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M´Panze. Contactos com o IN.


M´Panze. Confrontos com o IN.

                                                          
Nesta zona, embora existissem bastantes indícios da acção bélica da frelimo, em nada se comparava com a situação vivida em Cabo Delgado. Ainda não tinha sido constatada a existiam de minas anti-carro, nem, tão pouco, anti-pessoais. Todavia, isso não obstou que houvesse contacto com IN e com resultados bastante negativos, em termo humanos, para a nossa Companhia. Sofremos duas emboscadas na picada, uma em Outubro e outra em Novembro. O aquartelamento, numa noite de Novembro foi molestado com uns tiros, uma espécie de ataque. Finalmente, já em Fevereiro, também durante a noite tivemos um reencontro em pleno mato.
A primeira emboscada foi efectuada quando o meu Grupo e o 4º, regressavam a M´Panze vindos de Vila Gouveia, mais ou menos a meio do percurso, entre o rio e o aquartelamento, a frelimo abriu a emboscada á viatura da frente, com um disparo de rocket que não acertou na primeira viatura. Porém, acertou nas cabeças do Soldado Condutor Vítor Manuel Nunes e do Soldado Manuel Brito Gaspar, tendo ambos morte imediata. Para agravar a situação, numas árvores que circundavam a picada existia uma colmeia de abelhas africanas, que com o estrondo dos disparos se enfureceram atacando o pessoal. O caos e a confusão foram intensos, contudo, ainda deu para reagir com firmeza á agressão, não obstante o ataque das abelhas ter atrapalhado muitíssimo. Mas apesar do empenho colocado no contra ataque não se conseguiu provocar nenhuma baixa ou deter algum elemento da força atacante. É evidente que este trágico acontecimento provocou em todo o pessoal um enorme abalo psicológico. Apenas a quatro meses do fim da comissão sofrer as primeiras baixas em combate e numa zona, supostamente mais calma que o inferno de Cabo Delgado foi, na verdade duro, frustrante até revoltante. Além do mais o Gaspar era dos poucos elementos da Companhia já casado e com uma filha que, obviamente, nunca conheceu o progenitor.
Infelizmente esta situação voltou a ter repetição no mês seguinte. Efectivamente, noutro regresso a M`panze vindos de Vila Pery, o 3º e 4º Grupos, novamente entre o rio e o aquartelamento, mas noutro local, voltaram a ser emboscados. Desta vez a abertura da acção da guerrilha foi efectuada lateralmente, com tiros de espingarda e metralhadora ligeira, tendo sido atingido na cabeça pelo que teve morte imediata o Soldado Manuel Barros Reis, o “engenheiro” do forno. O Soldado Manuel Martins, também foi atingido nos membros inferiores e na região da anca, ferido gravemente foi evacuado para o Hospital da Beira e posteriormente para a Metrópole. Sobreviveu, todavia, ficou fortemente incapacitado na locomoção, sendo um dos inúmeros deficientes das forças armadas. Se o pessoal em termos psicológicos já andava em baixo, logicamente, com este fatal evento ainda agravou mais a situação. Face ao traçado das picadas, para o inimigo era muito mais fácil provocar-nos danos, isto em termos de emboscadas, em M´Panze que em Omar. No sul, a vegetação - árvores, capim e arbustos quase que ladeavam a picada, já no norte, aquando da abertura da picada houve o cuidado de desmatar para aí uns 40 metros para cada margem da mesma, consequentemente, nesta zona apenas existia capim que era queimado no tempo das secas. Por outro lado em M´Panze existiam várias elevações de terreno, já em Omar, embora em altitude, era uma planície. Sendo certo e sabido que para armar este tipo de acção, apenas é preciso um homem.
Ainda no decorrer desse mês, numa noite, cerca das 21,00 horas o aquartelamento foi assolado com uns tiros de armas ligeiras. Nessa altura apenas lá se encontrava o 1º Grupo de Combate, pelo que havia muita pouca gente no perímetro militar. Realmente, o meu grupo encontrava-se nos postos de vigia, logo no interior só se encontrava pessoal de apoio. Respondeu-se com o mesmo tipo de fogo. Todavia, para uma resposta mais longínqua nem sequer possuíamos morteiros 90 e 60 mm ou morteirete porque os que existiam estavam com os grupos que se encontravam em serviço no exterior. Nesta conformidade, fomos desencantar um LGF (Lança Granadas Foguete) que era uma arma que jamais tínhamos utilizado por ser ineficaz no tipo de guerra que enfrentávamos, recordo que se trata de uma arma anti-carro, de efeito dirigido, porém, como arremessava uma granada á distância e provocava uma enorme explosão, foi utilizada. Na realidade, foram enviadas quatro granadas para os locais por onde eventualmente o IN realizaria a retirada. Nestes termos, pelo menos fabricava-se e aplicava-se o efeito psicológico sobre o atacante.
Finalmente, o último contacto aconteceu em Fevereiro a poucos dias de se completar os dois anos de Comissão. Na realidade, o meu Grupo, tinha saído em missão de patrulhamento, tínhamos o alvo a cerca de 40 km de distância, por conseguinte teríamos uma longa extensão a percorrer, ida e volta, que rondaria os 80 km. Quando já estávamos de regresso ao aquartelamento, durante a última noite, estaríamos entre 15 a 20 km de distância de M´Panze. Pernoitamos num lugar que considerei cem por cento seguro. A operação estava a ser desenvolvida numa enorme planície e o lugar escolhido para ficar era uma pequena elevação de terreno, protegida com a sombra de algumas árvores. No firmamento brilhava a lua cheia, na realidade, até parecia dia. Esta situação proporcionava-nos um local com uma visão privilegiada sobre o terreno e quem estivesse no terreno não nos podia enxergar. Até aí, tudo tinha sido calmo embora cansativo face ao calor e á distância já percorrida. Na realidade, nada previa o que estava prestes a acontecer. Seriam cerca das 3,00 horas quando fui acordado por uma das sentinelas, alertando-me que se estava a aproximar do local uma grande e extensa coluna de pessoas. Como é lógico de imediato vim observar o que se estava a passar, qual foi o meu espanto quando deparei que a cerca de 500 metros do nosso bivaque, se encontrava em movimento, precisamente na nossa direcção, a tal coluna com um grande número de pessoas, que era impossível contar naquelas circunstâncias, mas que seriam centenas. Imediatamente ordenei que se fizesse silêncio, colocando em linha todo o pessoal, disse ainda que se a coluna passa-se sem se aperceber da nossa presença nós não reagiríamos. Na medida em que éramos poucos, não chegávamos a vinte, razão pela qual teríamos enorme dificuldade em controlar aquela multidão mesmo que fossem “machambeiros”. Com efeito, era minha intenção persegui-los quando raiasse o sol, pois com claridade diurna seria muito mais fácil e menos perigoso gerir a situação. Entretanto, a tal coluna a cerca de 50 do morro parou. Dela saíram dois indivíduos armados que disfarçando a silhueta avançaram na nossa direcção. Esta atitude era aviso que aqueles homens possuíam conhecimentos de técnicas militares, pelo que esperei e quando verifiquei que já se preparavam para subir a pequena elevação e que o confronto seria inevitável dei ordem de fogo, foram abatidos na hora. Esta meia dúzia de tiros deu azo a que o restante pessoal fosse disperso e em debandada geral recuaram até fugirem de vista. Ainda ordenei que fossem arremessadas umas granadas de morteiro 60 mm e uns dilagramas. Retiramos do local mas sem o perder de vista. Logo ao amanhecer fomos vistoriar o sítio e deparamos com duas vítimas, bem como uma enorme quantidade de milho, roupa, designadamente farda americana e dois canhangulos que, em princípio eram empunhados pelas duas vítimas. Ordenei a junção dos cadáveres, por cima dos mesmos foi colocada toda a carga abandonada no local, bem como capim seco, após foi ateado fogo a todo o conteúdo. Foi dado conhecimento superior do acontecido. Na medida em que os rastos, alguns ensanguentados, deixados no terreno eram imensos e em várias direcções desistimos de efectuar a perseguição ao grupo em fuga. Regressamos na hora prevista a M´Panze.
 Canhangulos, eram armas utilizadas pelos “machambeiros” estes eram membros da frelimo, mas sem preparação militar. Efectivamente, são armas de fabrico artesanal, antigas e de carregar pela “boca”, isto è, tanto a carga explosiva primeiro como os projecteis depois são introduzidos no cano da arma, pela abertura do cano e prensados com uma vareta, são separados por uma bucha, normalmente, era utilizado um pedaço de papel. Para expelir o projéctil colocava-se sob o cão da arma um fulminante que era batido quando se premia o gatilho que o fazia explodir e incendiar a carga que por sua vez disparava, com força, o projéctil. Sem surpresa, quando no aquartelamento efectuei a operação de tornar inertes as armas em referência, constatei que os projécteis eram constituídos por pedacinhos de metal, vidro e sal grosso. Tal facto sucedia para que a ferida, eventualmente, provocada por aquela mistura fosse muito mais difícil de sarar ou cicatrizar, daí a existência do vidro e do sal.
Que porca de vida quando já se sonhava com o regresso, parte da letra de uma canção do Zeca Afonso, infelizmente tornou-se realidade “ O soldadinho já volta do outro lado do mar/Numa caixa de pinho…”

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