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Porto Amélia ou Pemba.


Porto Amélia ou Pemba.

Repartia o aposento, na Messe de Sargentos, com o Rolando Fonte, quando cheguei já este dormia profundamente. A janela do quarto estava aberta, pois o calor era bastante. Despi-me às escuras para não o perturbar, nem para atrair a mosquitada que por ali rondava, ávidos para sugarem o sangue fresquinho da “checalhada”, recentemente chegada a Moçambique. Acendi um cigarro, um LM que parecia palha em comparação com o Porto, que utilizava na Metrópole.
         Encontrava-me em meditação profunda, pensando no futuro sombrio que se aproximava a passos largos, quando o Rolando Fonte, acordou e ainda estremunhado, disse:
-         A fumar no quarto. Sabes que o fumo me incomoda bastante. Apaga essa merda e vai dormir que o dia não tarda. O Rolando era um desportista nato, logo anti-tabagista.
Pedi-lhe desculpa e aceitei o alvitre. Apaguei o cigarro, despi-me e deitei-me em cima dos lençóis. Todavia dormir, só aos soluços. Por consequência, na hora de acordar, tinha a sensação que não tinha dormido e logicamente descansado, absolutamente, nada.

Porto Amélia, era sede de Município e capital do Distrito de Cabo Delgado. Situa-se na saída sul da Baía de Pemba, sendo certo que esta baía é considerada a terceira maior do mundo. É de referir que após a independência de Moçambique o nome da baía foi também dado à cidade. O Distrito de Cabo Delgado a par com o do Niassa, eram os mais setentrionais da, então, Província de Moçambique e, como é óbvio, estabeleciam fronteira com a Tanzânia.

Os dias corriam calmos e serenos. Porém, a partir do segundo dia começaram a efectuar-se operações de patrulhamento á volta da cidade. Uma espécie de treino operacional (IAO= Instrução e Aperfeiçoamento Operacional). Estas operações eram, no fundo, de treino de patrulhamento e vigilância, bem como de aclimatação, em esforço, ao clima tropical, na medida em que, aquela zona era pacífica. Eram também uma maneira de manter a forma física e uma habituação á ração de combate e à orografia africana. Aliás, nessas missões todo o pessoal ia equipado como se fosse para combate. Cada elemento levava consigo a sua arma e os carregadores de substituição. Todos completamente municiados. Não obstante não se dormir no mato, na mochila de transporte além da ração de combate, eram levados um cobertor e um pano de tenda. O apontador de morteiro, o enfermeiro e o elemento das transmissões, juntamente com a G3, levavam respectivamente, o morteiro, a bolsa de enfermagem e o rádio de transmissões. As granadas de morteiro, cerca de dez, eram repartidas duas por cinco elementos do pelotão. Não haviam baldas o comportamento era idêntico a aquele que teríamos que ter em cenário de confronto com a frelimo. Estas operações começavam de manhã e finalizavam cerca das 15,00 horas. Consequentemente, ainda havia tempo para ir até á praia dar um mergulho nas águas cristalinas e cálidas nas praias da baía de Pemba. Podíamos entrar pelo mar dentro várias centenas de metros sempre com pé e apenas pequenas ondas que não atrapalhavam muito. Realmente, mesmo aqueles que não sabiam nadar pareciam patos na água, a segurança era total. Com efeito, um nadador salvador, como vigilante naquelas praias, não tinha futuro. Era um lugar de extrema beleza e absolutamente seguro. Não estou a exagerar quando realço as belezas geográficas locais. A zona era e é, de facto, muito bonita e agradável. Não é por acaso que, actualmente, se situam lá vários spas, resorts e loteamentos de luxo. É uma zona turística por excelência. As Quirimbas são disso um bom exemplo.
Contudo, o bem bom estava a chegar ao fim. A ida para norte, para o Comando do Sector D – Mueda, era para breve e iria ser por via terrestre, a dúvida que subsistia era o itinerário. Na realidade, existiam duas hipóteses de caminho, uma pelo interior, a chamada via de Montepuez, ou a chamada via marítima, a via de Ancuabe. Os Altos Comandos aprazaram a partida para 12 de Março, a via iria ser a marítima. O odor da guerra aproximava-se ou, pelo menos, sentia-se.


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