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Honde. Peculiaridades


Honde. Peculiaridades

                                                          
Já aqui falei numa quinta existente nos arredores de Honde, propriedade de um já idoso casal que era oriundo da Ilha da Madeira. Efectivamente, naquela local efectuávamos a compra de alguns produtos de origem agrícola, para substituir ou complementar a alimentação que nos era fornecida no aquartelamento. Entre vários quero destacar as laranjas e os ovos. Na realidade, esse fruto era utilizado na alimentação como tal, mas, paralelamente, forneceu litros de sumo natural que nunca me fartei de beber. No tocante aos ovos, também foram cozinhados, muitas vezes e de várias maneiras, como por exemplo, omeletas, mexidos, estrelados, escalfados e cozidos, como nos citrinos, jamais enjoei destes saborosos e nutrientes alimentos.
Ainda tivemos mais um despiste na estrada, desta vez com uma berliet. Todavia, nesta ocasião não foi excesso de velocidade que provocou a saída de estrada. Aliás, a viatura, no máximo, seguia a dez km/hora. Realmente, quando o 4 º Grupo regressava ao aquartelamento vindo de Vila Gouveia, ao entrar numa recta, talvez com uns quinhentos metros de extensão, depararam que, ao longe, atravessava a via um boi-cavalo, um antílope bastante grande, o apontador da metralhadora, no caso o Cabrita, que seguia na viatura da frente, como sabem, ia sempre instalado ao lado do condutor, após pedir autorização ao graduado responsável pela missão, começou a disparar contra o mesmo, com vista em abatê-lo. Obviamente para dar origem a uma lauta refeição. O animal passava da direita para a esquerda e como o atirador não acertava no bicho, ia movimentando a arma nesse sentido. Nesta conformidade, o cano ia passando na frente do condutor. Apesar de nunca existir o perigo de ser atingido, ele em movimento reflexo, começou a baixar-se e a puxar a cabeça para trás. Logo, também começou a não ter visão para a estrada e a não ter noção no sentido de marcha, puxando, inconscientemente, a direcção para a esquerda. Assim, a viatura começou a sair da via deslocando-se para esse lado. Como existia, um desnível com cerca de metro e meio, entre o pavimento e o terreno que o ladeava, a viatura começou a tombar, contudo, com bastante suavidade, pelo que deu para que todos os elementos pudessem abandonar a mesma, saltando, sem o menor risco. Apesar de todo este afã o animal, impávido e sereno, lá se embrenhou no mato, incólume, depois de mirar com muito desdém aquele grupo de humanos aos pulos.
Numa outra altura, quando num de fim-de-semana, quiçá em finais de Maio, me encontrava em Vila Pery, recordo-me que havia umas festividades na cidade. Porém, não me lembro em honra de quem, nem tão pouco o que comemoravam. Sei que no cartaz, entre outros eventos constava um festival aéreo que envolvia largada de pára-quedistas e acrobacia aérea, com aviões e helicópteros. Um dos participantes, manobrando um T6, era o Alferes Graduado Moutinho, camarada que nos safou muitas vezes, em Omar, nos raides aéreos em nossa protecção. Aliás, ele nessa altura era Furriel Piloto Aviador, tendo sido, mais tarde, graduado em Alferes, por mérito. Conhecia-o porque efectuamos testes, em conjunto, para entrar na Força Aérea, em 1970, tendo ele conseguido o ingresso e eu não, naquele ramo das forças armadas, muito embora eu tivesse obtido nota positiva no concurso, mas a minha classificação ultrapassava o limite das vagas em aberto, logo a minha entrada foi recusada. Nas minhas passagens por Mueda, quando me encontrava em Omar, tive o prazer de estar com ele. Infelizmente, nesse festival o Moutinho faleceu tragicamente. Na verdade, quando efectuava uma série de piruetas com a aeronave, por algum motivo a mesma descontrolou-se, caindo sobre a pista e incendiando-se em seguida. Dentro do azar acabou por haver alguma sorte pois nenhum dos assistentes foi atingido.
Noutra ocasião, também numa ida a Vila Pery, já depois do Vanduzi, consequentemente, entre fronteira rodesiana e aquela cidade, constatamos que na berma da estrada se encontrava um casal, já idoso, com a aparência de serem estrangeiros. Paramos no sentido de apurar o que tinha acontecido. De facto, era um casal da Rodésia que vinha em turismo a Moçambique. Faziam-se transportar numa viatura ligeira com a qual tiveram um despiste naquele local, sendo certo que a mesma se encontrava no campo, a cerca de 30 metros da via. A nossa primeira pergunta foi sobre a sua saúde, embora estivessem um pouco assustados, não se queixaram de qualquer problema físico. Após fomos vistoriar a viatura, constatamos que a mesma trabalhava normalmente. Na prática, os danos não eram muitos, mas suficientes para que a viatura não pudesse circular pelos próprios meios. Substantivamente, tais danos verificavam-se na direcção e na suspensão do veículo. Por essa razão estacionamos o melhor possível a viatura sinistrada e oferecemos boleia ao casal até Vila Pery. Aceitaram agradecidos. Após a viagem, pouco cómoda para eles, foram deixados junto ao Café Versailles, deixei com eles o meu nome e o endereço postal, no caso de precisarem de alguma ajuda, nomeadamente, para a remoção do veículo. Já em finais de Maio princípios de Junho, quando me encontrava na Beira a aguardar transporte para a Metrópole, foi-me entregue uma carta desse casal a oferecer-me o carro sinistrado, pois não pretendiam levá-lo de regresso para Untali, cidade rodesiano onde viviam. Chegou tarde a notícia, se não ainda tínhamos viatura para dar umas voltas. Contudo, ofereci-o ao meu camarada Coutinho, Furriel dos GE´s, que era moçambicano e natural da Beira. Nunca tive a notícia se o recuperou ou não.
Um dos objectivos que levei para Moçambique era concluir o Curso Complementar dos Liceus, portanto logo que pude marquei exames das disciplinas de Organização Política e Social do Estado, História e Geografia. Na primeira quinzena de Abril lá fui até à Beira. Recordo que tinha um exame marcado para terça-feira – História, outro para quarta-feira - Geografia e o último para sexta-feira – Organização. Saí do Honde na coluna de reabastecimento de Sábado, fiquei, o fim-de-semana, com os meus camaradas. Por conseguinte, só na segunda-feira é que parti para a Beira de comboio. Nessa época, os comboios moçambicanos possuíam três classes que, logicamente, tinham preços diferentes que oscilavam com a qualidade da carruagem, 1ª, 2ª e 3ªclasses. Para mim, como o dinheiro não abundava, solicitei um bilhete de 3ª classe. Estranhamente, o bilheteiro disse-me que não havia. Eu a ver a tabela dos bilhetes e também a constatar que não existiam muitas pessoas para viajar, respondi-lhe perguntando: Como é que não há bilhetes quando vejo que o comboio, já estacionado na linha, é extenso e os potenciais viajantes são raros? Sussurrando e envergonhadamente lá me disse: - Os brancos não viajam em 3ª classe. Naquele sector, só viajam os negros. Respondi-lhe, quero lá saber, desejo mesmo um bilhete de 3ª classe se não vou para o comboio e não compro bilhete nenhum. Lá me entregou um bilhete de 3ª classe, mas também me disse que, mesmo assim, podia viajar em 2ª classe. Antes de ingressar na carruagem de 2ª classe passei pelas carruagens de 3ª classe, e, na verdade, constatei que nas mesmas só haviam africanos e muitos animais domésticos, em maioria, galinhas. Foi só por isso e por questões odoríferas que não permaneci fiel aos meus princípios, passando para a carruagem da classe seguinte. Após oito horas de viagem, muito cansativa, lá cheguei á Beira. Estes comboios já, anteriormente, vítimas de acções de sabotagem pela frelimo, possuíam segurança militar desde Manica até o Dondo, esta localidade já se situava muito perto da cidade da Beira. Desta vez não me instalei na Pensão Alfacinha, na medida em que a actual messe de sargentos, agora, já possuía alguma dignidade. Nunca o referi, mas até aqui a messe de sargentos situava-se nas instalações do quartel da Beira, sem qualquer comodidade, eram meras camaratas, sem o mínimo de condições. Todavia, no princípio do ano de 1974, esse serviço foi transferido para as antigas instalações da messe de oficiais que por sua vez tinha sido mudada para um edifício que mais parecia um hotel cinco estrelas. Nesta nova messe de sargentos, já éramos instalados em quartos, quanto muito, tínhamos que o partilhar com um camarada, havia ar condicionado, a sala de jantar e o serviço melhoraram muitíssimo em qualidade. No que concerne á sua localização, apenas posso afirmar que era excelente, ficava mesmo em frente á praia, na Avenida Marginal.
Era bandeira e propaganda política da União Nacional, partido único e que apoiava a ditadura salazarista que nas colónias não existia racismo. Efectivamente, não existia, totalmente, racismo formal. Porém, existia um forte racismo socioeconómico que castrava em muito, a vida dos negros. Aliás, o Álvaro Castigo Nota, soldado negro do meu grupo, dizia-me que quando acabasse a tropa iria emigrar para a África do Sul. Eu, ingenuamente, não compreendia e dizia-lhe: Vais para uma terra que tem racismo e não te sentes bem numa que o não tem. Respondia-me: Furriel, na África do Sul há racismo, mas se eu trabalhar e quiser ir a um bom restaurante, vou, se quiser ir a um bom cinema, vou e se eu quiser passar um fim-de-semana na praia, vou. Embora existam esse locais só para negros tem boa qualidade e também existe a possibilidade de arranjar um bom emprego cujos proveitos cheguem para esses extras. Contudo, em Moçambique por muito que mate a trabalhar jamais terei dinheiro para frequentar lugares dessa estirpe. Quem sou eu para desmentir.

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