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A minha Escola de Futebol II


De uma forma generalista, no pretérito mês de Março já escrevi sobre a minha escola de futebol.Com efeito, a mesma situava-se no Bairro da Misericórdia e teve início nos 60. Todavia, neste escrito apenas vou, como dizem os gatos fedorentos, esmiuçar o campo da escola, na medida em que este recinto de jogos, foi o primeiro e utilizado todo o ano pela miudagem do Bairro. Consequentemente, posso considerá-lo o mais importante na nossa formação. Como já referi anteriormente, o campo era triangular. Efectivamente, do lado sul – era mais largo – e a baliza era definida pela entrada lateral do alpendre, tinha – mais ou menos – as medidas das actuais balizas de futebol de sete, do lado norte, era mais estreito, a baliza era marcada por duas pedras o que motivava sempre discussão sobre um eventual golo, pois a altura da baliza e as laterais eram sempre defendidas antagonicamente, consoante fosse a equipa que ataca ou que defendia aquela baliza. Face a essas características os cantos desse lado eram marcados á mão. O piso era mais ou menos regular, do lado nascente era limitado por um muro, com cerca de três metros de altura que separava o recinto da Quinta do Zé Maria, nome como conhecíamos a Quinta das Amoreiras, do lado poente, não havia vedação, existia um muro suporte, com cerca de 1,30 m, de desnível para a Rua Dias da Silva.
Durante o tempo de aulas o campo era utilizado e creio que ainda é como pátio de recreio da Escola Primária do Bairro da Misericórdia, onde aliás, aprendi a ler e a escrever. Com efeito, entre 1957 e 1961, frequentei as quatro classes da primária, a minha professora foi a D. Maria de Lurdes Prieto, a quem nos referíamos como a Professora Lili. Obviamente que neste período de tempo, em termos de futebol, por motivos óbvios, apenas utilizávamos o campo para os nossos jogos nos fim de semana, sendo certo que ao Sábado, apenas utilizávamos o campo a partir das 15,30 horas, hora em encerrava a escola. Realmente, as equipas formavam-se consoante o pessoal que ia chegando, era dois contra dois, três contra três, se houvesse um número ímpar de potenciais jogadores o último esperava que chegasse um outro para poder entrar. Porém, uma coisa é certa nunca se ultrapassava os oito contra oito, doutra forma não cabíamos no campo. Contudo, nas férias, tínhamos que ir cedo para o campo, senão corríamos o risco de não fazer gosto ao pé, pois a afluência era enorme, já que os jogos começavam pela manhã e acabavam ao fim do dia, somente era interrompidos á hora do almoço, e mesmo assim era imperioso que as mães de alguns de nós, nos chamasse com alguma insistência ou, pior do que isso, com alguma ameaça. Neste particular era famosa a Aninhas, não chamava duas vezes, se o Elísio ou o irmão não acorressem de imediato ao chamado era certo e sabido que quando chegassem a casa iam pagar com o corpo.
Por vezes e para dar alguma competitividade, dividiam-se as equipas , em bairro velho e bairro novo, isto é, o bairro velho, na nossa óptica, era composto pelas casas construídas numa 1ª fase, o bairro novo, era constituído pelas casas construídas nas 2ª e 3ª fases do Bairro da Misericórdia. No que me toca, nesse aspecto, eu era um felizardo, pois eu residi entre 1956 e 59 no bairro velho, e partir daí passei a morar no bairro novo. Por conseguinte, eu tinha lugar em qualquer das equipas, se morava num sector, por outro lado já tinha morado no outro, na realidade acabava por ter um estatuto especial. Os jogos decorriam sempre com grande animação e entusiasmo, logicamente que não havia árbitros e no que concerne a faltas apenas se marcavam as mãos e as bolas fora. No primeiro aspecto e em determinadas circunstâncias havia polémica, pois quem sofria a falta alegava falta de intencionalidade e quem usufruía da mesma é lógico que tinha opinião contrária. As discussões eram mais acesas quando o resultado era mais equilibrado, mas acabava por haver unanimidade e o jogo logo seguia com a marcação da falta ou não. No tocante às bolas fora não havia muita polémica, porque nas laterais, dum lado a bola tinha que vir para a rua e do outro lado tinha que ultrapassar o tal muro que possuía três metros de altura. Nas linhas de fundo, tínhamos o cuidado de traçar um risco no solo para demarca o campo, mas mesmo assim, de vez enquanto não havia acordo no facto de bola ter saído ou não. Havia também o problema dos golos na baliza do lado norte que já aludi no princípio do escrito.
 Principalmente no tempo de férias tínhamos que ter cuidado com a polícia, não era com muita assiduidade, mas, por vezes, o patrulheiro ou brigada móvel apareciam por lá e nós tínhamos que dar às de vila Diogo, pois se fossemos apanhados era certo e sabido que os nossos pais iriam ser responsabilizados pela quebra das telhas que partíamos durante as nossas pelejas desportivas. Recordo que a baliza sul, como já referi, era a entrada lateral do alpendre, portanto tinha um beiral. É rigorosamente verdade que no final das férias esse beiral face às boladas que ali embatiam ficava sem uma telha. Nunca fomos apanhados pela polícia, todavia, isso não obstou que os pais de alguns de nós, todos os anos, fossem chamados a PSP para ressarcir a escola da reparação do beiral. Havia sempre quem “bufasse”. Porém, nesse aspecto eu tive sorte, nem eu nem os meus pais foram chamados para esse fim.
Alguns desses jogos tinham um fim, mais menos, trágico, lembro-me do Tone barbeiro, ter partido ou deslocado lá a omoplata. Foi conduzido ao hospital de São Marcos onde foi tratado. Quando chegou ao Bairro o pessoal de imediato lhe perguntou pela gravidade da lesão. Ele qual herói da banda desenhada, dizia a lesão foi grave, contudo, aguentei tudo e para emendar o ombro meteram-me uma “bareta”. O que ele disse, doravante deixou de ser Tone barbeiro para o ser o Tone “bareta”.
Noutra ocasião, num domingo, depois da missa do Carmo, logo trajava um fato domingueiro, antes de ir para casa passei, como sempre, no campo da escola. Lá estava a decorrer mais uma partida. Estava um rapaz de fora e quando me viu chegar logo se me dirigiu para entrarmos em jogo. Sem pensar aceitei de imediato o convite e lá fomos para a refrega. Era um Domingo de Novembro cheio de sol e frio. O campo esteva empapado face ao degelo, pois nessa noite tinha caído uma forte geada. Face ao piso escorregadio e a algum toque que sofri estatelei-me em cheio. Como não podia deixar de ser fiquei com o casaco e as calças completamente cheios de lama, meio choroso matutava comigo como é que havia de ir para casa naqueles termos. A minha salvação foi o Lino Veloso, mais velho que eu e que morava mesmo em frente à Escola. Foi a casa buscar uma cadeira onde colocou o casaco e lado da mesma permaneci imóvel mais de duas horas para que a lama secasse. Depois de, seca a lama, escovou-me o casaco e as calças e embora não ficasse completamente limpo o meu vestuário ficou mais ou menos disfarçado. No entanto, isso não obstou que quando cheguei a casa a minha mãe me ter dito se eu tinha andado a “espolinhar-me” no chão como as galinhas, pois a roupa estava amarelada do pó. Ai se ela soubesse a verdade, era certo que o corpo ia pagar, pois a cabeça não tivera juízo.
Sou saudosista, mas não quero que tempo volte para trás. Mas que tenho saudades desses tempos, tenho.

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