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Omar, morteirada.

Omar, morteirada.                           

Em alguns textos anteriores já aludi a ataques à morteirada. Efectivamente, denominavam-se assim as investidas que a frelimo movia contra o exército português, utilizando, geralmente, um ou mais morteiros de 82 MM (armas que arremessavam granadas, em tiro curvo e que explodiam ao contacto). Não obstante não ser uma arma de artilharia, podia ser utilizada a mais de 5 KM do alvo.
Foram dezoito ataques deste género que sofremos em Omar, muito embora no terceiro, a 28 de Maio de 1972, também foram usados canhões sem recuo. Esta arma ainda pode ser usada numa distância superior à do morteiro. Todavia, a sua granada provoca menos danos pessoais que a do morteiro. Na verdade, é mais perfurante e menos explosiva. Esta arma é de tiro directo, mas, por ser mais pesada e sofisticada, é de mais difícil transporte.
Normalmente, estes ataques davam-se ao final da tarde, na tal hora maconde. Efectivamente, isso acontecia porque deste modo, as forças agressoras, tinham a noite toda para efectuar a retirada com inteira segurança. Era sabido que, à noite, a Força Aérea não saía. Consequentemente, não podia dar cobertura aos atacados. Por outro lado, as tropas alvo dos ataques teriam imensa dificuldade em efectuar uma resposta, progredindo no terreno no encalço do inimigo, pois não tinham claridade, logo a visão não era suficiente para efectuar a resposta, na medida em que o conhecimento que tinham da orografia do planalto dos macondes era bem menor que a das forças da frelimo. Portanto, o risco era enorme, se fosse efectuada uma manobra, de contra ataque, deste tipo. Acontece, que no fim do dia, os atacantes ainda tinham uma visão perfeita do alvo, por consequência podiam, perfeitamente, efectuar a mira ou acertá-la nos disparos seguintes. Resumindo, para nós a hora maconde era mesmo maldita.
Nos ataques em que eram somente usados morteiros, o pessoal da vigilância dava o alarme efectuando tiros, em rajada, de G3, logo após ouvir a saída da granada da “boca” do morteiro. Era um estampido seco e muito particular. De facto era inconfundível, porém, o mesmo já não sucedia assim com o disparo do canhão sem recuo. Perante esta realidade, todo pessoal, excepto o do posto rádio e da enfermaria, tinha a obrigação de recolher a sua arma, bem como os carregadores de substituição e correr, velozmente, para as valas que circundavam o perímetro militar, a fim de se proteger, pessoalmente, de uma eventual explosão da granada de morteiro, bem como para defender o aquartelamento, pois nunca se colocava de parte a hipótese de poder acontecer um golpe de mão (ataque pessoal, com armas ligeiras), logo a seguir à morteirada. Se a nossa resposta corre-se bem, as granadas quando começassem a explodir já o pessoal se achava em segurança – relativa – nas valas, ou nos abrigos subterrâneos. Obviamente que o pessoal da Artilharia, bem como o nosso pessoal dos Morteiros 81 MM, corriam para os seus fortins, para dar uma resposta do género aos atacantes.
È lógico que tinham de perscrutar de onde partiam os disparos. Assim, era possível pelo som, calcular mais ou menos o local. Por outro lado, medir, em tempo, o que mediava entre a saída da granada e a explosão da mesma, para, se poder calcular a distância a que estava ser efectuado o ataque. Conseguidos estes parâmetros, a nossa defesa mais pesada, também, remetia para aquele local as nossas “ameixas”.
Chegamos a Omar em meados de Março de 1972 e o primeiro ataque deste género apenas se deu a meados do mês seguinte. Consequentemente, já havia muito pessoal a pensar naquela frase que alguns proferiram quando chegamos a Omar de coluna, sem qualquer confronto com a frelimo, “nem tanto ó mar nem tanto à terra”. Os “velhinhos” avisavam, não se fiem muito nisso, olho fino e pé ligeiro. A “velhice” tem sempre razão e… lá veio o baptismo de fogo.
O ataque ocorreu cerca das 18,00 horas, portanto, quase noite e nós, embora, “checas” respondemos bem. Realmente, reagimos como estava previsto, apagou-se a iluminação, e quase todo pessoal pegou nas suas armas e cartucheiras e correu para as valas. Por sorte, nesse dia a frelimo errou a pontaria, todas as granadas disparadas, cerca de vinte, passaram por cima do aquartelamento e foram explodir, a mais de cinquenta metros da última fiada de arame farpado. No entanto, tivemos a estranha sensação de as ouvir a “assobiar” por cima das cabeças, já que elas produzem um silvo muito peculiar, mas para mim era agradável ouvi-lo, pois se o ouvíssemos era sinónimo que ela iria passar a nossa posição. Finda morteirada, ainda se ficou nas valas, por mais algum tempo, prevendo um eventual golpe de mão.
Quando tudo serenou, deu para pensar naquilo que iríamos enfrentar no futuro. Na realidade, foi a primeira sensação real de guerra que sentimos. Havia inimigo militar e querendo ou não tínhamos que o enfrentar, não olvidando que os perigos do conflito eram intensos, perigosos e muitíssimo reais.
Exceptuando o terceiro ataque, ocorrido a 28 de Maio de 1972, todos ocorreram, mais ou menos, desta forma, é certo que as granadas, por vezes acercavam-se mais do aquartelamento. Contudo, nunca feriram ninguém e a nossa resposta foi dada sempre a preceito.
Sucede que apesar de estarmos avisados, pela Informação Militar, que no 28 de Maio estava previsto um ataque em força da frelimo a um aquartelamento fronteiriço, fomos surpreendidos pelo imprevisto. Perante o aviso atrás aludido, nesse dia, até se jantou mais cedo e entre as 16,30 e as 20,00 horas, todo pessoal estava nas valas e nos fortins, de prevenção a uma potencial agressão. Na medida em que, nas horas mais prováveis, nada aconteceu levantou-se a “prevenção”.
Nesse dia, a lua cheia brilhava quase tanto como o sol, era quase dia e por volta da meia-noite, o ataque começou. Contra o costume, o alarme da vigilância só teve lugar quando as granadas começaram a explodir dentro do aquartelamento. Este facto aconteceu, porque desta vez, a investida foi iniciada com o canhão sem recuo, que tem um tiro mais preciso. A saída da granada dá-se com uma explosão que foi confundida pelas sentinelas com muitas que se davam à noite, quando algum animal accionava uma mina anti-pessoal no meio do mato ou da picada. Estes factos produziram uma grande confusão e a reacção não foi tão consistente como nos casos anteriores. Felizmente, não houve vítimas mortais, porém, tivemos sete ou oito feridos, dois deles com muita gravidade. Aliás, o Alferes Nogueira, que teve um pulmão perfurado, face à inferioridade física sofrida, passou à disponibilidade. O outro ferido grave foi Furriel de Artilharia Raul Ferreira, foi apanhado, mesmo resguardado dentro do fortim do obus, por um estilhaço de granada que explodiu numa árvore, sendo certo que o mesmo ficou alojado a milímetros da carótida, foram esses milímetros que lhe salvaram a vida.
Um dos feridos ligeiros foi o Soldado Segismundo, este homem era surdo-mudo e tinha a visão debilitada, com incapacidade de cerca 75%, mesmo assim foi “defender a Pátria”. Face a esta inferioridade, perante o ataque ficou perplexo, não sabendo, nem vendo o local para onde se dirigir para se proteger e proteger os outros, ficou, angustiado, a correr de um lado para outro. Efectivamente, nesta correria, também, foi vítima da mesma granada que vitimou o Furriel Ferreira.
Também nesse dia fiquei a saber que existe a Mão Divina, o Anjo da Guarda, o instinto de sobrevivência ou o sexto sentido, consoante a perspectiva com que se queira abordar o assunto. Quando acordei já ouvia as explosões dentro do aquartelamento. Maquinalmente, agarrei na G3 e nas cartucheiras e a correr saí da caserna dos Sargentos, procurando chegar a vala que ficava debaixo da torre de vigilância que se situava na porta sul, o percurso que inconscientemente desenhei, foi atravessar a alameda e seguir junto à caserna dos oficiais até á já citada vala. Logo que saí da caserna ouvi o silvo de uma granada, prevendo que ela pudesse explodir à minha frente, deitei-me no chão, protegi a cabeça com as mãos e esperei, segundos depois, para lá da caserna dos oficiais explodiu uma granada. De imediato me levantei e tornei a correr com vista a chegar ao objectivo que já referi. Momentos após, perto da esplanada dos oficiais, desequilibro-me e caio, aparentemente, sem qualquer razão, sentindo atrás de mim, dois a três metros, uma forte explosão, seguida de uma chuva de estilhaços que passando por cima do meu corpo, se cravaram com enorme violência num frigorífico avariado que se encontrava junto à esplanada já citada. Neste momento, junto à porta da caserna de sargentos, ouço alguém a gritar que está ferido, era o Soldado Torrado, ferido nas pernas pelos estilhaços da granada que rebentou atrás de mim. Ele negativamente e eu de forma positiva sofremos do espalhar, em forma de guarda-chuva, dos estilhaços das granadas de morteiro. Findo este episódio lá, retornei à corrida e consegui chegar ao local que desejava. Ainda gritei para o Torrado para ter calma que logo que fosse possível o iria ajudar.  Tudo isto se passou em segundos, todavia, pareceu-me uma eternidade. Na vala encontrei o Furriel de Artilharia Névoa que não devia estar neste local, mas sim no obus.  Como eu estava descalço, a partir de certa altura comecei a sentir algo quente nos meus pés. Meti a mão e senti sangue. Pensei, estou ferido. Contudo, apalpei-me e não senti qualquer ferimento. Então perguntei ao Névoa se era ele quem estava ferido, disse-me que não. Mas, numa análise mais pormenorizada verifiquei que era mesmo o Névoa quem estava ferido, tinha o fundo de um copo de vidro espetado no pé que o fazia sangrar abundantemente. Porém, face ao estado de choque em que o mesmo se encontrava, curou a bebedeira e ficou insensível à dor. Mais tarde, já refeito, referiu que o copo que o havia ferido era aquele que continha o uísque que estava a beber aquando do início do ataque e que, pelos vistos, o transportou desde a sua cama até ali. Foi um susto e uma angústia enormes, foi o sentir, pela primeira vez, o que era uma guerra a sério. Quando, mais tarde, constatei o que me havia sucedido, pelo perigo que passei, pela sorte que tive, e, principalmente, pelos camaradas feridos que sofreram durante o resto da noite à espera pela evacuação para o Hospital de Mueda, não consegui reter as lágrimas.

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