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Omar, alimentação.


Omar, alimentação.                         

Muitos dos camaradas que acompanham este blog, com certeza que estranharão o facto de eu dedicar um texto à alimentação que usufruíamos em Moçambique, muito particularmente em Omar. Contudo, face a ser condição necessária para a sobrevivência humana e perante algumas particularidades, a meu ver, a alimentação merece um tratamento distinto.
Como é óbvio, o Estado Português assegurava-nos, as três principais refeições diárias, isto é: - O pequeno-almoço, almoço e jantar, em quaisquer delas não havia muita variedade. A primeira refeição era composta por uma caneca de café que podia levar leite, acompanhada com uma carcaça untada de margarina. O almoço e o jantar variavam entre si, quando ao almoço nos era servido arroz com salsichas, ao jantar apresentavam-nos massa com carne, a famosa cambalhota com estilhaços. Também, se podia dar o caso de no almoço constar no menu arroz com estilhaços, desta forma ao jantar era servida massa com salsichas. Em todas as situações acompanhava uma caneca de vinho tinto e uma carcaça. Não pensem que estou a exagerar quando afirmo que as refeições principais variavam como acima aludi. Efectivamente, era mesmo assim. A primeira vez que o pessoal da Companhia saboreou batatas foi no Natal de 1972, consequentemente, já se encontrava em Omar há dez meses. Na refeição do Natal também foi servido, pela primeira vez, o famoso bacalhau.
Os Oficiais e Sargentos faziam as suas refeições, nas messes respectivas. Porém, as praças, à hora marcada 6,00 - 11,30 e 16,30, tinham que formar, em fila, sob orientação do sargento de dia, junto à cozinha para que lhes fossem servidas, pela equipa de cozinheiros, as refeições. É de realçar que o jantar era recebido sempre com os olhos na marmita e os ouvidos no ar, autênticos radares, na medida em que, as 16,30 horas, era a famosa hora maconde. A denominada hora maldita, aquela onde havia mais probabilidade de sofrer um ataque à morteirada. Realmente, esse facto confirmou-se algumas vezes.
No que concerne ao pão (carcaças) também é imprescindível afirmar que o mesmo era muito especial e não só pela sua natureza. Com efeito, a farinha para manufacturar o pão era transportada para Omar em coluna. Estas operações militares só se efectuavam no tempo das secas face à natureza do terreno. Na realidade, na época das chuvas era impossível transitar nas picadas. Assim, entre Março e Agosto, normalmente, face à perigosidade e as estruturas militares necessárias para as levar a efeito, eram apenas realizadas duas, uma no princípio e outra no fim da estação. Portanto, está bom de ver que era necessário transportar algumas toneladas de farinha, em qualquer delas. Não nos podemos esquecer que em Omar estavam estacionados cerca de 250 homens. Para fornecer diariamente três carcaças a cada um, era, realmente, necessário, possuir em armazém, muita farinha.
O cereal – farinha de trigo – era arrecadado num barracão metálico sem o mínimo de condições higiénicas, muito particularmente de refrigeração, por conseguinte, o local era bastante quente e húmido. Esse tipo de clima e com o passar do tempo, tudo era propenso a que na farinha se criassem condições óptimas para o nascimento de pequenas larvas que se multiplicavam aos milhares. Os padeiros introduziam na masseira a farinha consoante a mesma se encontrava no saco, pelo que o pão quando depois de amassado e preparado, era metido no forno e, como é lógico, levava os “bichinhos”. No princípio ainda nos dávamos ao trabalho de antes de comer a carcaça de catar, na mesma, os tais “bichinhos”. Todavia, no fim dessa operação constatávamos que apenas restava ao pão, uma pequena côdea. Por consequência, passado algum tempo, o pessoal deixou de ligar aos animaizinhos, passando a considerar a carcaça uma sandes de carne. Logicamente que a alimentação aumentou em termos de proteínas!
Para fugir a esta dieta apenas era possível quando se saía para o exterior em missão militar, uma vez que no mato, se comia ração de combate. Nesta ração surgiram-nos vários alimentos que agora são muito comuns. Contudo, na época, para a maioria do pessoal, foi novidade, o melhor exemplo foram, os enlatados de leite achocolatado, salada e sumos de fruta e carne guisada. Havia, igualmente, outros alimentos já conhecidos, a saber: Salsichas, atum e sardinha de conserva, chouriço, queijo e manteiga e fruta cristalizada. É rigorosamente verdade, que aquilo que sobrava destas rações era, religiosamente, guardado para “morfar” no aquartelamento, quando a massa e o arroz já referidos enjoavam. Até se efectuavam trocas, eu, pelo menos, no tocante às salsichas e as sardinhas, tentava sempre despachá-las por permuta. Quando esta não era possível, oferecia aquele tipo de alimento, pois para mim, a partir de certa altura, as salsichas e as sardinhas eram intragáveis. Os “aramistas” agradeciam.
A propósito deste tipo de alimentação, concretamente por causa da água, recordo um episódio que se passou com o Cabo Geraldo. Na verdade, este camarada numa das missivas que dirigiu ao seu pai, rogou-lhe se lhe podia enviar uma nota de quinhentos ou mil escudos, pois a fome em Omar era grande e, como tal, precisava de dinheiro para se alimentar na cantina. O velhote, astucioso, cheio de calo e experiência, na resposta disse-lhe: - Meu filho, estranho a tua afirmação, dado que quando vejo as fotografias que nos tens enviado, verifico que engordas de carta para carta. O Geraldo na contra-resposta, lá conseguiu retorquir: - Pai, por acaso é verdade que estou mais gordo. Porém, essa situação deve-se à água que aqui bebemos. O velhote, nada convencido, mas com pena do herdeiro, lá lhe enviou uma nota, todavia, de 50$00, dizendo-lhe para, em troca, lhe remeter para Vieira do Minho, uns litritos da água de Omar, aquela que engorda, pois por certo, faria fortuna a vendê-la por toda a região do Minho.
A água do riacho foi analisada várias vezes e concluiu-se, sem qualquer equívoco, que a mesma nem sequer devia ser utilizada no banho, quanto mais para ingerir. Não era por acaso que todos os beirais das barracas de zinco possuíam uma calha que conduzia a água da chuva para uns bidões de 200 litros de capacidade. No terminal de cada calha havia, sempre, dois bidões. Esta água era exclusivamente usada para consumo e cozinhar.
A par do inimigo a alimentação ou a falta dela, foi o que mais contribuiu para que as condições de vida que tínhamos se cotassem a abaixo de cão. De facto, depois do regresso à Metrópole, durante muito tempo não comi massa, salsichas, sardinhas de lata ou arroz cozido, o fartote que levei em Omar, enjoou-me ou enojou-me por muitos e longos anos. E, infelizmente, como eu, muitos…

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