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Mueda, rumo Omar.


Mueda, rumo Omar.
A estadia em Mueda, foi apenas por uns dias, todavia, deu para ver e sentir o cenário que iríamos encontrar durante a estadia em Cabo Delgado, nomeadamente em Omar. A mensagem inscrita numa placa à entrada Mueda, quem vinha de Montepuez, era incisiva e bastante elucidativa, dizia: “ Benvindos a Mueda. Terra da guerra. Aqui trabalha-se, luta-se e morre-se. Checa é pior que turra”. Contudo, não era necessária a mensagem deixada por algum “velhinho”, constatava-se, sem qualquer dificuldade, a severidade e a crueldade do clima social e bélico que ali se respirava. O vai e vem dos helicópteros, uns armados com o heli-canhão, outros transportando tropas, outros ainda, a transportarem feridos do local do reencontro com a frelimo para o hospital de Mueda, e ou daqui para Nampula. Os aviões, a levantar e a aterrar no aeródromo militar. Os Fiat, aviões super-sónicos, produziam um som muito mais forte que mil trovões. Era, de facto, assustador. Seguidamente, fui à morgue, ainda no sentido de apurar se o corpo do Camões, meu ex-camarada das Caldas da Rainha e de Tavira, ainda se lá encontrava. Mas, não, já tinha seguido para a Beira. Contudo, a presença de vários cadáveres, alguns a serem preparados para serem enviados para a Metrópole, eram sinais evidentes que o verdugo andava por perto.
No dia aprazado, a coluna, logo ao nascer do sol, cerca das 4,30 horas, já se encontrava alinhada para sair. Com efeito, a mesma destinava-se a Omar, nosso destino e Mocímboa da Rovuma, destino da CCS (Companhia de Comando e Serviço) do Batalhão. Recordo que um Batalhão era composto por quatro Companhias, uma CCS e três operacionais, as outras duas Companhias Operacionais, foram sediadas em Nazombe e Negomano, também em Cabo Delgado, o acesso a estas localidades, ficavam mais para Este, era efectuado por outras vias. Portanto, até ao Posto de Água 34, o percurso era comum, tanto para a CCS como para a minha Companhia. Aqui, a picada dividia-se em duas, uma para norte, para Omar, mais 34 KM e a outra para Noroeste, para Mocimboa do Rovuma, mais 20 KM. Em termos militares, quem geria e coordenava a coluna era uma Companhia de Mueda, comandada pela Capitão Valente. Nestes termos, era o pessoal de Mueda quem abria a coluna, eram eles quem efectuavam, através da picagem e da sondagem electrónica, a presença de minas, anti-pessoal e anti-carro, eventualmente colocadas na picada pelos guerrilheiros da Frelimo. De facto, era o maior flagelo que se podia encontrar. Neste particular o perigo estava dissimulado na areia da picada e quando não detectado proporcionava prejuízos enormes, tanto no pessoal como no material. Muitas vezes, após a explosão da mina, controlada ou não, seguia-se uma sessão de morteirada. Mas não só, também estávamos sempre expostos e á prova de alguma surtida inimiga. As emboscadas eram, normalmente, abertas pelo inimigo à cabeça da coluna, visto ser o nosso elo mais fraco. Os picadores levavam a arma a tiracolo, pois tinham que manejar a pica, o engaço ou detector e para isso, precisavam das duas mãos. Obviamente que atrás de qualquer um deles ia outro camarada a protegê-los, porém, a reacção tinha que levar em linha de conta a presença, à sua frente, do já referido picador. Havia, ainda, a MG montada no “rebenta minas”, todavia, o atirador tinha que ter o cuidado e a calma necessária para não baixar muito o fogo, senão podia atingir algum camarada. A coluna era composta por cerca de quarenta viaturas. Realmente, para a carga dos géneros alimentícios eram utilizadas viaturas civis. Também, transportavam as peças auto e sobresselentes, bem como combustível para as viaturas usadas no aquartelamento.
Lá foi dada a ordem de avançar, ronceira e vagarosamente a coluna, começou a movimentar-se. A minha Companhia foi colocada na cauda, logo apenas faríamos segurança à retaguarda. Como é óbvio, o conselho dado ao pessoal foi de muito cuidado e muita atenção. Antes de chegarmos ao Posto 34, recebemos a informação que o pessoal de Omar, que vinha buscar a coluna ao já citado posto, fora vítima do rebentamento de uma mina anti-carro, no KM 48. Consequentemente, a 20 KM de Omar. Nesta conformidade, alegaram a impossibilidade de regressar ao aquartelamento para substituir a viatura acidentada e, por outro lado, também adiantaram a incapacidade de avançar, sugerindo que a espera da coluna se fizesse naquele local. Outrossim, foi referido que já teriam sido sujeitos a ataques de morteiro, durante várias vezes, porém, sem que fosse causada qualquer vítima. Quem não gostou desta realidade foi o pessoal de Mueda, na medida em que perante este facto tiveram que conduzir a coluna até ao local já referenciado. Alguém alvitrou que avançasse a nossa Companhia, contudo, prevaleceu o bom senso e isso não aconteceu. Não esquecer que nós éramos “checas” fresquinhos, por consequência não possuímos prática nem experiência neste tipo de acção.
Chegamos ao famoso Posto 34. Sem qualquer confirmação, foi-nos dito que foi neste posto que começou a insurreição civil contra Portugal, nos anos sessenta, por parte das populações locais, muito particularmente da etnia maconde, em resposta á obrigação das populações de pagarem a água que ali era recolhida. Foi chamada a guerra da quinhenta (quinhenta=50 Centavos do Esc.), pois esse era o preço de uma lata com a capacidade para dez litros de líquido. Aqui chegados deu-se a separação da coluna, metade para Mocímboa do Rovuma e a outra metade para Omar. O avanço continuava a dar-se lento, porém, seguro. Seriam cerca das 14,00 horas, quando chegamos ao local onde se encontrava o pessoal de Omar. Imediatamente se iniciaram as manobras para engatar a viatura minada e virá-la de sentido, a fim de que, deste modo, continuarmos a viagem até ao nosso destino. O quadro que se nos deparou não foi nada agradável, a viatura metida num buraco com mais de três de diâmetro, originado pela explosão da mina. As rodas, bem como o eixo da frente tinham desaparecido. No tocante ao pessoal, a notícia boa, pois não houve vítimas, não obstante o condutor e o apontador da metralhadora terem tirado um curso de pára-quedas, sem pára-quedas. Isto é, foram atirados ao ar pela explosão tendo, ambos, caído no meio do capim. Felizmente, para eles apenas sofreram umas pisadelas e alguns arranhões. O que, na realidade, incomodou foi o aspecto do pessoal, sujo, a maior parte deles com a barba crescida, farda bastante coçada e, em todos, sem excepção, se vislumbrava um ar enorme de sofrimento e de grande ansiedade. Constatou-se, ainda, a pressa que aqueles tinham em abandonar o local, diziam que a zona mais perigosa da picada era entre os KM 44 e 54, por conseguinte, quanto mais depressa saíssemos dali, melhor. Por outro lado queriam chegar ainda nesse dia a Omar, pois já tinham dormido duas noites na picada, onde o perigo era latente e as condições de defesa eram demasiado precárias.
Depois de efectuadas todas as manobras necessárias, a coluna retornou ao movimento e, para gáudio e admiração dos “velhinhos” de Omar, a coluna arribou ao aquartelamento, já o sol se tinha posto, embora fosse dia, sem que tivéssemos sido molestados pela frelimo. O que aliás era uma excepção, pois segundo eles, jamais tinha havido uma coluna para Omar sem barulho e sem baixas, e aquela, pelo menos para nós, correu, dentro das limitações normais, muitíssimo bem.
Posso dizer sem qualquer tipo de embargo que nunca gostei tanto de Omar como naquele dia, pois foi o termo de uma jornada cheia de angústia, sofrimento e consumições, foi como alijar uma carga dos ombros que nos incomodava até ao tutano. Enfim, foi um alívio. Alguém disse, precipitadamente, “nem tanto ó mar nem tanto à terra”, pretendendo com a alegoria dizer, que aquilo que se tinha ouvido sobre Omar, no que concerne á perigosidade do lugar, afinal não era tão verdadeiro como isso. Mas depressa um “velhinho”, sabiamente, avisou: Não se fiem no que aconteceu, ou não aconteceu hoje. Olhos abertos e sempre alerta. A ver vamos.

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