Omar, Golpes de Mão.
Este tipo de acção militar nunca foi realizado, na íntegra, pela Companhia, não obstante se terem efectuado dois ensaios, o primeiro foi realizado, conjuntamente, com uma Companhia de Comandos que esteve estacionada em Omar. A base a ser assaltada que se situaria na zona do Congolo, teria sido referenciada por um indivíduo, africano, que de duas uma, ou teria sido capturado em acções anteriores e aceitou colaborar com as nossas tropas, ou seria um desertor da frelimo que se mostrou colaborante. Em qualquer dos casos, tal indivíduo saiu, em campanha, com três grupos de combate dessa Companhia e com um grupo de Omar. Essa missão teria a finalidade de localizar a tal base e através de um golpe de mão, capturar pessoal inimigo, bem como apreender material de guerra que ali pudesse existir. Todavia, apesar de terem sido efectuadas várias tentativas, o tal colaborador não conseguiu, ou não quis localizar a base que, anteriormente, tinha indicado. Andou a enrolar todo o tempo. Efectivamente, não se conseguiu apurar, pelo menos em Omar, o que motivou a que o mesmo tomasse a atitude que tomou. De qualquer maneira esta Operação causou estragos humanos, na medida em que, quando se progredia no mato, o elemento da frente que por acaso era da nossa Companhia, inadvertidamente, accionou uma armadilha dissimulada colocada no trilho que feriu o segundo e o terceiro elementos da coluna, ambos pertencentes à Companhia de Comandos. Imediatamente, foi solicitada a sua evacuação pelo que foram transportados de helicóptero para o Hospital de Mueda. Um deles foi ferido por vários estilhaços que o atingiram em várias partes do corpo. Contudo, o outro apenas foi ferido por um estilhaço, pouco mais volumoso que uma cabeça de fósforo, na zona abdominal. O primeiro ferido depois de tratado foi enviado para o Hospital de Nampula, no que concerne ao segundo, logo a seguir ao tratamento, foi-lhe dada alta, tendo seguido para o Batalhão, a fim de aguardar transporte para Omar. Nesse dia já não havia condução pelo que teve que pernoitar em Mueda. Porém, na manhã seguinte foi encontrado já cadáver na cama onde se tinha deitado. Mais tarde veio-se a constatar que a causa da morte foi o tal insignificante estilhaço que lhe perfurou o baço, sendo certo que tal lesão, na altura do tratamento não lhe foi diagnosticada. Infelizmente, também se morria na guerra por negligência médica.
A outra tentativa, também foi efectuada em conjunto com outra Companhia de Comandos. Contudo, desta vez não havia informador. A nossa missão era efectuar, num perímetro bastante afastado, uma espécie de rede exterior à base que era alvo, com o intuito de cortar a passagem ao inimigo, tanto de fora para dentro, como de dentro para fora da referida base. O golpe de mão seria efectuado pela tropa especial. Efectivamente de véspera, fomos colocados no terreno, mas a tal base, mais uma vez, não foi localizada, por consequência, não houve assalto. Porém, connosco aconteceu mais um episódio caricato com animais. Quando já estávamos instalados, cerca das 3,00 horas, portanto noite cerrada, um dos elementos da Companhia, começou a gritar desesperadamente. A zona em que nos encontrávamos era sensível e, em princípio, estaríamos perto do objectivo. Por conseguinte, os gritos alertariam o inimigo, pelo que, de imediato foi mandado calar e fomos ver o que se estava a passar. Quando chegamos junto ao camarada em questão, já o enfermeiro lhe estava a retirar da perna, zona dos gémeos, uma cobra, com cerca de 1 metro de comprimento, que ali se havia enroscado, talvez em busca de calor. Não sabíamos se o réptil era venenoso ou não. No entanto, a vítima não se queixou de nenhuma mordedura, nem o enfermeiro lhe detectou qualquer indício. Por mera cautela, utilizando éter, o paramédico anestesiou o bicho para que, de manhã, se pudesse verificar a perigosidade do mesmo. Mas o animal não esteve pelos ajustes e resolveu escapar, embora adormecido e preso a um arbusto com uma gaze.
Embora não se encaixe no contexto do tema deste capítulo, vou introduzir aqui, uma missão, por ter sido única, desgastante e bastante perigosa. Em Março de 1972, foi deslocada para Omar uma Companhia de Engenharia que tinha por missão minar a zona mais acessível da escarpa do planalto dos macondes, isto para quem vinha da Tanzânia. Com efeito, foram minados cerca de 20 km, com cerca de 60.000 minas anti-pessoais. Nós executamos a segurança próxima, já uma Companhia de Pára-quedistas, realizou a segurança afastada. Saímos de Omar pela picada que se dirigia para Mueda, mas no km 61, saíamos á direita, utilizando uma picada antiga que havia sido construída e usada durante a famosa Operação Nó Górdio, há cerca de 3 anos. Transportávamos o pessoal da Engenharia, bem como o material (minas) que iam ser colocadas no terreno. Os processos eram os mesmos de sempre, picávamos o solo e todos os preceitos de segurança eram observados. Porém, logo que entramos na picada antiga, certificamo-nos que o piso era extremamente duro, pelo que a pica não entrava, consequentemente, não perfurava o solo. Nestes termos, estaríamos mais à mercê de sofrer danos por não ser possível detectar com muita precisão as minas, eventualmente, colocadas naquela via. No entanto, o que nos consolava é que a haver minas naquele sector seriam muito antigas, portanto, encontravam-se mais profundas e melhor protegidas pela terra muito batida, pois como já referi, a picada em questão não era usada desde 1969. O meu grupo é que marchava na cabeça da coluna, e após termos percorrido cerca de 3km, nesta picada, o rebenta minas accionou uma mina. O Marta era o condutor da viatura e lá tirou o curso de pára-quedista, sem pára-quedas. Fomos encontrá-lo no meio do capim, mas, felizmente, ileso. Rebocou-se o rebenta minas para o aquartelamento e de lá veio outra viatura preparada para o mesmo serviço. O Marta ia ser substituído face ao ocorrido, porém, declinou a substituição, pelo que, galhardamente, tomou o volante do novo rebenta minas. Outra mina e novo rebentamento, outra viatura para o “galheiro”, logo, novo voo do Marta. Desta vez ficou com uma série de escoriações e psicologicamente afectado, pelo que regressou a Omar com a viatura danificada. Logicamente que veio outra Berliet para efectuar este serviço. Porém, por serem 16,30 horas, nesse dia já não andamos mais. O pessoal foi colocado estrategicamente para passar a noite, a máquina de engenharia, abriu um enorme buraco, onde colocamos as 60.000 minas. Ao escurecer começou a “festa”, a frelimo iniciou um ataque à morteirada, de cinco em cinco minutos lançava duas ou três granadas de morteiro. Como era noite nem a Companhia de “Páras” podia reagir, nós nem com o morteiro 81 MM ripostávamos, a fim de não fornecer ao inimigo referências da nossa posição. Restava aguentar e rogar a todos os santinhos para que os atacantes não acertassem no refúgio das minas. Estou convencido que se isso acontecesse não sobraria ninguém para contar a história, já que a explosão seria tão grande que arrasaria tudo numa área imensa. O nervosismo e a tensão aumentavam, na medida em que as granadas foram enviadas, espaçadamente, até às cinco da manhã. Foram doze horas dê festim para os homens da frelimo. Mas, na realidade, estavam a provocar mais danos psicológicos que físicos. De facto, o ataque só finalizou, no raiar do dia, com o apoio dos Fiat da Força Aérea. O apoio já tinha sido solicitado na noite anterior e logo que puderam os aviões levantaram e largaram as “ameixas” de 250 e 500 kg no local onde, provavelmente, se encontrava instalada a força agressora. Os estragos das bombas foram verificados pelos “Páras”, contudo, não puderam confirmar qualquer baixa do inimigo. Quando se iniciou o bombardeamento aéreo, com a força das explosões, as nossas viaturas quase levantavam do chão, não obstante o rebentamento se verificar a mais de 10 km de distância. Verdadeiramente assustador. Era a arma mais temida pelos homens da frelimo, e apelidavam os Fiat de “Já passou”, isto porque, segundo eles, primeiro caía a bomba e só após é que passava o avião.
No segundo dia colocou-se a questão: Se continuássemos nos mesmos moldes daríamos cabo de todas as viaturas de Omar e os objectivos da missão estariam, seriamente, comprometidos. Realmente, naquele terreno era impossível proceder à detecção de qualquer mina. Nestes termos, resolveu-se construir uma picada nova, paralela à antiga, com a máquina de engenharia que ali se encontrava. Só assim é que conseguimos levar a missão até ao fim, felizmente, sem mais nenhum percalço de maior. Exceptuando as morteiradas ao cair da noite. Foi um suplício.
As minas que foram utilizadas nesta acção, eram mais ou menos do tamanho de uma caixa de graxa de sapatos, depois de extraída a cavilha de segurança, não possuíam nada de metal, eram em plástico, tanto o invólucro como o explosivo e o detonador era em vidro. Os sapadores na eventualidade de no futuro, por algum motivo, serem obrigados a levantar o campo de minas, resolveram colocar sob cada artefacto, uma lata metálica, a fim de serem sensíveis ao detector de metais. Recorreu-se às latas existentes nas rações de combate. Assim, depois de consumido o conteúdo todo o pessoal guardava os recipientes metálicos para esse fim. Acontece que dois ou três meses depois, na picada conseguimos detectar uma mina destas. Eventualmente, o IN conseguiu levantá-la ou ficou a descoberto com o tempo, pelo que a transplantaram para a picada para funcionar contra nós. É certo que também agiram como os nossos sapadores, também colocaram debaixo da mesma, uma lata de metal. Quem diz que guerrilheiro da frelimo não era esperto…
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