ao mundo eram aquelas emissoras, bem como o nosso posto rádio, pelo que para lá me dirigi. Contudo, lá sabiam tanto como eu, isto é, nada de nada.
Nesta conformidade, demos início a várias diligências para conseguir apurar o que, realmente se estava a passar, designadamente, comecei a sintonizar a telefonia em emissoras rodesianas, sul-africanas até mesmo zambianas que, obviamente, transmitiam em inglês ou em algum dialecto africano. Somente depois do almoço, lá consegui perceber alguma coisa, aquando da leitura do noticiário numa rádio sul-africana, fiquei a saber, verdadeiramente, que em Lisboa tinha acontecido um levantamento militar. No entanto, nada mais era acrescentado, desconhecia-se por completo que tipo de revolta militar os seus fins e, logicamente, o resultado final. Consequentemente, passei o dia tentando saber, usando os parcos meios que possuíamos para apurar o que na realidade tinha acontecido na Metrópole. Mal sabia ou sonhava que tinha sido quebrado o jugo da ditadura e que tinha nascido a liberdade. É estranha esta sensação, quando ainda de manhã, aqui no fim do mundo, a miudagem da escola, antes de entrar na sala de aulas, devidamente alinhada e perfilada, com o braço estendido, ao jeito fascista, cantava, alto e bom som “A Portuguesa”, sob a regência do mestre-escola, uma apologia ao regime caído. Apenas no final do dia é que tivemos a percepção do que realmente tinha acontecido em Lisboa. Sem saber do que iria suceder no futuro, apenas desejamos que essa revolução acelerasse o nosso regresso, na medida em que já estávamos em Moçambique há vinte e seis meses e nem sequer sabíamos quando iríamos regressar.
Já em fins de Maio princípios de Junho, quando já me encontrava na Beira, aguardando transporte para a Metrópole, numa reunião, para Sargentos e Oficiais, realizada no quartel daquela cidade e promovida pelo Movimento dos Capitães de Abril, representada pelo Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, Major Firmino Miguel e o Coronel Francisco Costa Gomes, é que fiquei a saber dos pormenores da revolução. Estes ventos de liberdade, também chegaram ao Honde. Realmente, já em Maio houve uma recusa do pessoal em sair para o mato. Esta atitude, nada de teve de política, na medida em que a mesmo foi tomada, espontaneamente, pela classe das praças, não envolvendo nenhum Oficial ou Sargento. Na verdade, o motivo de tal atitude, foi o facto de a Companhia ter já quase vinte e sete meses de Comissão e nem sequer existia uma data prevista para o fim da mesma. Paralelamente, em cada dia que passava os patrulhamentos começavam a ser mais longos e para zona mais inóspitas. Esses factos, revoltaram o pessoal e daí o levantamento militar. A recusa motivou a que um Coronel, aquele a quem eu me já referi em ocasião anterior, ter vindo ao Honde, para mediar o imbróglio. Efectivamente, as negociações realizaram-se e a contento do pessoal. Estou plenamente convencido que no anterior contexto político, esta atitude não seria possível. Mas caso acontecesse também estou convencido que a nossa Comissão nunca mais finalizaria e acabaríamos por ser todos condenados pela justiça militar, por rebelião ou mesmo traição á Pátria. Outra das decisões assumidas pelo Movimento dos Capitães, foi a extinção da PIDE/DGS. No entanto, no Ultramar e obviamente em Moçambique, ainda continuava activa, dizia-se que era por razões de informações militares. Depois deste dia, quando voltei a Vila Gouveia, dirigi-me ao posto da PIDE/DGS, e desta vez, já de cima do escadote, perguntei ao Inspector que me havia interrogado se já havia enviado o parecer para o Governo Civil de Vila Pery, se não o tinha feito que o fizesse o mais rapidamente possível. Atrapalhadamente respondeu-me que sim, mas não fiquei muito convencido. Na primeira oportunidade quando fui a Vila Pery, dirigi-me ao Governo Civil, perguntando pelo Passaporte requerido. Disseram-me que estava para despacho do Governador, porém, adiantaram-me que daí a dois dias estaria pronto. Com efeito, passado, esse lapso de tempo, estava, mas, verifiquei que não era válido para todos os países do mundo que mantivessem relações diplomáticas com Portugal, meteram-lhe europeus no meio. A liberdade ainda não se vivia por completo, ainda existiam uns resquícios eivados de medo, ainda não sabíamos saboreá-la em toda a sua plenitude, pelo menos alguns.
Outro evento militar relacionado quiçá com o 25 de Abril. Foi o facto da Companhia de Cavalaria, que nos rendeu em Omar, em Maio ou Junho, já lá estava há dez meses, ter sido apanhada, à mão e sem um tiro, pela frelimo. Creio que aquele movimento se aproveitou, astuciosamente, dos ventos de liberdade e também pelo facto de já existirem reuniões secretas, entre eles e o governo português, para discutir em que moldes se daria a transição do colonialismo para a independência de Moçambique. Em termos militares, a operação que levaram a efeito, consistiu no facto de ter aparecido um pequeno grupo de negros do lado da pista, portão norte, não exibindo qualquer arma e a gritarem palavras amistosas e de que a guerra não fazia sentido, só faltava falar em paz e amor. Esta atitude levou a que a maior parte da nossa guarnição, ingenuamente, se deslocasse para aquele sector do aquartelamento, desarmada, movidos somente pela curiosidade e o inesperado da acção. Como é óbvio, para assistir ao que se estava passar. Caíram no logro, tal qual os troianos perante a presença do cavalo dos gregos. Ao mesmo tempo, pelo portão sul, lado contrário, começaram a entrar mais de mil guerrilheiros da frelimo, armados até aos dentes que, com facilidade, procederam à captura de quase todos elementos que compunham a defesa de Omar. Digo quase todos, porque alguns soldados, poucos, ainda conseguiram escapar e a corta mato, demorando alguns dias conseguiram chegar, sãos e salvos, a Mueda. Os capturados foram passeados e exibidos como “troféus” de guerra na Tanzânia, para onde foram conduzidos, a pé, por trilhos, tortuosos de dissimulados, no mato.
Se bem que possa aparentar um lugar-comum, quero finalizar este capítulo com a frase “ Abril, sempre “.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ares serranos. Parte 4

Ares Serranos. Parte 4 A rivalidade entre pessoas, entre grupos, entre localidades, entre regiões, entre países, deve ser tão velha como o homem. Todavia, neste momento e na sequência do desafio que há dias, ocorreu entre a ADR Terras de Bouro e o GD do Gerês. Efectivamente, é por demais evidente que se trata do derby concelhio e desta vez, saiu vencedor o GD Gerês. Não obstante a maior dos atletas do GD Gerês não serem naturais e ou residentes na vila, é bem verdade que na Freguesia, sempre houve tendências futebolísticas, bem como atletas de fino recorte. Lembro-me de falarem no Quim do Dias, que esteve para ingressar no Sporting de Braga, nos 50. Aliás, eu recordo-me muito bem dele das viagens que fiz na viatura de carga e mais tarde na de passageiros da Empresa Hoteleira do Gerês, conduzidas por ele, no percurso Braga – Gerês e volta. Porém, além disso, conta a história que os cidadãos da freguesia de Vilar da Veiga, mesmo em tempos muito remotos já se preocupavam com a educação...

Braga, sempre.

Era uma vez, numa terra muito bonita à beira mar plantada, entre outras várias ocorrências e peripécias, existiam pequenas tribos que, entre si, praticavam um jogo chamado chuto no couro. Havia os azuis, os verdes e os encarnados, digo encarnados porque estes de vermelho nada tinham, já que a tal terra quando era governada, ditatorialmente, por um indivíduo chamado Sala e Azar, embora muito lhes custe a engolir, era a tribo do regime. Durante este regime estes encarnados ganhavam quase tudo, muito embora, às vezes, tais vitórias não fossem muito claras. Eram famosos os roubos de catedral. O campo dos lampiões era fortim afamado, pois era muito bem guardado por homens de fato preto, consequentemente, nenhum adversário tinha hipóteses de sair de lá a ganhar alguma coisa. Entretanto, aconteceu uma revolução que também se repercutiu no jogo chuto no couro, pelo que os verdes, os axadrezados e, principalmente, os azuis começaram a ganhar. Aliás, os azuis também começaram a ganhar no Cont...

A minha Escola de Futebol 3

Na continuação da saga da minha escola de futebol, desta vez vou dedicar a escrita ao Campo de Baixo. Este campo situava-se entre as traseiras das primeiras casas da ala esquerda da Rua Dom Francisco de Noronha e a congosta que existia entre este campo e a Quinta das Andorinhas, ou a Quinta do Rascão como nós a denominávamos. Apelidávamos a exploração agrícola deste modo, pois o caseiro ou proprietário da altura chamava-se Rascão. Era principalmente um campo de Verão, na medida em que no Inverno tornava-se num autêntico lamaçal pelo facto de ali desaguarem duas linhas de água. A par de recinto de jogos de futebol era também um local onde passávamos muito tempo, aproveitando a linha de sombra proporcionada pelos choupos existentes em paralelo com o muro que delimitava o campo e a congosta, jogávamos às cartas. Esse jogo, normalmente era o “montinho”, todavia, também se jogava à “pedida” e ao “sete e meio”. Efectivamente o que movimentava esse jogo de cartas eram as apostas que se f...