Chegada a Moçambique
Dedico este diário, ficcionado, aos meus camaradas da CCaç 3495, em especial a Manuel Gaspar, Barros Reis, Vítor Nunes, Rondinho Uaera e Tomás Tembe.
Seriam cerca das 17,00 horas, do dia 23 de Fevereiro de 1972, quando o avião, Boeing 707 da FAP, deixou Lisboa, o casario da cidade começou a ficar minúsculo. O Tejo começou a parecer um pequeno riacho. Pouco tempo depois deixamos de vislumbrar terra. Nesta viagem fomos acompanhados pelo movimento aparente do sol, razão pela qual só anoiteceu cerca das 21,00 horas. Ainda chegamos a ver as Ilhas Canárias. Daí para frente apenas escuridão, todavia, de longe a longe lá aparecia uma pequena luz que seria de algum barco que, solitariamente, navegava pelas águas escuras do Oceano Atlântico.
Cerca das 22,00 horas foi servido o jantar. Carne guisada com ervilhas, salada de legumes, recipientes com compota de fruta, iogurte, pão e bebida e, finalmente, café. Mal o pessoal de cabina do avião terminou a recolha dos apetrechos utilizados no jantar, o Comandante do mesmo, Coronel Tomás, determinava que fossem apagados os cigarros, que fossem apertados os cintos pois iríamos efectuar uma aterragem, técnica, na cidade de Luanda. Esta aterragem já estava programada, consequentemente, foi sem qualquer surpresa que a mesma foi recebida pela totalidade dos passageiros.
Um pouco antes da meia-noite, o avião começou a perder altitude e, quase de imediato, no horizonte começaram a aparecer as luzes da cidade de Luanda. A iluminação pública da baía daquela cidade começou a perceber-se com maior nitidez. Momentos depois o avião tocou o solo e começou a roncar cada vez mais, simultaneamente, ia perdendo velocidade. No fim da pista efectuou inversão de marcha vindo a imobilizar-se na placa giratória de passageiros. O Comandante Tomás comunicou que a paragem iria demorar cerca de uma hora, para reabastecimento e verificações técnicas. Por consequência, todos os passageiros teriam que abandonar a aeronave. Realmente, foram conduzidos para uma sala de espera, situada dentro da gare do aeroporto. Obviamente que não foi permitido aos passageiros abandonar a referida sala pois encontravam-se em trânsito.
Foi aqui que apanhei o primeiro choque, e desta vez apenas foi térmico. Com efeito, os 34ºgraus de Luanda contrastavam gritantemente, com os 8ºgraus que faziam em Lisboa. Livrei-me do blusão e da gravata e, emborquei, quase sem parar, duas cervejas Nocal, a sede provocada pelo calor e pelo nervosismo da viagem ficou quase incólume. Não há dúvida que marchavam mais uma ou duas cervejolas. Contudo, contive-me, pelo que o restabelecimento de líquidos ficou por ali. No entanto, reparei que em Angola, a linguagem já não era a mesma de Portugal, isto vem a propósito do pedido da cerveja efectuado. Na verdade, quando cheguei ao balcão do Bar da sala de passageiros em trânsito de Luanda, gerou-se este diálogo:
Uma cerveja, s.f.f.
Empregado: - Normal, média ou bazzoka.
Fiquei intrigado, porém, para não dei ar de quem não percebe do assunto, respondi:
- Uma média. Isto para ficar no meio-termo, pois não fazia a mínima ideia do conteúdo de cada garrafa.
Seguidamente o empregado apresentou uma Nocal de 50 CC de cerveja, sôfrego, sorvi de uma só vez. De imediato, solicitei outra. O Empregado quando reparou na rapidez que eu bebi as bejecas, disse-me:
- Melhor seria o senhor ter pedido uma bazzoka. Quer dizer que uma bazzoka era uma garrafa de litro de cerveja. Isto vem a propósito, porque naquela altura na Metrópole, só existiam garrafas de cerveja de 33 CC.
Ainda nesse Bar deu para ver a existência de bebidas novas, como a Coca Cola e a Seven Up, bebidas totalmente desconhecidas em Portugal Continental. Aliás, deu-se um episódio curioso com o Nunes, quando este pediu ao empregado uma sete upe, lendo literalmente a inscrição da garrafa “ 7 Up”. Aquele riu-se e referiu ao Nunes que por certo ele queria uma SEVEN UP, e não uma sete upe. O Nunes não gostou do reparo e, meio aborrecido, disse-lhe que não estava na África do Sul, nos EUA ou na Inglaterra. Estava em Angola, supostamente uma província portuguesa e, portanto, só falava em português. Nesta conformidade, o que, efectivamente, queria era uma sete upe.
Pronto, a garrafa fresquinha lá veio, sem comentários do empregado, mas com um sorriso irónico. A sete upe ou seven up, lá marchou.
Já passava da uma hora quando os passageiros receberam ordem para reembarcar no avião.
Calma e serenamente o Boeing 707 lá levantou voo, deixando Luanda debaixo de um calor húmido e sufocante. O sol começou a mostrar-se no horizonte, seriam cerca das 4,30 horas. Este facto - mais um - causou me estranheza. Com os meus botões ia pensando, porra já é dia a esta hora. Não levou muito tempo que o Comandante Tomás, alto e bom som, advertisse a cabina que deveriam ser apagados os cigarros e apertados os cintos de segurança, pois estávamos a prestes a aterrar no Aeroporto da Beira, onde a temperatura ambiente era de 36ºgraus, não sem quanto de humidade e não havia vento. Perante este aviso, disse ao Gaspar que viajava ao meu lado:
- Ali deve ser a porta do inferno.
- Nunca se sabe, disse o Gaspar.
Realmente a Beira não era a porta do Inferno. Contudo, para mim poucas diferenças deveriam existir. O ar quente e húmido daquela cidade era quase irrespirável, estávamos na Estação das chuvas. Os mosquitos, vindo das margens pantanosas do Rio Chibeve, pegavam-se ao corpo pegajoso de suor, provocado pelo tal calor húmido. O sol batia forte. Havia na verdade um clima de desconforto, que originava uma enorme confusão na minha cabeça. Estava, na verdade, completamente desorientado. Aliás, comentei para o Barros.
- Se um gajo não morrer na guerra, morre concerteza deste calor.
- O.k. pá. Mas para obstar essa morte vamos ver se nos despachamos, para ver se bebemos uma imperiais fresquinhas, acompanhadas com camarão, pois segundo sei, o camarão, em Moçambique, é mais barato que o tremoço na Metrópole. Respondeu o Barros.
A cidade da Beira não era uma grande cidade, porém, uma cidade airosa, situada á beira-mar, junto á foz do rio Chibeve. O aeroporto situava-se a cerca de 5 km da cidade, sendo certo que a ligação se fazia por uma boa estrada larga e alcatroada.
A bagagem foi recolhida. O pessoal da Companhia dirigiu-se, com as mesmas, para as viaturas militares que ali os esperavam. Com rapidez as bagagens foram retiradas do avião e colocadas nas já referidas viaturas. O pessoal acantonou-se como pode nas Berliets. Os Oficiais e Sargentos efectuaram-se esse trajecto numa carrinha Mercedes de transportes de passageiros. Instalei-me ao lado do condutor. Esta viatura era a que abria a coluna militar. Foi dada a ordem de avançar e, desde logo, não gostei do modo de condução do condutor. Conduzia a viatura do lado esquerdo da estrada a uma velocidade que se aproximava aos 100/Km-hora. Não teci qualquer comentário, até porque na viatura seguiam oficiais e, pelo certo, também deviam reparar na condução, menos esmerada do condutor em causa. Diga-se que este era africano, sempre com um largo sorriso, mostrando os dentes incrivelmente brancos que contrastavam com a sua tez, extremamente escura. O seu nome estava estampado por cima do bolso esquerdo da camisa da farda - Rondinho Uaera -.
O trânsito era pouco. Porém, a rolar sempre pela esquerda. Enxerguei lá no fim da recta, cerca de 2 km, uma viatura que vinha em sentido contrário. Mas o Rondinho nada de nada. Calma e serenamente lá ia pela esquerda a quase 100 km/hora. A outra viatura cada vez mais perto. Comecei a remexer-me, inquieto, na cadeira e já não estava a achar muita piada á maneira de conduzir do Rondinho. Contudo, o mais estranho da situação é que ninguém reparava na cena. Parecia uma brincadeira de mau gosto que me queriam pregar. Quando se encontrava a cerca de vinte metros da outra viatura não me contive. Dei um enorme berro ao condutor:
- Foda-se. És cego, não vês a outra viatura. Volta para a tua mão. Querendo com isto dizer para se encostar á direita. O Rondinho, assustado com o berro de imediato e instintivamente travou a viatura com violência. A medo perguntou:
- Que se passa meu Furriel?
- Puta que pariu. Este gajo tem uma lata do caralho. Ainda pergunta o que se passa. Oh pá, tu não viste a viatura que vinha em sentido contrário. Por pouco não chocamos de frente, ias completamente fora de mão.
- Sorrindo, disse: Desculpa meu Furriel. O senhor está enganado. Eu ia na minha mão. O outro carro ia na mão dele. Não se passou nada, nem se podia passar. Não se esqueça que o trânsito em Moçambique rola pela esquerda. Mais um facto estranho…
Bem, não sabia onde meter-me. Se achasse um buraquinho por mais pequeno que fosse, meter-me-ia lá. O riso foi geral e a chacota imensa. Até o Rondinho, gozou, silenciosamente, o panorama…
Depois deste episódio pitoresco lá chegamos ao Batalhão. Procedeu-se aos actos formais que era necessário levar a efeito. Recebeu-se o armamento individual. Olhei para a minha G3, verifiquei que a mesma, embora usada, se encontrava em bom estado de conservação. Notei que a mesma tinha cinco riscos na coronha. Comparando com aquilo que os cow boys faziam nos westerns, cheguei á conclusão que tal arma já teria abatido cinco inimigos. No entanto, também conclui que poderia ter sido presunção do utilizador anterior da arma em questão. Finalmente pensei, não quero acrescentar nenhum risco á arma. Mas também não queria que algum elemento da Frelimo acrescentasse um risco á arma dele, pelo facto da vítima ter sido eu próprio.
Luís Guimarães
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