Omar. Férias 1. .
Por muito estranho que pareça vou dedicar dois capítulos às férias. Como é sabido, todo o funcionário público, naquela época, anualmente, tinha direito ao gozo de trinta dias de férias. Os sargentos e oficiais milicianos, embora forçados e com uma espécie de contrato de trabalho a prazo, não só tinham essa faculdade, bem como ao abrigo de um Artigo que agora já não recordo, tinham direito a mais cinco dias. Face ao percentual autorizado, na Companhia apenas podiam dois sargentos gozar férias simultaneamente. Nesta conformidade, no Plano de Féria de 1972, escolhi o período que mediava entre 1 de Dezembro de 72 e 4 de Janeiro de 73, para gozar a minha primeira licença de férias. Escolhi esse período na medida era minha intenção vir à Metrópole gozá-las e aproveitava para passar o Natal em família. Efectivamente, assim foi. No dia 29 de Novembro saí de Omar em direcção a Porto Amélia, num avião Islander, era uma espécie de táxi aéreo que não obstante ser de uma companhia civil, trabalhava para o Exército, no transporte de carga e passageiros, normalmente quem pilotava este avião era o marido da Íris, já falei dela aquando da estadia em Porto Amélia, a tal que foi Miss Portugal 1971. No dia seguinte, apanhei o avião da Deta para a Beira. Só no dia 1 é que parti da Beira para o Porto, com escalas em Luanda e em Lisboa. Cheguei a Lisboa, cerca das 6,00 horas recordo que a temperatura ambiente era de 8º C. Como vinha de África, nessa altura do ano, havia muito calor, presumi que ia regelar quando abandonasse o avião, face á temperatura ambiente muito baixa e também porque não possuía roupa de inverno. Apenas tinha vestido um pólo e uma camisola de malha bastante fina. Mas não, quando saí da aeronave o choque térmico não foi muito grande, efectivamente, estava frio mas aguentava-se muito bem. Aguardei em Lisboa até às 11,00 horas, pois só nessa altura é que tinha avião para o Porto. Antes porém ainda tomei o pequeno-almoço. Efectivamente, foi composto por um prego no prato e uma caneca de cerveja. Mesmo de manhã cedo esta ementa soube-me à melhor iguaria do mundo. As saudades que eu tinha de um bom bife e de umas batatas fritas eram enormes. Para rematar um saboroso café. Lá chegou a hora de embarcar para o Porto, a viagem foi rápida. Ouvi com atenção o Comandante do avião, quando se referiu ao clima que fazia no Porto, designadamente, ao grau de calor. Não chovia e a temperatura era de 11º C. Por conseguinte, não me incomodei muito, se em Lisboa aguentei com facilidade 8º C, no Porto não iria ter problemas, até porque estava mais quente. Engano puro. Logo que pus o pé fora do avião quase que paralisava de frio. Não sei se era da humidade ou de outra coisa qualquer. Apenas sei que era mais difícil suportar 11ºC no Porto que 8º C em Lisboa. Tremia como varas verdes e era difícil articular qualquer palavra. Este estado, quase mórbido, só passou quando entrei na aerogare e abracei a minha família que, ansiosamente, me esperava. Valeu a pena vir a Metrópole nem que fosse somente pelo abraço que recebi da minha saudosa mãe nesse dia.
Mas o que é bom passa depressa as férias voaram. No entanto, deu para conhecer o meu sobrinho Pedro que tinha nascido quatro dias antes de eu embarcar em Fevereiro. Na altura, devido às despedidas, não consegui ir à maternidade, no Porto, onde a minha irmã havia dado à luz a mais um rapagão. Aliás, nesta visita tive necessidade de me deslocar à cidade invicta, pois era naquele burgo que esses meus familiares viviam. Nesta viagem utilizei o comboio, desde Braga até à Estação da CP de Campanhã. Ao entrar na referida estação o comboio foi imobilizado com a explosão de um petardo de sinalização. Nessa altura, o meu coração deu um enorme salto, por pouco, não me deitei no chão do comboio, no entanto, ainda efectuei alguns movimentos para tal. Todavia, consegui parar a tempo, tomando consciência que não me achava em nenhum cenário de guerra. Aquele estouro assustou-me mesmo. O meu acto reflexo foi notado por alguns passageiros, ainda ouvi, entre dentes, uma senhora a dizer: “Coitado, mais um maluquinho da guerra”. Preferi ignorar o comentário, pois compreendi-o e agir como nada tivesse acontecido.
Confesso que nesse período ainda me veio à ideia desertar. Contudo, posso afirmar que não o fiz não por receio da clandestinidade, por gostar ou não gostar da Pátria, isso para mim era treta, não o fiz porque, acreditem ou não, porque considerei que essa atitude era uma enorme traição aos meus camaradas que se encontravam em Omar. Tinha a plena consciência dos perigos que corria e iria correr se voltasse à África, mas amizade e camaradagem falou muito mais alto. A meu ver, a amizade que se forma em climas sociais muito duros e difíceis, tal qual aquela que existia na guerra. Aquela que foi moldada pelo ardor do calor africano, pelo pó pegajoso das picadas, pelo troar das morteiradas, pelo ribombar das minas, pelo sibilar angustiante das balas nas emboscadas, pelo sangue derramado pelos nossos feridos e pelos nossos mortos, pelas nossas lágrimas que se diluíram, muitas vezes, em choros e preces silenciosas, na realidade, é grande e indestrutível. Enfim, a pureza, a enormidade e a familiaridade desse tipo de amizade que não precisa de alimento é, verdadeiramente, perene e dura como o aço. Foi em nome dela que voltei. A viagem de regresso iniciou-se a 4 de Janeiro de 73, Porto - Beira, desta vez com escalas em Lisboa e Harare (na altura Rodésia). Beira – Porto Amélia, com escala em Nampula e Porto Amélia – Omar, com escala em Mueda. Na escala de Harare, deparou-se outra situação da natureza que até a esse momento ainda não tinha presenciado. Efectivamente, a quantidade de borboletas noctívagas era tão grande que quase não se podia transitar, mesmo em salas interiores do Aeroporto. Não obstante ser de noite, tive que colocar os óculos de sol para proteger os olhos dos embates cegos desses insectos, batiam em todo o lado, só visto. Já na escala em Nampula ainda me dirigi ao Hospital Militar daquela cidade, para visitar o camarada Figueira, aquele que se encontrava colocado no Sagal, pois, entretanto, tive o infeliz conhecimento que ele fora vítima da explosão de uma mina anti-pessoal, pelo que lhe tinham amputado parte de uma perna. Porém, tal não foi possível, na medida em que já havia sido transferido para o Hospital Militar de Lourenço Marques, onde se encontrava em trânsito para a Metrópole. Também em Nampula, procurei o Carlos Gomes, meu camarada e ex-colega de Liceu e das camadas jovens do SC Braga, colocado no Quartel-General, também instalado naquela cidade. Constatei que nessa altura não se encontrava em serviço, informaram-me que estaria a treinar, pois ele jogava ou no Sporting ou no Benfica de Nampula. No entanto, o tempo era escasso e não tive tempo para ir ao campo de futebol, com o intuito de lhe dar um abraço. Ainda estive um dia ou dois em Mueda, pelo que a chegada a Omar deu-se a 15 de Janeiro de 1973. Desta vez viajei na DO (Dornier) da Força Aérea.
Quando me apresentei constatei que o plano de férias para esse ano já se encontrava elaborado e aprovado, para espanto meu colocaram-me no último período autorizado, isto é, entre 18 de Outubro e 23 Novembro de 73. Efectivamente, a data limite para o gozo de férias era 23 de Novembro, pois a Comissão terminava, oficialmente, a 23 de Fevereiro de 74 e nos últimos 90 dias não era permitido o gozo de qualquer tipo de licença. Como não estava presente aquando da elaboração do referido plano, presumiram que eu quereria gozar licença nessa altura, a fim de estabelecer um lapso de tempo entre este período e o anterior. Presumiram assim e presumiram mal. Na verdade, eu queria gozar as férias desse ano na Província. Sendo certo que o melhor período, para mim, era gozar este período seis ou sete mês depois deste, para mear com o fim da Comissão que se situava em Fevereiro. Consequentemente, optaria, se pudesse, por um período situado em Julho ou Agosto, em virtude de Outubro e Novembro serem já na parte final da Comissão. Nenhum dos camaradas com férias marcadas para essa altura quis alterar e como qualquer deles, em termos de antiguidade, eram mais velhos, tive que me sujeitar. Perante estes factos consumados, indaguei junto do 1º Sargento Figueiredo que era o responsável administrativo da Companhia, se podia antecipar as férias, para outra data livre, sendo certo que essa data apenas se podia situar em Março/Abril. Respondeu-me afirmativamente, pelo que, desta vez fui eu e ninguém por mim marquei as férias para o período situado entre 15 de Março e 20 de Abril de 1973. Por consequência, daí a dois meses estaria de novo livre de Omar.
As minhas homenagens a todos deficientes das Forças Armadas e em especial ao meu querido amigo e ex-camarada João Figueiredo.
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