Omar, terra sagrada, das minas e morteirada.
Omar para nós e Namatil para a frelimo, situava-se na orla do Planalto Maconde, sobranceiro sobre o Rio Rovuma, sendo certo que desde o aquartelamento até ao referido rio, fronteiriço com a Tanzânia, distavam cerca de 5 KM de zona pantanosa e quase impenetrável.
No tocante ao fortim militar, Omar não passava disso, na medida em que apenas tinha presença militar, teria cerca de 5000 M2 de área, sendo o seu formato circular, havia uma espécie de avenida e, em cada lado da mesma, dispunham-se os barracões de zinco onde se instalava o pessoal e toda a espécie de serviços. A meio da referida avenida existia uma espécie de obelisco que assinalava a presença das tropas que haviam passado por Omar. Havia, também, um mastro, onde, aos Domingos e Feriados, com alguma circunstância, se hasteava a Bandeira Nacional. Para fins meramente defensivos, a praça militar, era cercada por duas fiadas de arame farpado, e junto da fiada interior, existia uma vala que era usada para defesa e vigilância em caso de ataque inimigo. Existiam oito postos elevados de observação (torres), quatro ninhos de metralhadoras pesadas, bem com três trincheiras circulares onde se encontravam instalados obuses 88 MM. Havia, ainda, a cozinha, o forno de cozer o pão, os chuveiros e as latrinas. A oficina auto era ao ar livre. Existia ainda um campo de futebol. Do lado nascente, existia a pista de aterragem, com cerca de 800 metros de comprimento e cerca de 20 de largura.
Em termos de pessoal, em Omar encontrava-se instalada a minha Companhia, composta por quatro grupos de combate e secção administrativa que englobava, saúde – Enfermaria, transmissões – Posto Rádio, parque auto – Oficina, alimentação – Cozinha, Forno e Depósito de Géneros, Secção de Armamento, Administração e Comando. Era reforçada por um pelotão de artilharia (obuses) e mais dois grupos de combate que faziam parte de uma Companhia de Intervenção, sendo certo que os outros dois grupos reforçavam a CCS do Batalhão em Mocímboa do Rovuma.
No aquartelamento havia sempre três grupos de serviço, um na defesa e vigilância, outro na recolha e distribuição de água e, finalmente, o último de segurança à pista de aterragem. A defesa e vigilância, consistia no preenchimento, com pessoal, ininterruptamente, dos postos de observação, a fim de prevenir qualquer acção inimiga. O Grupo que se encontrava de segurança à pista fazia, objectivamente, esse serviço. Todavia, só se dirigia para os limites da mesma, nessa missão, cerca de meia hora antes da aterragem da aeronave naquele local e só abandonava o mesmo quando a mesma levanta-se voo. Finalmente, o grupo que recolhia a água e a distribuía, tinha como incumbência deslocar-se a um riacho que ficava a cerca de 2 KM, a sul do aquartelamento, com duas viaturas pesadas – Berliet -, com a parte da carga repletas de bidões de 200 L, bem como dois atrelados de transporte de água. Efectivamente, tais bidões e atrelados eram cheios por meio de uma moto-bomba. Neste serviço de modo nenhum se podia descurar a segurança, na medida em que a Companhia que fomos render, tinha tido uma emboscada naquele local. Por isso, de quando em vez batia-se a zona com umas rajadas de G3 e umas granadas de Morteiro 60 CM. Tal procedimento não obstou, que também fossemos vítimas da explosão de uma mina anti-carro, colocada junto ao riacho, que a par de ter provocado enormes danos à viatura, originou, também, uma fractura de um dos membros inferiores ao condutor da mesma que, por sinal nem era condutor auto, mas sim o chefe dos mecânicos que se encontrava a efectuar o serviço em regime de voluntariado.
Os restantes grupos de combate senão estivessem em missão no exterior descansavam. Não havia muitas formas de passar este descanso, contudo, no essencial havia três formas, a saber: 1º FUTEBOL. Grandes futeboladas se fizeram. Se algumas vezes as equipas eram constituídas pelo pessoal que aparecia para jogar, noutras ocasiões, formavam-se equipas por grupos, isto é: Equipa do 1º pelotão. Equipa da Secção Auto. Equipa dos Enfermeiros, etc. Todavia, em qualquer caso eram sempre partidas disputadas com muito vigor e entusiasmo. 2º JOGOS DE SORTE E AZAR. Cartas e Póquer de Dados. Nas cartas ganhava realce a “Lerpa”, quem não jogou à lerpa na tropa, deve haver raríssimas excepções. Havia ainda o “King”, o “Carapô”, o Pifo e os mais clássicos como a Sueca e as Copas. Quando não havia parceiro fazia-se o jogo da “Paciência”. 3º LEITURA: Dava para ler bastante, nomeadamente, o jornal “ A Bola” da 2ª feira, que um meu irmão me enviava religiosamente todas as semanas. Lia-se também a correspondência recebida e, como é óbvio, respondia-se á mesma. Já me esquecia, havia um outro desporto muito popular que era, O LEVANTA O COPO OU A LATA. Beber, principalmente cerveja - Laurentina ou 2M e uísque, nem que fosse Sbel.
Inopinadamente, apareciam outras formas de matar o tempo, tais como matar ratos, ou então, antes da condenação final dos ditos, fazer corridas com eles. Ou contá-los quando aqueles passavam por cima dos mosquiteiros. Porém, o pessoal que não tinha aquela defesa, tinha que afastar os animaizinhos com as mãos, muitas vezes, de cima das próprias faces. Ainda não me esqueci da partida que, certa vez, fizeram ao LM. Antes da hora da deita, alguém lhe fez a cama à espanhola, e no meio do lençol dobrado meteram-lhe um rato. O LM ia morrendo quando ao meter-se na cama sentiu o bicho. Ficou tão horrorizado e revoltado que se apanhasse o autor da façanha, crucificá-lo-ia, com certeza.
A estadia em Omar durou quase dezoito meses, desde meados de Março de 1972 até finais de Agosto de 1973. Com efeito, nesse lapso de tempo, as actividades supra aludidas, foram interrompidas pela frelimo por dezoito vezes. Consequentemente, à média mensal de uma, fomos alvo de dezoitos ataques à morteirada e canhão sem recuo ao aquartelamento. Mas disso, falaremos á frente com mais pormenor.
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