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Omar. Notas soltas 1.


 Omar. Notas soltas 1.                      .

Neste capítulo vou narrar alguns episódios que, também marcaram o quotidiano diário, da nossa Companhia. O primeiro assunto a relevar refere-se à primeira baixa que sofremos. Foi a morte de Tomás Sábado Tembe. Era africano, mal sabia falar português, parecia ser mais velho que a maioria e bastante introvertido. A sua morte ocorreu numa das torres de vigilância do aquartelamento em Omar, naquele sector existia vário armamento de defesa, designadamente granadas ofensivas. Efectivamente, o que motivou o acidente foi a explosão de uma granada ofensiva que o feriu, principalmente, na zona abdominal, ficou com as entranhas completamente expostas. Nunca se conseguiu apurar em concreto as razões da deflagração daquela arma. Todavia, apenas existem duas hipóteses, explosão acidental ou suicídio. A primeira hipótese é sustentada pelo facto de alguns militares, perigosamente, sacarem a cavilha de segurança das granadas, a fim de enfeitar os seus cinturões e no lugar da mesma colocavam uma argola. Normalmente, colocavam aquelas que abriam as latas de cerveja. Neste processo, quiçá por atrapalhação podia ter sucedido o acidente. A outra hipótese podia ser alicerçada pela personalidade do Tomás e pelo facto de que tudo levou a crer, mediante às lesões sofridas, que ele se “enrolou” na granada. Aqui até podíamos falar numa espécie de suicídio heróico, na medida em que, ele podia ter desejado o seu fim. Porém, jamais pretendeu lesar ou prejudicar terceiros, em virtude de com o corpo ter abafado a explosão. Na realidade a dúvida sobre a real causa, pelo menos para mim, sempre subsistiu. De uma maneira ou de outra, a morte do Tomás, gerou consternação geral, em virtude de ser a primeira e de ter surgido de forma abrupta e totalmente inesperada. Particularmente, também me chocou bastante porque foi a primeira pessoa que eu vi, pessoalmente, a morrer. De facto, nesse dia o meu grupo de combate encontrava-se de serviço de segurança á pista de aterragem e o desenlace fatal dá-se quando o ferido aguardava, deitado na maca, a chegada do avião que o havia de transportar para o Hospital ou para a morgue de Mueda, estando eu mesmo ao lado da citada maca.
O segundo tema refere-se à deserção do Suarez. Este militar chega a Omar já muito depois da Companhia se encontrar ali instalada. Falava-se que a sua colocação se tratava de um castigo. Castigo ou não, uma coisa era certa, este indivíduo era desequilibrado mentalmente. No seu desequilíbrio praticou acções, que agora não importa recordar, mas que provocaram ou podiam provocar, outras situações muito sérias, sendo certo que as mesmas beliscavam fortemente o comportamento social, moral e ético do restante pessoal e que se podiam repercutir negativamente no convívio diário do pessoal da guarnição. A chamada de atenção e repreensão pelo seu comportamento, foi efectuada frente aos seus camaradas, já que a Companhia se encontrava em formatura. A punição foi castigo corporal e atribuída por quem de direito. Acontece que passados dias, talvez revoltado, desapareceu, porém no seu cacifo foi encontrada a sua arma, bem como as cartucheiras. A princípio desconhecíamos o rumo ou o paradeiro do indivíduo em causa, no entanto, através da Rádio Livre da Frelimo, tivemos conhecimento que, na realidade, tinha desertado. Aliás, apresentou-se ao IN como 1º Cabo Piloto Aviador Juan Suarez, colocado na Base de Omar. Aqui já se nota a instabilidade mental do Suarez, pois na Força Aérea não existiam Praças com a categoria de Piloto Aviador, nem, tão pouco em Omar existia qualquer elemento colocado que pertencesse á Aviação. Efectivamente, foi passeado em Dar-es-Salam, como troféu de guerra e, logicamente, usado na guerra psicológica.
A confirmar que o indivíduo em causa não regulava bem, posso adiantar que já nos finais dos anos 80, já em Portugal, respondeu e foi condenado, na pena máxima, em Juízo, pela prática dos crimes de violação e homicídio, sendo a vítima uma senhora com cerca de 90 anos de idade. Face à crueldade e à violência do crime cuja autoria lhe foi imputada e assumida, foi morto de forma violenta, supostamente, por companheiros de cela no presídio onde se encontrava a remir pena.
No dia 25 de Setembro de 1972 (dia da frelimo), recebemos informação da inteligência militar que, nesse dia estava preparado um ataque, em força, a um aquartelamento fronteiriço. Em situações deste género, lembremo-nos do ataque de 28 de Maio, tanto ao anoitecer como ao amanhecer, o pessoal era colocado nas valas, prevendo que esse ataque podia ocorrer em Omar. Já de prevenção, mesmo no alvor do dia, constatamos a presença de dois aviões (T6) sobre o Rio Rovuma, presumindo que os mesmos patrulhavam a zona raiana. Contudo, a partir de determinada altura, começamos a ouvir, ao longe umas explosões, partindo do princípio, que tais aviões teriam detectado alguma infiltração, como é óbvio, estariam a bombardear tal acção militar do IN. Acontece todavia que a partir daquele momento deixamos de ver um dos aviões. Passados alguns minutos foi recebida uma mensagem relâmpago em Omar, para que a força ali estacionada preparasse um grupo de combate para acção urgente. Essa acção visava resgatar o piloto ou o cadáver do mesmo, bem como recuperar a parte identificativa da fuselagem do avião que, em princípio, havia sido abatido pela defesa anti-aérea da Tanzânia. Esse grupo não chegou a sair, apenas esteve de prevenção. Efectivamente, essa acção foi realizada por um grupo de combate de tropa especial, creio que por Fuzileiros. Porém, foi inútil pois o corpo do piloto já havia desaparecido, bem como a parte do avião que se queria recuperar. Mais tarde, também via Rádio Livre da Frelimo, verificamos que tanto os restos mortais do piloto, bem como parte do avião foram passeados e exibidos num cortejo macabro na capital tanzaniana. Obviamente que este episódio também foi usado na guerra psicológica que, como se sabe, grassava entre ambas as partes.
Já aqui falámos que em certas ocasiões os animais atrapalhavam as nossas vidas, o caso do leão, o caso da cobra. Contudo, agora vou relatar que alguns animais pequeninos, também atazanavam a nossa vida diária no mato. Em primeiro lugar as abelhas, com estes insectos tivemos dois episódios, mas, agora apenas me vou referir ao de Omar, porque o outro aconteceu em M´Panze e noutro contexto, nesta conformidade apenas me vou dedicar a esse, quando abordar, o quotidiano, dessa localidade. Assim, andaríamos em missão de vigilância e patrulhamento na zona do Congolo, situava-se entre Omar e Mocímboa do Rovuma, logo uma zona sensível, na medida em que, em princípio, seria uma zona de infiltração e a frelimo teria, por ali, umas pequenas bases transitórias de, eventual, apoio a quem passasse. Perante esta realidade era necessário observar todos os preceitos de segurança, com vista a não ser localizado e possuir acção surpresa no caso de ataque nosso. Um desses preceitos fundamentais era o silêncio. O avanço no terreno ocorria com todo o cuidado, pois os perigos eram muitos e variados, acontece que a determinada altura, um dos elementos da força, inadvertidamente, tocou numa colmeia de abelhas africanas que são bravas, sensíveis e muito perigosas. No início aconteceu uma breve reacção dos insectos, no entanto, a pouco e pouco, o grupo ia aumentando e o número de atacados também. Realmente gerou-se o pânico geral, já não importava frelimo, já não importava minas ou armadilhas, o que pessoal queria era ver-se livre de tão minúsculo, irritante e perigoso “bicho”, sacudindo-se energicamente. Os cuidados que nos ensinaram a ter numa situação destas, foram totalmente esquecidos, pelo receio e terror provocados por tão pequeno “inimigo”. A muito custo conseguiu-se serenar os ânimos, muito embora se verificasse que quem ganhou a batalha, face às lesões sofridas de ambos os lados, foram os minúsculos animais. O trabalho do enfermeiro foi enorme com a aplicação de várias injecções anti histamínicas, anti inflamatórias bem como a administração de simples analgésicos. Os medicamentos deste tipo esgotaram-se na bolsa do paramédico.
Existia também a praga das formigas, concretamente da formiga cadáver, que era avermelhada, grande e exalava um odor nauseabundo quando esmagada. Era um pivete que apenas podia ser corrigido no aquartelamento com muita água e sabão. Se houvesse a infelicidade de ter um acidente destes no início da operação, a vítima andava a feder todos aqueles dias. Aliás, não era difícil ter uma ocorrência destas, já que a formiga penetrava sorrateiramente no corpo instalando-se no interior do vestuário e quando era sentida a reacção natural era dar uma palmada. Pronto, lá estava o “azar” a bater à porta.
Outra formiga que nos incomodava era a formiga das calças, esta era muita pequena, acastanhada e atacava em bando. Subiam sub-repticiamente pelo corpo acima, em grupo e quando se dava por elas era tarde. Era uma coceira terrível. A fim de nos livrarmos delas o mais rapidamente possível, era imperioso tirar toda a roupa pois a expulsão só assim seria possível, dado que elas se agarravam, fortemente, ao vestuário. Era preciso limpar o corpo de uma vez e na outra limpar o fardamento e roupa mais intima. Na realidade, desenhava-se uma coreografia bastante estranha no mato pelas vítimas destas formigas. Um tipo nú e aos saltos.
Para terminar deixo a minha homenagem ao Tomás Tembe e ao pessoal da Força Aérea em geral e aos Pilotos Aviadores em particular, pela imensa ajuda que nos prestaram, muitas vezes, em horas bastante críticas.

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