Exames e Paludismo.
No dia da chegada á Beira, após o jantar dessa segunda-feira, comecei a ter dores de cabeça e uma forte sensação de cansaço. Todavia, pensei que com um passeio higiénico à beira mar esse mal-estar desaparecesse, pois a dor de cabeça e fadiga, podiam ter sido ocasionados pela viagem estafante de comboio. Efectivamente, por quase duas horas caminhei, calma e vagarosamente na marginal usufruindo do ar fresco e do local que a natureza em nada desfavoreceu. Mas não, essas sensações continuavam, mesmo quando cerca das 23,30 horas me deitei, não obstante ter o ar condicionado ligado. O meu companheiro de quarto já dormia a sono alto, tratava-se do 1º Sargento Enfermeiro Barreiros, que prestava serviço no Hospital Militar de Nampula e que se encontrava em trânsito na cidade da Beira. Pela manhã as mesmas más sensações continuavam. Aliás, a noite tinha sido muito mal dormida. Já pensava que os “luxos” me podiam fazer mal, pois dormia melhor no mato - chão ou no aquartelamento – colchão de ar. Na verdade, custou-me a ingerir o pequeno-almoço, pois a par das más sensações já referidas, também, comecei a ter náuseas.
Porém, mesmo neste estado lá meti os pés ao caminho e fui para o Liceu Nacional Pêro de Anaia, na Beira. Dirigi-me à sala de exame, apenas éramos dois candidatos, tantos como os professores que vistoriavam a prova, recordo-me que um deles era o Dr. Sacadura, professor de Educação Física. O exame era de História quando observei a folha de perguntas até o achei muito acessível. Contudo, a determinada altura não o via muito bem, as cefaleias aumentavam, tinha acessos periódicos de calafrios, sentia que a febre era intensa, as gotas de suor gelado caía em cima do papel do exame. Encontrava-me extremamente mal disposto. Essa situação foi notada pelo Prof. Sacadura que me perguntou se estava nervoso ou mal disposto. Disse-lhe que, efectivamente, estava nervoso, não por via do exame, mas por causa das sensações que já referi. Não obstante estar numa prova de aferição o referido professor, amavelmente, disse que podia sair um pouco e beber um copo de água para ver se a coisa passava. Acho que a cada momento que passava a situação piorava, presumi estar a sofrer de uma forte gripe ou de uma amigdalite, na altura também era achacado a esse tipo de enfermidades. Porque não apresentava melhoras fui à sala comunicar a minha desistência, os professores ainda me animaram a continuar, mas era de todo em todo impossível prosseguir, com efeito, já mal me segurava em pé. A custo cheguei à messe de Sargentos. Na medida em que o quarto já se encontrava arranjado deitei-me. Pedi um termómetro a um dos soldados impedidos da messe, solicito, o Joaquim, trouxe-me um que, obviamente, meti debaixo da axila para avaliar a temperatura. Fiquei perplexo quando vi 40ºC, presumi que estava a ver mal ou que a medição tivesse sido efectuada de forma incorrecta. Por conseguinte, procedi a nova apreciação. Outra vez o mesmo resultado, 40ºC, pelo que pensei, esta merda deve ser grave, nunca supondo o que quer que fosse. Os tremores aumentavam, se em momentos ardia em febre, noutros tiritava de frio. Comecei a notar uns vermelhões na derme e os suores eram cada vez mais abundantes, embora só em cuecas, de ar condicionado ligado, os lençóis achavam-se encharcadíssimos em água. Logicamente que falhei o almoço, o soldado Joaquim, aproveitou essa refeição, sabendo que o meu companheiro de quarto era enfermeiro, por consequência, nessa altura, comunicou-lhe o meu estado de saúde. O 1º sargento Barreiros veio visitar-me e de imediato, mesmo não sendo médico, anunciou o resultado do diagnóstico: Você está com uma carga de paludismo. Se por um lado fiquei aliviado, pois já sabia do que padecia, por outro lado fiquei preocupado porque não queria ir ao hospital, se não por certo, ficaria internado alguns dias. O paludismo ou malária é uma doença infecciosa aguda, mas também pode ser crónica, causada por um protozoário parasita do género plasmodium, transmitido pela picada do mosquito da espécie anopheles fêmea. É muito vulgar nos climas tropicais. Inclusivamente, já muito pessoal da minha Companhia havia padecido desse tormento. Aliás, até sabia que para o tratamento, na altura, eram usados comprimidos, tomados oralmente, da marca Resoquina ou Propoquin, segundo o meu conhecimento empírico, ambos manufacturados à base da quinina, alcalóide vegetal extraído da quina. Diga-se de passagem que antes da existência destes fármacos mais elaborados, para combater a malária ou o paludismo, conforme se queira, tomava-se o sulfato de quinina, conhecido também por quinino. Pedi ao 1º Barreiros que me arranjasse tais compridos, solicitamente, forneceu-mos após os conseguir na farmácia do Hospital Militar, informou-me da dose e os dias das tomadas das pílulas e que bebesse muito água para não desidratar. As crises continuaram, no entanto, a partir do final do dia de terça-feira, os achaques começaram a abrandar. Mesmo assim continuei acamado até sexta-feira de manhã. Apenas me levantava para me meter debaixo do duche, água fria, bem como para o Joaquim efectuar a mudança dos lençóis. Realmente, quando torcidos largavam uma quantidade enorme de água. Por motivos óbvios faltei ao exame de Geografia, que se tinha realizado na pretérita quarta-feira. Na sexta-feira, embora muito combalido, lá fui outra vez ao Liceu Pêro de Anaia, desta vez para prestar prova na disciplina de Organização Política e Social do Estado. Lá se encontravam os mesmos professores os quais informei do que se havia passado comigo. Efectuei a prova e para que saiba, embora com a nota 10, fiquei aprovado na disciplina. Ao jantar desse dia agradeci todos os cuidados que o 1º Sargento Barreiros teve para comigo. Perguntou-me qual era o meu estatuto social. Na realidade, achei estranha a pergunta, mas, por educação, disse-lhe que era simples, oriundo de uma família, humilde, todavia, séria e trabalhadora. Em virtude de ter ficado intrigado, nesta maré, fui eu, que lhe perguntei a razão dessa inquirição. Disse ele rindo: Por nada, é que você, na terça-feira chegou a ter 41ºC de febre. Até pensei levá-lo para o Hospital. Todavia, no auge do seu delírio você só me pedia para olhar pelos cavalos e para escovar muito bem o cavalo ruço. Ora veja, disse eu ao 1º Barreiros. Pelos menos os meus delírios são em grande. No sábado iniciei o regresso às origens, porém, desta vez não utilizei o comboio até Vila Pery. Na verdade, aproveitei a boleia do meu colega Coutinho que resolveu levar a sua viatura particular para o aquartelamento, era um potente Volvo, em pouco mais de três horas, percorremos os cerca de 400 km que distavam entre a Beira e a capital do Chimoio. Apenas na segunda-feira de tarde é que iniciamos o regresso a Honde. Devidamente enquadrados pelas duas viaturas militares, o Volvo branco conduzido pelo Coutinho, levava-me como passageiro, bem como aos meus camaradas Morgado e Cordeiro que ali se encontravam de fim-de-semana. Como não usávamos a farda, portávamos óculos escuros ray ban e pistola Walter 9 MM, presa no cinturão, à cow boy e viajávamos numa viatura civil potente e de marca, antecedida e precedida de viatura militar, no controlo do Pungué, fomos confundidos com Inspectores da PIDE/DGS. Bati na madeira dizendo, foda-se, longe vá o agoiro.
Ainda no tocante ao paludismo, em finais de 1974, já na Metrópole, cerca de seis meses após o regresso de África, tornei a ter uma crise desta doença. Na altura, tinha como vizinho, uma casa de albergar pessoas da terceira idade, por isso, a mesma tinha frequentes visitas de um médico, face á fragilidade, em termos de saúde, dos utentes daquela casa. Com efeito, pedi á responsável pela casa em referência que quando o médico viesse lá em consulta me dissesse, pois eu estava adoentado. Aliás, como se notava perfeitamente, dado o meu aspecto, pálido e abatido. Simpaticamente assim fez. O clínico auscultou-me e diagnosticou uma virose ou uma gripe muito forte. Porém, transmiti-lhe as minhas suspeitas e ao constatar a presença dos vermelhões na pele e também face aos antecedentes, confirmou as minhas suspeitas. Queria levar-me para o Hospital do Ultramar, acho que era assim que se chamava, era o estabelecimento hospitalar, em Lisboa, na altura eu residia na capital, que tratava as doenças tropicais. Disse-lhe que não valia a pena, pois isso ia dar-me uma canseira dos diabos e o problema podia resolver-se com a Resoquina. Embora contrariado, lá prescreveu duas receitas, uma para a Resoquina a outra para o Propoquin , esta medida que tomou, deveu-se ao facto de não ter a certeza da existência desses medicamentos em Portugal. Caso não existisse qualquer deles que o contactasse, pois arranjar-se-ia outra solução medicinal. Que tivesse cuidado e que se a situação se agravasse lhe telefonasse imediatamente. Agradeci-lhe o facto de me ter atendido, bem como o zelo e o interesse denotados. Pretendi pagar-lhe a consulta, contudo, recusou, dizendo que um ex-combatente, face aos serviços prestados á nação, merecia tratamento médico gratuito. Afinal, ainda havia pessoas que pensavam e tinham consideração por nós.
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