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O meu primeiro dia em África


Na Beira, foi recebida a notícia da primeira baixa – morte – de um elemento pertencente ao Batalhão. Há cerca de oito dias tinha arribado àquela cidade a CCS. Com efeito, num fim do dia da chegada, o pessoal teve permissão de sair até á meia noite, pelo que a maioria, em grupos, aproveitou esse facto e veio descontrair até á cidade. Um desses grupos, composto por cinco elementos, na marginal, preparava-se para atravessar a mesma. O Figueiredo, o primeiro do mesmo, antes de colocar o pé no asfalto, olhou para esquerda, e como não vislumbrou nenhuma viatura colocou o pé na estrada para olhar á direita. Mas, quando o fez, de imediato foi colhido com violência por uma viatura que rodava da sua direita para esquerda. Teve morte imediata. O seu corpo foi projectado a cerca de 30 Metros. Segundo os colegas de grupo, nem gemeu. O cadáver foi transportado para a morgue do hospital civil e aí entregue ás autoridades militares. A família, residente numa aldeia recôndita de Trás-os-Montes, no Concelho de Vila Flor, recebeu um telegrama o qual dizia: Informamos a família de Alberto Carlos Gonçalves Figueiredo, que o mesmo faleceu, vítima de acidente, no pretérito dia 18 de Fevereiro de 1972, na cidade da Beira, Moçambique. Brevemente a família será avisada da chegada do corpo a Vila Flor. Assinado EMGFA.
Realmente, esta notícia mais, baralhou-me, para mim esta vida é mesmo dura sem, mesmo, a merda da guerra.

No fim da tarde e quando os tramites e questões formais estavam terminadas. Juntamente, com mais quatro camaradas, fomos conhecer a cidade da Beira. Jantamos ao Restaurante Oceânia, sito na Av. Marginal. Naquela noite não podia haver restrições gastronómicas. Ficava-se na dúvida quanto á ordem dos pratos. Podia ser a última ceia. Consequentemente, meus amigos, foi fartar vilanagem.
Começou-se por camarões grelhados. Seguidamente foi lagosta suada. O prato de carne foi lombo de vaca assado, com batatinhas salteados. Tudo acompanhado, com vinho verde branco Lagosta para o marisco e o Mateus rosé para a carne. Sobremesa, natas do céu e para rematar um café e um uísque velho. No fim do repasto, regalados e bem dispostos, colocou-se a questão: Para onde ir? Nesta altura, alguém alvitrou uma ida até á Metacolia. Efectivamente, era zona dos bares, na sua maior parte frequentada por soldados, onde estes podiam encontrar as meninas de companhia e ou de alterne. O alvitre foi aceite por unanimidade. Lá fomos munidos de boa disposição e com enorme vontade em nos divertir.
Eram cerca das 22,00 horas. Entramos no Bar Night Star, o clima estava bastante calmo, em claro contraste com o som de uma ritmada marra benta que irradiava de uma caixa de discos. No mesmo encontrava-se o barman, dois seguranças, bem como seis mulheres e dois cliente. Duas brancas e as restante africanas, sendo certo que três delas eram mulatas. Uma das brancas, já quase quarentona, dirigiu-me dizendo:
-         Oh filho não pagas uma taça?
-         Pago o quê?
-         Oh filho, para te fazer companhia e conversar um pouco preciso de molhar a garganta.
-         Precisas o quê? Olha para esta. Oh filha eu não quero conversar. Eu quero e preciso é de molhar o pescoço. Mas podes ter a certeza que não é contigo. Faz-te á vida para outro lado.
Avaliei o ambiente, bebi o primeiro uísque. Observei com a atenção a fauna feminina e decidiu-se por uma negrinha. Acercou-me dela e chamei-a para a minha mesa.
-         Como te chamas?
-         Sou a Vanessa, respondeu a negrinha.

Neste particular não me surpreendi. As putas, na Metrópole e em Moçambique, tinham todas o mesmo nome. A quarentona era a Marlene a outra branca era a Lisete, as mulatas eram a Cátia, a Elisabete e a Martina.

Entretanto, o diálogo continuou.
-         Oh, Vai Nessa. Não me queres mostrar a tua vivenda?
-         Mostro. Mas o preço da viagem são vinte escudos.
-         No problems, aceito o preço, let`s go. Tinha que falar Inglês, ou não estivesse no Night Star...

Saíram os dois percorrendo um caminho ladeado por palhotas. A Vanessa á frente e o Lucas atrás sem perder o contacto físico com ela. Entraram, numa das palhotas, sem luz eléctrica e á luz de um candeeiro, á luz da lua era demasiado romântico, claro que houve farra. Desta vez, embora o calor fosse sufocante, não me queixei do mesmo. Passado cerca de uma hora paguei o serviço e com a companheira de ocasião regressei ao Bar. Foi assim o seu baptismo sexual, nada racista, em África. Gostei, contudo, por razões higiénicas estava receoso, não se tinha munido da “borrachinha” e na palhota não existia uma gota de água para me lavar. Não há-se ser nada, pensou eu, a blenorragia não deve atacar á primeira, era preciso ter azar se isso acontecesse.
Com surpresa constatei que os meus camaradas não se encontravam ali. Perguntei ao barman por eles. Este respondeu que tinham ido fazer o mesmo  que eu havia feito. Enquanto a Vanessa não arranjou outro cliente ainda estive na conversa com ela. Ela disse-lhe que tinha dezoito anos e era natural de Quelimane, estava naquela vida há pouco tempo. Interrompeu a conversa, porque no bar entrou mais um grupo de checas (Checas = soldados recém chegados a Moçambique), tendo-se dirigido aos mesmos. Bebi uma cervejinha fresca, uma Laurentina, dado que não queria continuar nos uísques, pois já tinha bebido três e com sede que estava se continuasse nos uísques, embora baptizados com coca cola, apanhava uma piela que, por certo, o arrumaria. Cerca da meia noite, já estavam todos despachados. Recolheram á messe de sargentos que ficava na marginal, mesmo em frente á praia. Ainda alguém sugeriu um mergulho no mar. Todavia, o bom sendo imperou e todos se recolherem, foi, de facto, uma noite em cheio


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