Omar, Patrulhamento e Vigilância.
As missões militares mais realizadas no mato foram, sem dúvida, as Operações de Vigilância e Patrulhamento. Geograficamente, Omar situava-se, na margem direita do Rio Rovuma, a cerca de 5 km da fronteira com a Tanzânia. Era certo e sabido que as bases da frelimo se situavam na zona raiana daquele país, mesmo em frente dos nossos olhos. Consequentemente, era dali que partiam as colunas de reabastecimento de armas, víveres e vestuário para as bases que se encontravam instaladas no interior de Moçambique. Nesta conformidade, este tipo de operações, num sentido mais lato, visavam a segurança externa e mais longínqua do aquartelamento, por outro lado, visavam a vigilância fronteiriça. Nestas acções procurava-se, concretamente, localizar os trilhos de infiltração. Caso positivo, eram armadilhados com o intuito de jamais facilitar a tarefa do inimigo. Aconteceu, mas apenas uma ou duas vezes, que após informação dos serviços de inteligência, a chamada zona “libertada” de Moçambique iria ser visitada por um alto comando da frelimo. Nestes termos, procurava-se localizar o trilho de infiltração, a fim de o emboscar para proceder à captura desse alto comando. Todavia, nunca obtivemos êxito nestas acções.
De uma maneira geral estas operações eram efectuadas por três grupos de combate, sendo certo que demoravam, em regra, quatro dias, logo passávamos três noites no mato. Calcorreávamos um percurso, que em extensão, podia variar entre os 50 e os 90 km. As condições deste périplo eram agravadas pelas condições do clima, bem como pela flora e fauna da zona, não esquecendo, como é óbvio, qualquer, eventual, acção do inimigo. Tal acção, podia passar por uma emboscada, morteirada, armadilha, minas anti-pessoal (nestas circunstâncias não se picava). Carregávamos as rações de combate e a água (um cantil – 1 L - por dia), um cobertor e um pano de tenda. Não esquecendo, obviamente, o armamento. A G3, as cartucheiras, com quatro carregadores municiados para substituição. Ainda eram repartidas algumas munições extras, por algum pessoal, tal como as granadas para o Morteirete ou Morteiro 60 MM, os dilagramas e algumas fitas de recarga da metralhadora ligeira. O enfermeiro tinha que levar a bolsa de enfermagem, o rádio telegrafista tinha que transportar os rádios (o racal e o banana), o apontador de morteiro tinha que carregar essa arma que, no fundo, era um tubo, pesado, de ferro. Qualquer deles também levava a G3 e as cartucheiras. É verdade que tinham opção para trocar a G3 por uma pistola Walter calibre 9 MM e, realmente, isso a princípio aconteceu. Porém, após o primeiro contacto com o inimigo deixaram-se dessa troca, pois face ao fogo intenso do mesmo, o matraquear muito rápido da kalashnikov-ak, os tiros mais espaçados e certeiros da simonov-sks, os estampidos secos das granadas de morteiro 61 e 82 MM, eram mesmo assustadores. Na realidade, sentiam-se impotentes e inseguros apenas com uma pistola na mão. Não há dúvida que a G3 transmitia ao portador um sentimento enorme de defesa e segurança.
Desta actividade, destaco uma das minhas primeiras saída para o mato, recordo que foi na semana santa. Isto, face à recusa determinante do meu colega Ribeiro, em comer conservas de carne, na medida em que nos encontrávamos na sexta-feira santa, logo dia de jejum e abstinência para quem se regia por princípios católicos. Aliás, eu gostei dessa recusa. Imediatamente lhe apresentei proposta para trocar as minhas latas de sardinha e atum de conserva pelas de carne dele. Aceitou agradecido e eu agradado.
Nessa operação, senão estou em erro, na última noite, encontrávamo-nos a nordeste do aquartelamento, quiçá a cerca de 15 km de distância do mesmo, para os lados do Lago Lidede. Quando no princípio da noite, cerca das 18,00 horas, começamos a ouvir várias detonações e rebentamentos. Eram sinais evidentes que o aquartelamento estava a ser atacado à morteirada. Também começamos a ouvir, mais perto de nós o explodir das granadas de obus e morteiro enviadas pela defesa pesada de Omar. Foi aí que nos apercebemos que o ataque da frelimo estava a ser efectuado da nossa direcção, no entanto encontravam-se à nossa frente cerca de 10 km. Perante esta situação lembramos, via rádio, o posto de transmissões de Omar, da nossa posição, para que a artilharia não “levantasse” muito o tiro, pois, embora dificilmente, podíamos ser atingidos pelos obuses. Lembro que os obuses 88 MM tinham o alcance máximo de 15 km. Efectivamente, fomos acometidos de um sentimento misto de alívio e preocupação, alívio porque nos tínhamos safado desta e preocupação pelos eventuais resultados negativos que o ataque podia, eventualmente, provocar aos nossos camaradas. Por mera cautela e não obstante ser noite, colocamo-nos no terreno de molde a emboscar o trilho, caso a retirada dos homens da frelimo passasse por ali. Mas, não. Por consequência, logo no raiar do dia seguinte, ainda procuramos localizar o inimigo, contudo, sem qualquer êxito. No entanto, localizamos o local de onde tinha partido o ataque, efectivamente, ainda existiam vários vestígios do mesmo, como por exemplo, contenentes de granadas, argolas de segurança retiradas das mesmas, solo completamente remexido e pisado pelo pessoal, bem como pelo bater no solo dos pratos dos morteiros 82, seriam três. Demos conhecimento ao Comando do sucedido e, como é lógico, indagamos pelos resultados do ataque. Responderam-nos que não tinha havido vítimas pessoais nem materiais. Ficámos mais descansados.
Outra operação que recordo, foi aquela que teve lugar a 27, 28 e 29 de Maio de 1972, não a vivi pessoalmente, porque me encontrava no aquartelamento. Porém, recordo-a pois nessa Operação, por via do accionamento de uma armadilha, tivemos quatro ou cinco feridos. Este pessoal também assistiu do mato, ao célebre ataque de 28 de Maio ao aquartelamento. Quando regressavam ao mesmo, no dia 29, dia seguinte, a cerca de 5 km de Omar, accionaram a tal armadilha. A nosso ver a frelimo colocou-a no terreno, mais para defender a sua retirada, depois do ataque já citado, do que para prejudicar quem regressasse a Omar. Lembro que o ataque começou à meia-noite e face ao armamento utilizado no mesmo a retirada iria ser, por certo, mais morosa.
Outra missão digna de destaque, na qual também não participei, foi aquela Operação que foi montada para capturar um alto dirigente da frelimo, supostamente, em visita a bases no interior de Moçambique. Passaram-se os quatro dias e nada de sinais do alto comando, pelo que, tal operação foi prolongada por mais quatro dias, sendo certo que nestas situações o reabastecimento da ração de combate e água era efectuado pelos helicópteros da Força Aérea. Nos sólidos não houve qualquer problema. Contudo, no que concerne à água houve. O líquido era transportado em recipiente de plástico com a capacidade de 100 litros e quando foram lançados da aeronave, a cerca de 6 a 7 de altura, alguns rebentaram face à fragilidade dos mesmos. É rigorosamente verdade que aquando da distribuição do líquido houve necessidade de o racionar, de um modo geral, deu para distribuir um cantil por cada elemento, pelo que era muito pouco para hidratar durante quatro dias a quem produzia muito esforço. Alguns elementos, dois ou três, não aguentaram. Chegaram ao cúmulo de abrir as latas de sardinha ou atum, depois de esgotadas as latas de salsichas, para com o líquido das mesmas matarem a sede. Era óleo ou azeite que, obviamente, não hidratavam, não sei, se calhar, até era contraproducente. Até alucinaram, razão pela qual foi solicitada a sua evacuação.
Finalmente, destaco uma outra, a do leão que vitimou o Rondinho, a nossa segunda baixa. Também, não participei nesta operação. Era usual, de quando em vez, ouvir animais selvagens, nomeadamente leões a rugir e às vezes bem perto de nós. Nunca houve problemas eles rosnavam, nós ouvíamos, e após lá iam á sua vida. Todavia, daquela vez eles acercaram-se bem mais perto. Recordo que no mato pernoitávamos em círculo, no meio do mesmo ficava o comando e o apoio. Na realidade, de um grupo de cinco ou seis leões destacou-se uma leoa que se abeirou da orla do círculo, cheirou dois ou três elementos que logicamente não se moveram, deixou-os em paz, seguidamente passou pelo grupo de comando, derrubando um pano de tenda que se encontrava armado, continuou. Neste momento, o Rondinho, do outro lado do círculo, apavorado, levantou-se e correu em direcção a uma pequena arvore, talvez para a subir e se proteger, em altura, da fera. O suposto abrigo, ficava distante de si cerca de dez metros. É precisamente neste percurso e talvez movida por instinto de defesa a leoa ataca o Rondinho ferindo-o de morte, transportando-o ravina abaixo. Somente se ouviu um grito profundo e muito rápido. Desde o círculo até ao início da ravina deviam distar uns cem metros. Nesse percurso, eivado de sangue, foi possível recuperar a G3, as cartucheiras, as botas e parte do fardamento rasgado e ensanguentado, bem como a carteira do Rondinho. A mesma, apesar de se encontrar repleta de papéis, documentos, algumas notas de banco e fotografias. Por conseguinte, possuía uma grossa espessura, mesmo assim era bem visível o cravejamento de uma garra do animal que a trespassava de um lado ao outro. O cadáver ou restos dele foi procurado, em várias ocasiões, mas sempre em vão.
Apetece-me acabar com parte da letra da canção “ A erva lá na picada…”. Reza assim, “O coração dos soldados pisam-no os machambeiros”. Machambeiros, entre outros significados, também identificava, oficiais do quadro permanente das forças armadas portuguesas. A guerra era deles, os milicianos eram, meros, piões das nicas.
A minha homenagem aos feridos de 29 de Maio, bem como postumamente ao Rondinho Uaera.
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