Honde. Quotidiano.
Sem qualquer tipo de embargo esta localidade, analisando por vários prismas, designadamente pela localização, pela zona de guerra, pelas estruturas, bem como pela população, foi a melhor onde estivemos instalados. Em termos de trânsito, agora só circulávamos em estradas de alcatrão. A água era da bica, mas dentro do aquartelamento e de boa qualidade. A maior parte do pessoal vivia em casas, embora de fabrico artesanal, eram boas e cómodas. Não há dúvida nenhuma que a qualidade de vida aumentou substancialmente. No aspecto militar a vida em nada mudou, os patrulhamentos e vigilância continuaram, as colunas também. Aliás, nesse aspecto a coisa até me pareceu que ia começar mal. Face ao que já referi no capítulo antecedente, face às circunstâncias em que se deu a transferência de M´Panze para o Honde, o meu Grupo foi o primeiro a chegar a esta localidade. Apenas no dia seguinte é que começou a chegar o restante pessoal. Acontece que por volta das 16,00 horas do primeiro dia, logo quando me encontrava só com o meu Pelotão, arribaram ao Honde duas viaturas militares, uma viatura ligeira Mercedes e um Unimog Mercedes 404, com uma escolta, do ligeiro saíram quatro oficiais, um Brigadeiro, nunca tinha visto nenhum em África, um Coronel e dois Capitães. Perguntaram pelo militar mais graduado ali presente. Compareci perante o grupo, depois de cumpridas as praxes militares, o Brigadeiro perguntou-me qual era o meu posto. Recordo que no mato nenhum militar usava divisas. Disse-lhe que era Furriel Miliciano. Retorquiu se na Companhia não existiam Oficiais. Obviamente que lhe respondi afirmativamente. Todavia, disse-lhe que todos eles, nomeadamente, o Comandante de Companhia, o Capitão Miliciano Coimbra, se encontravam envolvidos nas tarefas de transferência de M´Panze para ali. Efectivamente, tive o cuidado de explicar todos pormenores que envolviam a mudança. Bastante mal-humorado, disse-me que a transferência devia ter sido efectuada com mais celeridade, por consequência, já todo pessoal devia estar ali. Não lhe respondi. Porém, o Coronel, ainda mais mal disposto disse ao Brigadeiro, se não está nenhum Oficial vai mesmo o Sargento. Sinceramente, eu no meio de todos aqueles maus feitios nem sabia o que dizer ou fazer. Até que um dos Capitães, me disse para me preparar pois iríamos para Vila Gouveia, apanhar uma DO ou um helicóptero, com o intuito de ir efectuar um “revis” aéreo sobre uma zona onde, eventualmente, estariam acantonados elementos da frelimo. Tal operação seria para reconhecer esse local, com vista a executar, ali, uma grande acção militar, os famosos “golpes de mão”. Apenas disse ao Capitão que já estava preparado há muito. Não percebendo a ironia ou não querendo, disse-me se eu não possuía uma farda de saída, para trocar pelo camuflado sujo e suado. Apeteceu-me mandá-lo para a puta que o pariu, muito embora em pensamento o tivesse feito. Visivelmente agastado, lá lhe fui dizendo que não tinha mais nenhuma muda de roupa, porque o meu vestuário, encontrava-se algures no mato, em cima de alguma berliet, face às contingências da mudança. Tornei a repetir a razão pela qual eu e o meu pelotão fomos os primeiros a chegar ao Honde. O grupelho meteu-se na viatura a conferenciar, vi ainda o Brigadeiro a falar ao rádio. Passados alguns minutos, o Capitão, aquele que não gostava de roupa suada e suja, disse-me que, por ora, o “revis” ficaria adiado “sine die” e que posteriormente falariam com o Capitão Coimbra. Sim senhor meu Capitão e bati a pala. Lá se retiraram sem mais nenhum comentário. Quando já nos encontrava-mos, outra vez, sozinhos, o Cabo Vieira, veio-me dizer que a equipa que escoltava os Oficiais atrás referidos, no inicio da conversa que mantiveram eles, eles trataram o pessoal por “checas”, dizendo que eram “velhinhos”, pois já tinham 13 meses de Comissão. O Vieira respondeu-lhes, acredito que vocês já sejam velhinhos, todavia, nós somos VCC. O que é isso retorquiram. O Vieira elucidou-os: VCC, quer dizer, “Velhinhos Comó Caralho”, pois já temos 24 meses de Comissão, checas de merda. Vamos iniciar o mata-bicho e ainda não sabemos a data de regresso à Metrópole. Já não vos estamos a ver bem. Daí para a frente já tiveram um tratamento, connosco, mais condizente com o nosso estatuto. O respeitinho é muito bonito.
As famosas tempestades tropicais também eram assustadoras. Em determinado dia, quando nos encontrávamos no mato, em missão de patrulhamento, por volta das 22,00 horas, começou a cair chuva com tal intensidade e a trovoar de tal forma que parecia que o mundo ia acabar. A água era tanta que tivemos que nos levantar e passar toda a noite em pé totalmente encharcados. Os relâmpagos a criarem várias formas fantasmagóricas no firmamento e a cair cada vez mais perto de nós, era um cenário quase irreal. Efectivamente, até parecia um filme de terror. Pela manhã procuramos um sítio alto e seguro, interrompemos por algumas horas o patrulhamento e estivemos a aquecer, bem como a secar as nossas roupas e as restantes coisas, aproveitando sol radiante que, entretanto, tinha aparecido, afastando as nuvens negras. Até parecia que ali existia um campo de nudismo. Mas, afinal quem tinha sofrido, também, esse terror tinha sido o pessoal do controlo na Ponte do Pungué, um raio tinha despedaçado a antena do posto rádio e penetrado nas instalações, tendo provocado uma vítima mortal e dois feridos com queimaduras graves. A antena do posto rádio de Honde também foi atingida por um raio e, obviamente, desfeita. Contudo, não existiam vítimas a lamentar.
O contacto com a população nativa também era efectuado amigavelmente. Um dia, o chefe da aldeia, convidou-me para assistir a uma batucada. Realmente aceitei de bom grado e como bom conviva levei uma dúzia de cervejas e uma garrafa de uísque Sbell. Os africanos achavam que a cerveja não tinha “pica”, por consequência, misturavam-lhe sempre aguardente, uísque ou até mesmo álcool puro. Lá assisti ao espectáculo, batuque e danças. Consoante os músicos e os dançarinos iam bebendo o ritmo e movimento das danças, também aumentavam freneticamente. Inclusivamente, alguns até entravam em transe. Ainda provei uma bebida alcoólica feita por eles, que provinha da fermentação da “mapira” uma espécie de milho-miúdo. Não era grande coisa, até para beber, pois ainda trazia algumas cascas do cereal fermentado. Porém, como era uma oferta do chefe tinha que se aceitar e beber, se não ele achava essa atitude uma grande desconsideração. Face ao frenesim que se vivia e aos copos ingeridos, no final da festa, ainda tentei arranjar companhia feminina, no entanto, todas as tentativas saíram goradas. A filha do chefe, que “eras maning chunguilha”, ainda me disse que não ia comigo “nem que foras tinente”.
Em termos militares, durante quase um mês um Grupo de Combate, andou a escoltar uma equipa de geólogos sul-africanos que andavam no terreno a analisar os solos, por incumbência do Governo Provincial. Tratou-se de um trabalho científico com relevância. Na realidade, eles possuíam um mini laboratório onde procediam a algumas análises. Todavia, a maior parte dessas amostras eram remetidas para Joanesburgo. A finalidade desse trabalho era apurar a existência de minério e se as quantidades existentes eram susceptíveis de aproveitamento industrial. Efectivamente, isso nunca soube, mas que eles diziam que ali havia prata, ali havia ouro, ali havia ferro, eu sei lá, segundo eles havia de tudo naquelas terras. É de realçar que este trabalho, em termos de segurança, correu sem qualquer tipo de problema.
Já aqui abordei o assunto colunas civis escoltadas. Diariamente, logo ao romper da aurora, saía do Pungué a coluna em direcção a Tete, em contrapartida cerca das 16,00 horas passava em sentido contrário. Estas colunas eram compostas por mais de três centenas de viaturas, sobretudo veículos com todo o tipo de carga, seguiam sempre algumas viaturas ligeiras e um ou dois autocarros de transporte de passageiros, sempre, devidamente, enquadradas por viaturas militares. Em caso de emboscada, os civis apenas tinham que imobilizar os seus veículos e protegerem-se sob os mesmos. A estes apenas lhes era autorizado o uso de armas de defesa pessoal e somente poderiam ser usadas, mesmo em defesa. De forma não prevista também existiam as colunas que transportavam os materiais necessários para a construção da barragem de Cabora Bassa. Em qualquer dos casos para o pessoal da Companhia ver e por vezes apoiar estas colunas era quase um acontecimento social. Alinhavam-se de um lado da estrada para assistir à passagem, até parecia que iam passar os ciclistas da Volta a Portugal. Contava-se o número de viaturas, o número de mulheres. Aliás, tudo servia para entreter.
Não obstante o fim, formal, da Comissão já ter sido atingido, os ventos de guerra ainda sopravam, por isso não penses amigo que a hora que passa, ainda, é de perigo, assim avisava parte da letra de uma ária do Cancioneiro do Niassa que, como é óbvio, levávamos em linha de conta.
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