Omar. Férias 2. .
Estávamos em Março de 1973, como sabem, no início deste mês teve lugar aquela famosa operação de minar parte da escarpa do planalto dos macondes, lá para a zona do Congolo. Recordo que a mesma demorou 16 dias, da nossa parte, envolvia três grupos de combate, como no aquartelamento em Omar existiam seis grupos, logo, grupos de três, permaneciam no terreno, revezando-se passados 4 dias. Como é sabido o meu grupo, foi um dos que iniciou a operação. Porém, eu já não fui ao 3º turno, pois no dia 13 desse mês, apanhei a DO, em direcção a Mueda, para dar início ao gozo da licença de férias, referente ao ano de 1973. Passei um dia em Mueda e logo que deixei a pista de aviação, encontrei camaradas que conhecia das colunas. Efectivamente, quando me viram arregalaram os olhos ao mesmo tempo que perguntaram: É pá, não morreste? Pelos vistos não, respondi eu. Foi então que eles me disseram que tinha corrido a “boca” que eu tinha “patinado”. De facto, isso aconteceu porque na altura em que eu participava na missão de minar a fronteira, tinha dado entrada, no Hospital de Mueda, já cadáver, um Furriel Miliciano que no nome também continha o apelido Guimarães e que havia sido atingido a tiro numa emboscada. Alguém juntou as duas situações e daí nasceu o boato. Felizmente para mim, foi mesmo boato.
No dia seguinte, nova aventura aérea, a viagem para Porto Amélia, foi efectuada no Nord Atlas, também conhecido pelo “Noratlas”, “Nora” e pelo “Barriga de Gindungo”. Pelo seu aspecto, era um avião fora do comum, usado em transportes de carga e de passageiros, turbo-hélice, com dois motores, duas portas laterais e uma ao fundo e por não ser pressurizado o barulho dos motores era muito sentido dentro do avião. Transportava a carga no meio do bojo e os bancos para os passageiros eram colocados nas paredes laterais da aeronave. Efectivamente, foi com os ouvidos a zunir violentamente que cheguei a Porto Amélia. Nesse dia nem saí do Aeroporto, passado cerca de duas horas apanhei o Friendship, da Deta, com destino á Beira. Este avião também é turbo-hélice, todavia, muito mais moderno e mais cómodo que o “Nora”. Apenas no dia seguinte é que segui para Lourenço Marques. Na Beira, nessa noite, fiquei na famosa Pensão Alfacinha. Esta Pensão era quase uma extensão da messe de Sargentos da Beira. Mais tarde, após a independência de Moçambique, os donos deste estabelecimento hoteleiro, abriram em Braga o Hotel Carandá e posteriormente o Restaurante Abadia D´Este.
Na capital moçambicana, instalei-me na Pensão Continental, no regime de meia-pensão. Esta pensão situava-se na baixa creio que na Rua Paiva de Andrade. Embora não me fosse exigido, fiz questão de pagar o total da estadia, a fim de não me preocupar mais com essa conta. Efectivamente, esta cidade, nada tinha a ver com as duas cidades que já conhecia, Beira e Porto Amélia. Na verdade, era maior, melhor urbanizada e fundamentalmente, não se vivia um clima belicista. Quase que não se via na rua uma farda das forças armadas. A guerra não era de conversa em lado nenhum. Realmente, os riscos da luta que decorria no norte da província, eram completamente ignorados e, logicamente, incompreendidos. Maldosamente, alguns “coca colas”, assim era chamados os naturais de Lourenço Marques, diziam que a guerra era alimentada e empolada pelos militares portugueses e que se fossem embora tal guerra finalizava e a frelimo extinguia-se por si. Viu-se.
Houve três figuras em Lourenço Marques que marcaram as minhas férias, a saber: O Vítor, meu grande amigo de infância, que também se encontrava em Moçambique em Comissão de Serviço. Porém, como era PM, teve o azar do “caraças” de ser colocado na capital da Província. O José Luís, também meu amigo de infância, ele com família tinham migrado para Moçambique, há cerca de seis anos e onde estabeleceram residência. Finalmente o Sr. Correia, um alentejano de Évora, que conheci na Pensão Continental.
Com o Vítor conheci a famosa Rua Major Araújo, local para onde convergiam todos os militares. Tratava-se da rua onde se encontravam a maioria das “Boites”, onde se podia assistir a vários programas, designadamente, de “streap tease”. Nestas casas, não só trabalhavam as bailarinas, mas também aquelas mulheres a quem se chamavam alternadeiras. A tarefa destas mulheres, como é sabido, é extorquir umas bebidas, normalmente champanhe, que elas a partir de determinada substituíam por ginger ale, a fim de não ficarem embriagadas, a troco de conversa, às vezes, apimentada. Havia também prostituição. Por vezes geravam-se conflitos, na maior parte das vezes quando aparecia a conta, das bebidas, para pagar, ou quando a mulher desaparecia e deixava otário, como quem diz, de calças na mão. Estes conflitos, em muitas ocasiões acabam com cenas de grande pancadaria que só finalizavam com a intervenção conjunta da Polícia Militar e da PSP. Com ele também fui à Casa do Minho, onde ao fim de semana, normalmente, havia festa. Conheci lá pessoal oriundo de Braga, sendo certo que alguns já eu conhecia, designadamente do Bairro da Misericórdia. Lembro-me de ter lá conhecido a cançonetista Alexandra.
Com o José Luís, conheci o lado mais cosmopolita de Lourenço Marques. Num fim-de-semana, fomos a Xai Xai, noutro ou Bilene, lindas praias e boas companhias. Fui à Boite do Hotel Polana. Aliás, foi neste estabelecimento que comi o primeiro menu tipo Mac Donald que, obviamente, me surpreendeu. A meio da noite, depois de alguma dança, o grupo do qual eu fazia parte resolveu ir ao bar do hotel, petiscar qualquer coisa. No que me disse respeito pedi um prego e uma caneca de cerveja. Como estávamos no hotel mais luxuoso de Moçambique, o empregado disse-me que não serviam pregos. Serviam hambúrgueres. Sinceramente, nunca tinha ouvido falar em tal pelo que perguntei ao José Luís o que era aquilo de hambúrguer. Explicou-me o que era, sendo assim, disse ao empregado que queria o tal hambúrguer. Voltou-me a questionar se queria com acompanhamento, presumi que fossem batatas por isso disse que sim. Lá veio o hambúrguer e as batatas. Todavia, a minha surpresa foi como as batatas me foram apresentadas, vejam lá, dentro de um cartucho de papel. Para não passar mais vergonhas perguntei ao Zé como se comiam as batatas se não tinha garfo. Come-as simplesmente usando as mãos, disse ele. Como dizia a minha avozinha, ele há cada uma, as coisas que eu aprendi a comer num hotel cinco estrelas, a comer à mão. Muitas vezes levei nos dedos da minha mãe por comer com as mãos. O Zé também me levou a sua casa para estar com os seus pais, na medida em que eles foram durante alguns anos meus vizinhos e conheciam-me bastante bem. Almocei lá uma vez e foi mesmo uma refeição em família, a D. Conceição ou Sãozinha e o marido, acabaram por me oferecer emprego em Lourenço Marques no caso de eu querer ficar na Província no final da Comissão. Agradeci o convite mas declinei-o. Contudo, eles insistiam e eu para ser politicamente correcto disse que aceitava, com a condição de vir primeiro à Metrópole. Rematou assim a Sãozinha: Se vais á Metrópole, com certeza que não vens. Como é que ela adivinhou?
Finalmente, o Sr. Correia. Este sujeito teria o dobro da minha idade, portanto, cerca de 45 anos. Era também hóspede na Pensão Continental e conheci-o na mesa de refeições do restaurante da aludida pensão. Lembro que o pequeno-almoço e o almoço eram sempre ali efectuados. Passados dois ou três dias de termos travado conhecimento, sobretudo à noite, perguntava-me para onde ia e se me podia acompanhar. Por vezes o Vítor e o Zé Luís, não apareciam pelo que lhe disse que não havia problemas. Íamos jantar ele oferecia-se para pagar a conta. Íamos à Rua Araújo ele pagava a conta, saíamos de lá às vezes acompanhados ele pagava as despesas. Tornou-se pior que uma lapa, não me largava. Inclusivamente quando se mudou para o Hotel Embaixador, que era muito mais caro que a Pensão Continental, convidou-me para ir para lá também. Como é lógico, recusei o convite, até por questões financeiras. Na verdade eu já tinha a pensão paga e o dinheiro escasseava cada vez mais. Ele apercebeu-se dessa situação e ofereceu-se para pagar essa despesa. Cada vez mais eu andava com a pedra no sapato. Ele era meu amigo, mas uma amizade que tinha nascido há quinze dias. Dizia ser contabilista e de momento encontrava-se desempregado. Consequentemente, eu andava desconfiado, no entanto, faltava-me algo objectivo para sustentar essa desconfiança. O Sr. Correia “não pegava de empurrão” disso eu não tinha dúvidas, pois as experiências que tivemos com algumas mulheres da Rua Araújo davam-me algumas certezas sobre a heterossexualidade do homem. Andaria fugido da Polícia, isso também não, dado que, numa determinada altura, na Rua Araújo fomos alvo de uma rusga policial e nada em desabono lhe foi encontrado. Seria somente amizade e consideração que tinha por mim. Sinceramente não sabia o que pensar. No final das férias, para acabar com o “suspense”, questionei-o sobre essa minha desconfiança. Acabou por me dizer que tinha trabalhado na Diamang em Angola, onde era contabilista, que a par do seu trabalho oficial, fazia parte de uma pequena rede de contrabando de diamantes. Parece que as contas dessa rede não estavam correctas, pelo que foi ameaçado de morte pelos restantes componentes da associação criminosa. Aliás, já tinha sido procurado por eles em Évora, perante esta realidade refugiou-se em Moçambique, esperando que a situação esfriasse. Na medida em que reparou que à noite, eu saía sempre armado, pois tinha trazido comigo uma Walter 9 MM, para defesa pessoal. De facto, viu em mim uma espécie de guarda-costas informal. Sem saber tornei-me guarda-costas de um “mafioso”. Na realidade, fiz-lhe ver que não agiu muito bem, na medida em que me expos a um perigo que eu de todo desconhecia. Era mais lógico e mais sensato se me tivesse alertado dessa situação que, eu por certo, não o abandonaria. Apesar de tudo perdoei-lhe pelas horas felizes que me proporcionou.
Foram umas férias em cheio, quando cheguei a Porto Amélia estava completamento “liso”. Até o pecúlio que tinha efectuado para tirar a carta de condução se foi. Senão fosse o facto de ter encontrado nesta cidade o Alferes Martins, da minha Companhia, que tinha vindo levantar o dinheiro para os vencimentos, teria que ferrar o calote na messe de sargentos. Cheguei ao castigo, isto é, a Omar no dia 25 de Abril de 1973. Jamais presumi o que ia suceder daí a um ano.
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