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Na Beira de passagem para M´Panze


Na Beira de passagem para M´Panze

                                                          
Após uma breve pausa em Porto Amélia, a viagem para a Beira foi efectuada por via aérea. Já não encontrei os meus amigos José Fernando e Francisco Mário, na medida em que já tinham regressado á Metrópole, dado que tinham terminado a Comissão de Serviço. Contudo, no Café Scala, encontrei o Xavier, encontrava-se de férias, pois estava colocado numa Companhia, onde era Escriturário, em Tete. Encontrei também o Edgar, este era Marinheiro e encontrava-se ao serviço no navio de transportes da Marinha Portuguesa, o São Brás, fundeado, nessa altura no Porto da Beira, eram ambos ex-colegas de escola e vizinhos. Obviamente que era sempre com enorme prazer e satisfação quando se encontrava pessoal amigo, dava para recordar alguma de coisa de bom. Nesta cidade, a Companhia ainda permaneceu alguns dias. Preteri as instalações militares, consequentemente, instalei-me, de novo, na Pensão Alfacinha. Na Manutenção Militar desta cidade recebemos todo o material que iríamos levar para M´Panze. Efectivamente, exceptuando o armamento individual, foi necessário o material que era fundamental para viver. Com efeito, desde os apetrechos de cozinha até às tendas de lona, passando por viaturas, era tudo preciso, na medida em que no local onde nos íamos instalar não havia, absolutamente, nada. Recebemos sete viaturas, duas Berliets, duas Bedford, dois Unimog Mercedes 404 (a gasolina), um Unimog Mercedes (a gasóleo), o chamado “burro do mato” e um Jeep (a gasolina). Realmente, carregados de material, lá deixamos a Beira com rumo ao nosso novo destino. Antes, porém, fizemos escala em Vila Pery. A viagem durou cerca de 4 horas não obstante a via ser larga e o asfalto ser bastante bom, foram 200 km percorridos calmamente. Nesta cidade, onde estivemos dois dias, foi efectuado o abastecimento de géneros. Seguimos viagem para Vila Gouveia, esta localidade distava de Vila Pery cerca de 150 km, a estrada era a mesma que vinha da Beira, por conseguinte, com bom piso e larga. Todavia, depois de termos percorrido metade do percurso, encontramos a Ponte do Pungué, onde se situava uma barreira militar, isto queria dizer que dali em diante nenhum civil podia viajar só, as deslocações somente eram permitidas em coluna, com escolta militar. Esta situação derivava da acção da frelimo naquele sector, efectivamente, já se fazia sentir. Vimos resquícios dessa acção, nomeadamente, viaturas de carga civis, completamente, calcinadas pelo fogo. Na localidade, de Vila Gouveia, foram realizados os últimos trâmites em termos administrativos e logísticos e após um dia da chegada, lá marchamos para o objectivo, conjuntamente, com uma Companhia de Engenharia. Entre Vila Gouveia e M´Panze, distavam cerca 60 km, contudo, 35 deles, tinham que ser efectuados em direcção a Vila Pery, portanto, voltando para trás, na mesma estrada. Nesse ponto virava-se á esquerda e teríamos que percorrer, em picada, mais 25 km, para chegar ao destino. No entanto, mais ou menos ao meio deste trajecto, passava um pequeno rio com dois ou três metros de largura, talvez afluente do Pungué, que tinha uma ponte em madeira apenas para passagem pedonal. Logo aí entrou em cena a Engenharia. Com efeito, destruiu essa passagem construindo outra que aguentasse o trânsito de viaturas pesadas. Essa obra consistiu numa ponte muito simples, com cerca de 4 metros de largura. Realmente, foram colocadas no leito do riacho aduelas com cerca de dois metros de diâmetro. Sendo seguras por cascalho e cimento prensados. Dava vazão com facilidade ao caudal de água que por ali passava e aguentou perfeitamente o peso das viaturas mais pesadas e carregadas. No destino, afinal, constatamos a existência de duas construções em bom estado de conservação, uma pequena casa, com duas divisões, seria uma antiga cantina e uma escola, esta ainda por acabar. A sala de aulas era ampla, tinha uma entrada e cinco aberturas que seriam janelas, mas que ainda não tinham sido colocadas. Numa das pontas do edifício existia a casa que, em princípio, seria para o professor, apenas tinha dois compartimentos. Obviamente que essas construções foram aproveitadas. Assim, na cantina ficaram instalados o 1º e o 2º Sargentos, bem como a Secretaria e o Posto Rádio. Na escola, na suposta casa do professor, ficaram instalados os Oficiais. Na sala de aulas, depois de tapadas as aberturas das janelas com cobertores instalaram-se os Furriéis. Após a limpeza do terreno pela Engenharia foram montadas grandes tendas de lona, onde foi alojado o restante pessoal. Dada a inexistência de camas todos dormíamos no chão, sobre os colchões de ar. Também foram construídas as outras estruturas, tais como a cozinha, as casas de banho e as latrinas.
Cercou-se o aquartelamento com arame farpado e construíram-se seis pontos de vigilância, com vista a proteger o referido campo militar, contudo, estes postos foram colocados ao nível do solo. Construi-se um campo de futebol, mas fora do perímetro militar. Junto a um riacho, a sul das nossas instalações, a Engenharia procedeu ao desmatamento e ao arranjo do solo, a fim de que a população que ali, em princípio, iríamos reunir, pudesse construir as suas habitações, bem como tivesse terreno fértil com o intuito de ali construir as suas “machambas” (terrenos agrícolas). Rapidamente, o Morgado, o Donato e eu próprio, nos armamos em engenheiros e iniciamos a construção das nossas instalações, recebemos a ajuda de alguns soldados. Na realidade, o material utilizado para construir a estrutura, foram canas e lianas, as paredes foram revestidas a “matope”, que era uma mistura de água, barro e palha. No telhado foram utilizadas folhas de zinco onduladas, já usadas que encontramos em várias construções abandonadas. Quando finalizamos esta construção depressa deixamos a sala de aulas e nos instalamos, com mais comodidade e mais privacidade, na nova “moradia”. Este facto, também originou que fosse também construída a nossa messe, foram utilizados os mesmíssimos materiais. Nesta conformidade, a sala de aulas deixou de ser zona mista, isto é, passou a ser unicamente dormitório e não acumulava com a sala de refeições.
Quando se pensou que tudo estava feito, deu-se por falta do forno para cozer o pão. Havia na Companhia um soldado que era mestre na construção desse tipo de edificações. Porém, faltava o mais importante, tijolo. Foram efectuadas várias tentativas para o arranjar sendo todas elas infrutíferas. Na realidade, em Vila Gouveia e em Vila Pery não foi encontrado esse tipo de material. Contudo, nos arredores de Vila Gouveia, existia um parque com uma piscina natural, onde existiam uns passeios feitos com tijolo de argila completamente maciço. Aliás, esse parque embora aprazível e frondoso, já não era frequentado pela população civil europeia, por receio a qualquer acto belicoso da frelimo ou até, da acção de um simples malfeitor. O Soldado Manuel Barros Reis, o tal técnico, disse que aquele tipo de tijolo, embora não fosse óptimo, coadunava-se mais menos bem para o fim em vista. Por consequência, num fim de dia lá fomos ao tal parque, comprar sem falar com o dono, o tal tijolo. Arrancada de uma ponta, apenas foi retirada a quantidade necessária e transportada, sorrateiramente, para M´Panze, pelo que o Manel, também conhecido pelo “Ponte de Lima”, pelo facto de ser natural e residente na freguesia de Cabaços, concelho de Ponte de Lima, deu início á obra de arte. Para unir os tijolos foi utilizado barro amolecido em água. Um dia para construir outro para cozer, pelo que, ao terceiro dia já estava a ser utilizado pelos padeiros. Este pão não tinha condimentos de origem animal, bichinhos como em Omar.
No tocante à água para consumo, cozinhar e higiene era retirada do riacho que passava ao lado do aquartelamento. Foi instalada lá uma moto-bomba, portanto, era muito fácil obtê-la. Contudo, havia sempre uma equipa escalada para esse efeito e, posteriormente, teria que a distribuir. Também existiu a tentativa de constituir uma equipa de caça. Aliás fui eu o encarregado de a formar. No entanto, por várias razões que agora não importa adiantar, a constituição dessa equipa gorou-se.
Estávamos com dezoito meses de Comissão, faltavam ainda seis, cada dia que avançava era mais um risco no calendário, íamos vivendo, ou melhor sobrevivendo.

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