Omar. Passatempos
O leitor já se apercebeu que a vida em Omar era muito dura, a dureza dessa vida tinha várias origens, começando obviamente pelas agruras do litígio. Não digo que em termos de alimentação havia escassez, realmente não havia. Todavia, a pouca qualidade dos alimentos, bem como a sua repetição geravam um sentimento geral de grande insatisfação. O isolamento também era um vector muito importante, gerava por vezes conflitos que em situações normais pareceriam mesquinhos. Na realidade, a maioria do pessoal esteve dezoito meses desterrado naquele ermo, as únicas mulheres que viam era a esposa do Jarina, bem como alguma enfermeira pára-quedista, aquando da realização de alguma evacuação efectuada desde o aquartelamento. Nessa altura, os voluntários para a segurança á pista, como se dizia na gíria, eram “mato”, apenas para as ver, nem que elas fossem mais feias do que uma bota da tropa. Existia aquele sentimento tipicamente português, a saudade. Saudades da terra, da família, dos amigos, em fim de tudo. Quando na rádio se ouvia um rancho folclórico ou um fado sentimental, eu que nunca gostei daquele tipo de música, entrava em êxtase, o tom da música e o teor de algumas letras, embora simples, transportavam o nosso pensamento para o nosso querido rincão. Apesar desta situação, existia muito tempo livre, contudo, poucas formas de o passar. A saber:
Música. Realmente os nossos aposentos, bem como a messe e o abrigo dos Furriéis Mecânico e Enfermeiro, mais pareciam um Café Concerto. Efectivamente, o rádio estava sempre ligado. Recordo que em onda média, apenas se sintonizava, em português, o Rádio Clube de Moçambique e a Emissora Oficial de Angola. Com efeito, em onda curta, também se conseguia estabelecer sintonia com a Emissora Nacional. Porém, era só de noite e com bastantes interferências. Eram imperdíveis os relatos dos jogos de futebol, referentes ao Campeonato Nacional da 1ª Divisão, eram transmitidos pela rádio angolana já referida, em conexão com a Emissora Nacional. Existiam também os leitores de cassetes, lembro-me do enorme sucesso com as cassetes gravadas que levei depois das férias de 73, dos Beatles, da banda californiana Creedence Cleawter Revival e uma de música soul, onde predominava Otis Reding. Em boa verdade, face ao êxito foram efectuadas, algumas, cópias das mesmas. Finalmente, havia os serões musicais no abrigo. Efectivamente, cantávamos canções do reportório do “Cancioneiro do Niassa”, músicas do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Sérgio Godinho e outros, sempre acompanhados pela viola do Soares.
Correio. Era uma forma de matar as saudades e o tempo. De facto era uma grande frustração, quando nas duas distribuições semanais de correspondência, não se recebia qualquer carta ou encomenda (quando se lerpava). Líamos e relíamos as cartas e os famosos aerogramas. Os nossos correspondentes, de uma maneira geral, eram a família, amigos e as famosas madrinhas de guerra. Obviamente que para cada sector havia um determinado tipo de escrita. Por mim, para a família falava em generalidades, não se adoçava muito o rebuçado, porque senão, também pensariam que estávamos no paraíso e não guerra. Fiz uma excepção para com a minha irmã mais velha, a ela contei-lhe verdadeiramente o inferno em que estava a viver, para assim tirar alguma surpresa se algo de fatal me pudesse acontecer. Com os amigos falava da realidade e de alguma coisa que aconteceu ou podia acontecer. No entanto, não entrava em muitos pormenores. Aliás, alguns desses amigos também estavam na guerra ultramarina e até noutras províncias. Finalmente, com as madrinhas de guerra, falava-se de tudo e mais alguma coisa, confabulava-se bastante, chegando, por vezes, ao exagero. Em algumas alturas, mandavam-nos alguns presentes, na maior partes das vezes livros e revistas, que, na verdade, nos eram bastante úteis, também trocávamos algumas fotos. Recebia, mensalmente, o pequeno jornal da paróquia de São Vicente, que me era remetido pelo Abade de então, o Padre Jorge. Em cada jornal escrevia uma mensagem particular no interior do mesmo. Que eu jamais deixava sem resposta, agradecendo sempre. Ficava em dia sobre o quotidiano e o movimento da paróquia, principalmente, nos nascimentos, óbitos, casamentos e baptizados.
Leitura. Pelos menos para mim era uma forma, muito comum e agradável, que utilizava para preencher os tempos de ócio. Lia as revistas que as madrinhas de guerra me enviavam. Para que saiba tinha duas, uma lisboeta, a Diana e uma francesa de Brest, norte de França, a Nicole. Lia os jornais que nos chegavam lá, tal como “ A Bola”, o meu irmão Carlos, semana e religiosamente mandava-me o número que era publicado á Segunda-Feira, na medida em que era este que trazia as crónicas dos jogos de futebol de Domingo. O meu camarada Leites e o Condutor Nunes, também recebiam este jornal e, por vezes, fazíamos troca de publicações. Recordo-me que o meu irmão me mandou uma edição da revista “Flama”, onde constava uma crónica escrita e fotografada da morte inesperada, em pleno Estádio das Antas, em dia de jogo com o Vitória de Setúbal, do futebolista Pavão do FC Porto. Recordo-me também dos jornais que o meu camarada Morgado recebia, o Notícias da Amadora e o Comércio do Funchal (jornal cor de rosa, literalmente), eram jornais nitidamente de esquerda, mas que em Omar podiam ser lidos com toda liberdade. Também li uma séria de livros, dos quais recordo, Papillon, de Henri Charrière; Cento e um Tiros de Canhão, de Henri Troya; Os Camaradas, de Hans Helmut Kirst; os Pecados de Philip Fleming, de Irving Wallace; A Guerra em Moçambique, de Nuno Rocha e quase todos os livros da famosa edição dos “Livros RTP”, chegaram a Omar na quadra natalícia e remetidos pelo Movimento Nacional Feminino. Ainda conservo alguns.
Jogos. Neste particular havia os jogos de azar, sobretudo cartas e dados. Qualquer deles era jogado e para ter sal, a dinheiro. Fundamentalmente, jogava-se lerpa, montinho, sete e meio, carapô, rami, sueca, copas e king. Efectivamente, em qualquer deles eu safava-me muito bem, já contava com a receita que provinha dos mesmos. Recordo que por um lapso qualquer o pessoal da Companhia esteve cerca de dois ou três meses (iniciais) sem receber o pré. Consequentemente, jogávamos e o pagamento final era efectuado com vales a descontar na cantina. Num dia, algum ressabiado perdedor lembrou-se que o dinheiro ganho num dia tinha que ser gasto nesse dia. Tal facto motivou a que eu comprasse tabaco, na altura era fumador, juntei tanto maço que tive de me dirigir ao depósito de armas para arranjar dois cunhetes de munições (caixas em madeira que continham munições), que encheram por completo. Jogava-se também com bastante assiduidade ao poker de dados, igualmente a dinheiro, também me safava bem.
Neste capítulo, também cabe o futebol. Disputavam-se partidas renhidas e com muito entusiasmo. Normalmente, formavam-se equipas por sectores ou grupos. Isto é, formava-se equipa por grupo de combate, por especialidade, por patentes, por consequência, eu quando participava nestes equipas ou jogava pelo 2º grupo ou pela equipa oficiais/sargentos. Todavia, na maior parte das vezes jogava quem aparecia no campo, dividiam-se em dois grupos e toca a jogar. No entanto, em algumas, poucas, ocasiões formavam-se as equipas por raças, africanos versus europeus. Este de tipo de equipas eram desaconselhadas, dado que após algumas quezílias que se formam, normalmente, num jogo de futebol, nunca se transformaram mas podiam transformar-se num problema rácico com resultados tremendamente negativos. Era, de todo em todo, necessário preservar um bom ambiente entre todo o pessoal. Não existiam árbitros, todavia, um dos jogos foi interrompido pela famosa morteirada.
Beber: Por estranho que possa parecer, coloco neste item o beber. Beber era como o futebol total, pois era um “desporto” que se disputava por si, mas também acompanhando os outros. Quando se lia, ouvia música, nos serões ou jogava cartas, sempre á mão estava uma lata de cerveja, as famosas Laurentina ou a 2M (Mac Mahon), ou, numa segunda hipótese um copo de uísque. No fim de um jogo de futebol ou no termo de um festival de ratos, para descontrair e refrescar lá vinha a latinha ou o copo. Também se bebia vinho, no entanto, não era com a frequência das bebidas que já citei. Como já disse anteriormente em todas as refeições era servido vinho maduro tinto (vinho a granel). Para mim era de fraca qualidade, porém, quando se misturava com cerveja, com Coca-Cola ou com Seven Up, bebia-se com facilidade e prazeirosamente. Neste tipo de bebidas e no uísque, na maior parte das vezes, faltava o gelo. É certo que a energia fornecida pelo gerador apenas era utilizada na iluminação. Também é verdade que, em tempos de crise de combustível e de material, por volta das 21,00 horas desligava-se a iluminação interna. Nesta conformidade, os frigoríficos eram movidos a petróleo. Perante a sua antiguidade e à sua debilidade, na maior parte das vezes encontravam-se avariados, por isso o gelo escasseava. Não tínhamos grande dificuldade em adquirir uísque, na Companhia. Os sargentos tinham direito á compra mensal de uma garrafa de uísque novo, de uísque velho (12 anos) às vezes, tive direito a uma ou duas, já do antigo (18 anos ou mais), a nenhuma. Contudo o Sbell, era á balda, recordo que este uísque era, no mínimo, engarrafado em Angola. Aliás a sua sigla, identificava-o perfeitamente Sociedade de Bebidas Espirituosas do Lobito, Ldª. Mas nós também possuíamos uma interpretação para esta sigla: Se Bebes Este Liquido Lixas-te. Os preços variavam entre os 40$00 do Sbell e os 120$00 do antigo. Ainda trouxe para a Metrópole algumas garrafas, designadamente do Sbell.
Ratos. Por mais espantoso que possa parecer este animalzinho nojento e asqueroso, foi uma das formas bastantes vulgares para passar o tempo. Desde a matança que foi efectuada nos nossos aposentos e messe a que já anteriormente aludi, até
às famosas corridas efectuadas no campo de futebol, foi todo um tempo engendrado á volta dos ditos animais. Para a matança, apenas foi preciso escavar com sachola e picareta, colocar a descoberto os ninhos e vai bordoada para cima deles. Para as famosas corridas era necessário capturar os bichos vivos e conserva-los. Nesta conformidade foi preciso construir ratoeiras que não os matassem e construir também gaiolas para servirem de celas para os arrecadar até ao dia “D”. Assim, as ratoeiras eram caixas, manufacturadas em madeira e encimadas com rede, possuíam uma alavanca, na parte que se encontrava no interior da caixa colocava-se o isco, já a outra extremidade segurava uma porta, tipo guilhotina, que caia e fechava a caixa, quando era desequilibrada por algo que tocasse no isco. As corridas eram normais, estabelecia-se, no campo de futebol um percurso com início e meta. Largavam-se os ratos e lá estava a corrida. Contudo, o dono do “atleta” apenas o podia dirigir e jamais empurrar, existiam fiscais de pista para que tudo corresse dentro da legalidade. Quando o regulamento não era cumprido havia desclassificações, como dizia o 1º Sargento isto não era o da Joana. Chegou a haver medalhas para o vencedor. Havia outro tipo de corrida, mas muito sádica e dolorosa para os bichos. Porque possa ferir susceptibilidades, apenas refiro que havia isqueiro e gasolina. Vencia o que aguentasse mais tempo, no entanto para mim nunca houve vencedor…
às famosas corridas efectuadas no campo de futebol, foi todo um tempo engendrado á volta dos ditos animais. Para a matança, apenas foi preciso escavar com sachola e picareta, colocar a descoberto os ninhos e vai bordoada para cima deles. Para as famosas corridas era necessário capturar os bichos vivos e conserva-los. Nesta conformidade foi preciso construir ratoeiras que não os matassem e construir também gaiolas para servirem de celas para os arrecadar até ao dia “D”. Assim, as ratoeiras eram caixas, manufacturadas em madeira e encimadas com rede, possuíam uma alavanca, na parte que se encontrava no interior da caixa colocava-se o isco, já a outra extremidade segurava uma porta, tipo guilhotina, que caia e fechava a caixa, quando era desequilibrada por algo que tocasse no isco. As corridas eram normais, estabelecia-se, no campo de futebol um percurso com início e meta. Largavam-se os ratos e lá estava a corrida. Contudo, o dono do “atleta” apenas o podia dirigir e jamais empurrar, existiam fiscais de pista para que tudo corresse dentro da legalidade. Quando o regulamento não era cumprido havia desclassificações, como dizia o 1º Sargento isto não era o da Joana. Chegou a haver medalhas para o vencedor. Havia outro tipo de corrida, mas muito sádica e dolorosa para os bichos. Porque possa ferir susceptibilidades, apenas refiro que havia isqueiro e gasolina. Vencia o que aguentasse mais tempo, no entanto para mim nunca houve vencedor…
Neste capítulo quero deixar a minha sincera homenagem às mães e as mulheres dos combatentes. Efectivamente, foram elas as maiores vítimas, de forma indirecta, dos resultados nefastos da guerra do ultramar.
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