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Entre a Beira e Porto Amélia.


Na primeira noite africana, foi difícil dormir. O calor, as melgas e os mosquitos. A comida e as bebidas ingeridas em excesso. O sexo. A mudança de clima, tudo aconteceu muito depressa. Recordei-me da ex-namorada. Embora a noite fosse curta, nunca mais acabava. Como tinha que me apresentar no Batalhão às 08,00 horas. Mas o corpo dorido, a boca a saber a papel de música, olheiras profundas, é certo que essa situação estava a dificultar o acto. Porém, por volta das sete horas lá me levantei. Após um duche frio e rápido, fardei-me. Tomei o pequeno almoço com os colegas que já se encontravam na sala de refeições. Depois de vários comentários á noite anterior todos nos dirigimos para o quartel.
Na formatura da manhã, contou-se o pessoal e na, verdade, não faltava ninguém. Quer dizer que ninguém se perdeu na noite anterior, nomeadamente, aqueles que foram até Metacolia ou aqueles que foram até ao Mira Mortos. Este era o nome que se dava a um prédio que se situava junto ao Cemitério da Beira onde a prostituição acontecia porta sim porta sim. Nessa altura, ficou a saber-se que a Companhia iria partir para Porto Amélia, nesse dia, por via aérea, às 16,00 horas.
A partir do meio da manhã já tinham sido cumpridas todas as tarefas. Nesta conformidade, comecei a procurar se naquele estabelecimento militar havia alguém de Braga que eu conhecesse, pois seria agradável encontrar algum amigo. Tinha conhecimento que alguns colegas de bairro e de Escola se encontravam na província e, eventualmente, algum deles podia estar colocado na Beira. Indicaram-me um 1º Cabo que se encontrava destacado nos Adidos. Encontrei um rapaz que de imediato me abraçou, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe rolavam face abaixo. Afastei-o pois não o havia reconhecido. Mirei-o, fixamente, e questionei-o:

-         Conheço-te?
-         Não me digas que não me reconheces? Sou o José Fernando. Éramos vizinhos, morávamos na mesma rua. Andamos na escola do bairro.

Olhei-o de cima a abaixo e, desta vez, foi eu quem o abracei.

- Oh pá. Desculpa não te ter reconhecido. De facto, algo mudou em ti…

Recordo que o José Fernando fora vizinho e meu companheiro de escola. Contudo, até ir para a tropa, ele era um daqueles rapazes gordinhos, quase uma bola, chegou quase à centena de quilos. Tinha uma farta cabeleira. Mas, ali na minha frente encontrava-se um moço seco, muito magro, já com umas entradas pronunciadas, denunciando uma careca bastante precoce. Este facto originou o seguinte comentário:
-         Oh Zé, a sauna africana derreteu-te. Espero que não tenhas ficado assim por causa de qualquer doença.
-         Não, está tudo bem. Foi mesmo esta vida e este calor que me puseram assim.
Conversei com ele largos minutos, falamos de Braga, falamos de África, enfim nenhum de nós queria desligar. O José referiu-me que na enfermaria do Batalhão se encontrava colocado o Francisco Mário, rapaz também de São Vicente. Estava á espera de transporte para a Metrópole. No entanto, alertou-me que aquele, há cerca de seis meses, tinha sido evacuado para o Hospital de Nampula, por razões de ordem psíquica. Com efeito, apenas tinha tido alta há cerca de um mês.
Aludiu, ainda, as razões do abalo mental. O Francisco Mário era 1º Cabo Enfermeiro, esteve colocado numa Companhia Operacional no norte de Moçambique, concretamente na zona do Lunho, no Niassa. Quando seguiam numa coluna de reabastecimento uma mina terrestre rebentou na quarta viatura da mesma. A sua explosão provocou oito mortos e dez feridos. O Francisco Mário e um companheiro após socorrerem os feridos e prepara-los para ser evacuados de helicóptero para o hospital de Vila Cabral. Viraram a sua acção na recolha dos cadáveres ou daquilo que restou deles. Foram estendidos oito panos de tenda e dentro de cada um deles foram colocados os restos humanos das vítimas, procurando ser o mais preciso possível, procurando não misturar pedaços de um com outro. Como comentaria o Capelão Jorge Pinheiro, o Francisco Mário cumpriu o seu dever de militar e de cristão.
Acontece que quando chegou ao aquartelamento o Francisco vinha com a farda manchada de sangue e antes de a tirar e fazer a sua higiene, passou pela cantina para beber uma cerveja. Ali chegado, os “aramistas” (pessoal não operacional) com cara de nojo, repreenderam o Francisco dizendo-lhe para se ir lavar, apelidando-o de porco. Quem não gostou do comentário, foi o próprio Francisco que, meio enlouquecido, lhes gritou:

-         Isto é sangue dos vossos colegas. Vi-os ir. A mim o sangue deles que, poderia ser também o meu, não me enoja. De imediato pega numa bucha de pão que passa pela farda e começa a come-la. Obviamente, que ninguém mais atiçou o Francisco. No entanto, os factos foram comunicados superiormente. O Dr. Mendes, médico do Batalhão resolveu e bem, evacua-lo para o hospital psiquiátrico.
Perante esta advertência, fui, na companhia do José, ver o referido Francisco Mário. Desta vez não houve equívocos. Abracei-o com amizade. Olhamo-nos mutuamente. Conversamos, falamos de Braga, do Sporting Clube de Braga, que tinha baixado á Segunda Divisão Nacional. Falamos das raparigas do bairro. Enfim, pusemos a conversa em dia.
Apenas na hora da despedida, o Francisco me perguntou. Qual era a minha especialidade e qual era o meu destino. Respondi-lhe que era Atirador e iria para Omar que se situava no Distrito de Cabo Delgado. Objectivamente, entre Mocímboa do Rovuma e Nangade.

-         Oh pá. Estás fodido. Aquilo é o inferno. É tão mau que a Companhia que vais render foi extinta face á grande quantidade de mortes e evacuações. Estive no Hospital de Nampula com alguns evacuados e segundo apurei até dormiam nos abrigos por causa dos ataques ao quartel. Disseram também que em cada coluna que faziam, tinham sempre baixas. Rebentavam com quatro ou cinco berliets. A água de lá nem para tomar banho serve. Oh pá, vê-la se te cuidas. Desejo-te muita sorte, vais precisar dela.
Por fim perguntou-me se queria alguma coisa para família pois tinha aprazado o regresso á Metrópole para daí a quinze dias. Respondi-lhe que não. Porém, se estivesse com os meus pais ou com qualquer dos meus irmãos que omitisse a perigosidade do aquartelamento para onde ia, a fim de, desta forma, não os apoquentar.
 Despedi-me com um grande abraço. O Francisco Mário afastou-se inquieto e preocupado com a minha sina.

Seguidamente foram as despedidas do José. Um grande abraço e um até breve. O José ainda estava a meio da Comissão.

Às 16,00 horas já a Companhia se encontrava dentro do Boeing 737 da DETA, Linhas Aéreas de Moçambique. A viagem para norte lá começou sem qualquer tipo de imprevistos.
Um pouco antes das 18,00 horas, o avião começou a fazer-se a pista do Aeroporto de Porto Amélia. A vista aérea da Baía de Pemba era deslumbrante. Embora o sol já estivesse a esconder-se no horizonte e contrariamente á Metrópole, em Moçambique o sol nasce no mar e o ocaso acontece em terra, percebia-se a grandiosidade e maravilha que era aquela baía. A mata de cajueiros a lamber a orla marítima. Entre estes e o mar existiam extensos areais, a areia era limpa e dourada. Era sem dúvida uma paisagem paradisíaca. Nada tinha a ver com cenários de guerra. Entretanto, o avião aterrou.
Uma dúzia de berliets á espera da Companhia. Com rapidez o pessoal e a bagagem acomodaram-se naquelas viaturas e, passado cerca de meia hora já estávamos a chegar ao Batalhão Operacional de Porto Amélia. Face ao adiantado da hora, foi só conduzir o pessoal para as camaratas para estes arrumarem as bagagens e, imediatamente, formaram para o jantar.

Só depois de despachar o pessoal é que me dirigi à messe de Sargentos para jantar. Ali encontrei o Cláudio, era o Furriel Enfermeiro da CCS do Batalhão. Este camarada era também de Braga e tinha estudado comigo no Liceu Nacional Sá de Miranda. Já estava, há cerca de oito dias, em Porto Amélia. Conversamos, o Cláudio disse-me para não ligar á conversa dos “velhinhos” (pessoal com mais de um ano de comissão), este às vezes exageravam um bocadinho a situação. Isto vem a propósito, porque quando entrei na messe, fui ao balcão e pedi ao impedido do Bar para me servir um martini. No referido balcão encontrava-se um Furriel Miliciano, com a farda já um pouco coçada. Que ao reparar em mim quase a cheirar a naftalina, com tez bastante clara, me perguntou:

-         Então checa, para onde vais?
-         Vou para Omar, respondi.
-         Para Omar! Arregalando os olhos, disparou de seguida. Oh checa nomeia-me já o teu legatário. Podes-me deixar esse bonito relógio, apontando para o meu pulso. Também me podes confiar esse fio em ouro que tens ao pescoço, bem como o anel que tens no dedo. Com certeza que vais lerpar. Em Omar não te safas, (o calão lerpar=morrer), portanto, nada se perde. O fio podes crer que o entrego á tua família, mas o relógio e o anel ficam para mim, para pagar o trabalho.
Estive quase para o mandar para a puta que o pariu. Todavia, contive-me, peguei no copo do vermute e sem lhe dirigir a palavra. Foi sentar-me na mesa onde estava o Cláudio.

Jantei calmamente. A conversa tida ao balcão com o velhinho não alterou o meu comportamento. No fim do mesmo o Cláudio, sugeriu para irmos ao Clube de Porto Amélia. Aliás, porque era Sexta Feira, era dia de bingo. Nestes dias apareciam por lá umas miúdas jeitosas. A sugestão foi aceite. Chegamos ao Clube, a sala de Bingo encontrava-se montada no Ginásio da agremiação desportiva. Estavam lá cerca de cem pessoas, de escalões etários variados. Contudo, dava nas vistas um grupo de quatro ou cinco jovens raparigas, bastante morenas. Sinais de muita praia. Muito alegres e barulhentas, vestidas de modo a que se vislumbrassem bastante bem todos os contornos femininos. Uma delas, alta, magra, parecia do outro mundo, um manequim. É boa como o milho, comentei.                                                                        - É a Irene Aguiar. Foi Miss Portugal no ano passado, respondeu o Cláudio. Com esta não esperava. Nunca supôs que na terra onde o Judas perdeu as botas, havia gajas tão esbeltas, nomeadamente uma Miss. Mas adiante, vamos lá á jogatina. O Bingo, mais uma novidade para mim. Este jogo de sorte e azar que agora é muito popular, na altura era completamente desconhecido para mim. O Cláudio informou-me das regras. Pedimos dois cartões e lá estivemos a jogar. Cerca das 23,00 horas resolvemos deixar o jogo. Contamos as moedas que tínhamos e o resultado foi positivo. Eu tinha efectuado dois Bingos e cinco linhas. O Cláudio tinha concretizado um Bingo e seis linhas. Ambos tivemos um lucro de 50$00. Resolvemos gastar esse dinheiro, fomos para o Bar, onde pedimos lagosta e cerveja. Bons tempos, cinquenta paus deu para a super ceia.
Efectivamente, o lucro deu para despesa e para a gorjeta. Na medida em que já passava da meia noite quando deixamos o Clube, fomos, directamente, para a messe de sargentos do batalhão. Amanhã será outro dia e só queremos viver um dia de cada vez.

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