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Mueda, terra de minas e morteirada.


O sol tinha acabado de nascer e o corrupio de viaturas no Batalhão Operacional de Porto Amélia mais parecia o trânsito caótico de Lisboa em hora de ponta. Com efeito, a coluna de transportes começava a formar-se. A mesma era composta por viaturas civis, cerca de 500, e cerca de 100 viaturas militares. Estas colunas eram aproveitadas para efectuar a reabastecimento de géneros alimentícios (secos) às Companhias Operacionais que se encontravam no Sector D (Mueda). Paralelamente, também havia o reabastecimento do comércio civil, pois para aquela zona nenhuma viatura civil viajava sem escolta militar.
Abria a coluna uma viatura berliet artilhada do exército, esta viatura era protegida lateralmente, com um dupla barreira de madeira e no seu interior havia areia. O chão da carroçaria da mesma também estava coberto de areia, no meio da mesma encontrava-se montado um morteiro 81 MM. Ao lado do condutor ia montada uma metralhadora ligeira MG, esta viatura era denominada pelo “rebenta minas”. Atrás desta viatura seguia um granadeiro, este carro de combate era blindado, contudo, sem possuir tecto. A terceira era outra berliet que transportava o 1º grupo de combate. Seguidamente, entre cinco viaturas civis seguia uma berliet com um grupo de combate. Havia ainda outras viaturas de cavalaria tais como as Fox, espalhadas metódica e estrategicamente ao longo da coluna.
Eram 5,30 horas quando a coluna começou a movimentar-se, entre Porto Amélia e Mueda, devem distar cerca de 300 km. A minha Companhia foi colocada na cauda da coluna. Por consequência, a viatura em que eu seguia apenas tinha na sua retaguarda dez viaturas civis e duas viaturas militares, as que transportavam o 3º e o 4ºgrupos de combate. Fomos avisados, pelos mais velhos, que até Antadora não deviam existir quaisquer tipos de problemas com a Frelimo. Todavia, daí para a frente era preciso ir de olho aberto e com muita atenção. Esta chamada de atenção foi passada por mim aos meus comandados. Ordenei, também, que fosse verificado todo o material e as munições. Não achei por demais, por isso, dei, ainda, uns conselhos no caso de terem de reagir a uma emboscada efectuada pelo inimigo. O Alferes Nestor, comandante do meu grupo, entregou-me cinco dilagramas para reforçar o armamento. Porém, como esta arma é muito sensível e carece que o utilizador a conheça bastante bem e tenha muita calma a manuseá-la. Tal arma é disparada com a espingarda G3, utilizando uma bala sem projéctil. Houve acidentes quando o utilizador, por nervosismo ou por esquecimento, não trocava a bala que tinha na câmara e ao disparar a explosão do dilagrama, que era no fundo uma granada ofensiva, explodia na ponta do cano da G3 e provocava acidentes muito graves, na maior parte das vezes letais. Consequentemente, resolvi ficar com os dilagramas para mim, coloquei-os dois no cinturão, um na arma e os restantes guardei-os no meu saco de combate.
Barulhenta e vagarosamente a coluna começou a movimentar-se. Não obstante se saber que ainda nos encontrávamos em zona calma começou a apoderar-se de todos os elementos do grupo de combate, um nervoso miudinho. Essa realidade ficou patente no enorme silêncio que se fez quando deixamos de avistar Porto Amélia e a picada iniciou a infiltrar-se pela mata adentro. A primeira vez que se avistou uma paisagem humana foi quando chegamos a Ancuabe. De facto esta localidade composta na sua maior parte por palhotas, era ampla e limpa. As pessoas olhavam com curiosidade para a coluna e ficavam espantadas pelo seu comprimento, a mesma ultrapassava os 15 Kms. Passamos ainda por Chai e Macomia. Entre estas localidades e até Antadora, a coluna foi reforçada por um Esquadrão de Cavalaria, estacionado em Pundanhar. Perante uma avaria de uma viatura, estivemos parados cerca de uma hora. Sem descurar a segurança foi dada ordem ao pessoal para descer da berliet. Foi nessa ocasião que junto á minha viatura, parou uma Panhard, pertencente ao Esquadrão atrás referido, tendo saído um Furriel que se me dirigiu.
- Oh pá! Estás bom?
Ao mesmo tempo abriu os braços para me dar um abraço. Olhei-o e aceitei o abraço. Era o José Torcato, também conhecido pelo “Picareta” isto pelo facto do seu nariz ser bastante adunco. Este camarada também era de São Vicente e também tinha estudado no Liceu Nacional Sá de Miranda.
-         Que prazer é ver aqui, no fim do mundo, gente conhecida, respondi ainda abraçado ao meu amigo.
Desenvolveu-se a conversa do costume o Zé já estava em Moçambique desde Dezembro, perguntou novidades de Braga, respondi-lhe. Solicitei esclarecimentos sobre o percurso que seguiam. Respondeu-me que até ao Rio Messalo não devia haver problemas. Contudo, daí para a frente é que era preciso ter cuidado. O Zé também já tinha ouvido falar de Omar e quando soube que eu ia para lá, torceu o seu grande nariz, deixando-me os avisos do costume. Aquilo é mau, por conseguinte, é preciso ter muita cautela e prudência, olhos bem abertos e nunca facilitar.
Despedimo-nos desejando felicidades mutuamente. O Zé entrou na sua Panhard e seguiu em direcção da cabeça da coluna. Cerca de dez minutos após este encontro a coluna voltou a rodar. Passada meia hora, ao fundo avistou-se uma pequena localidade, era Antadora, antes de chegar á mesma, iam-se avistando cartazes, a dar as boas vindas aos “checas”, uns mais irónicos que outros, no entanto, todos eles mostravam boa disposição. Tal estado de espírito confirmou-se quando entramos na localidade que, na verdade, era um aquartelamento militar, vivendo lá, também, meia dúzia de civis. Efectivamente, do alto da torre de vigia que abarcava aquela entrada, via-se um militar eufórico a fazer a fazer a “reportagem” da chegada dos “checas”, em jeito de relato de futebol, ao mesmo tempo que manobrava uma máquina construída em madeira que imitava na perfeição uma máquina de filmar. Almoço em Antadora, e eu, em vez de comer ração de combate, preferi ir á messe de Sargentos onde comi duas sandes, uma de queijo e a outra de chouriço, era o que havia, acompanhei as ditas sandes com três cervejas médias, a primeira foi para limpar a garganta do pó da picada e as restantes cada uma por si acompanharam as sandes. Saímos dali pelas 13,30 horas, em princípio só havia quatro horas para chegar a Mueda o que poderia ser insuficiente. Como já disse Antadora ficava na margem direita ao Rio Messalo, este rio era largo e caudaloso, para mim foi uma aventura atravessar a ponte que ligava as duas margens do rio. Tal ponte, face á guerra, ficou por concluir, a mesma era de betão, não possuía guardas laterais, o piso era irregular, em alguns sectores até tinha buracos, pelos mesmos via-se perfeitamente o leito do rio que, segundo o pessoal de Antadora, se encontrava infestado de crocodilos. Havia pessoal que nem sequer abria os olhos tal era a impressão que a vista causava.

Chegamos a Diaca, mais um encontro com um camarada de Braga, era o Roque, este tinha estado comigo nas Caldas da Rainha. Mais abraços, mais conversas o Roque disse que o Camões, um moço que tinha estado connosco nas Caldas tinha falecido ao tentar desarmar uma mina na picada de Mueda para Nangololo. Disse-me, ainda, que o Figueira, que também era de Braga e tinha estado igualmente connosco nas Caldas se encontrava no Sagal, esta localidade situava-se entre Diaca e Mueda, por isso, iria encontrar mais um amigo. O Roque também me referiu que Omar era um “buraco”, era do pior que havia em Cabo Delgado. Disse-me ainda que entre Diaca e Sagal, existia uma curva que era chamada a “curva da morte”. Sem qualquer tipo de confirmação falava-se que naquele fatídico lugar, durante a Operação Nó Górdio, nos anos sessenta, havia sido chacinado um grupo de combate do nosso exército e que um dos poucos sobreviventes teria sido aquele que mais tarde seria o maior ciclista português de todos os tempos, o malogrado Joaquim Agostinho. Também se dizia que foi a primeira corrida que aquele ganhou., dado que, a correr foi dos poucos soldados a chegar a Diaca.
  Mais uma despedida. A coluna começou a movimentar-se, passamos incólumes na famosa curva da morte e lá chegamos ao Sagal. Aqui procurei o Figueira mas não o encontrei, ele encontrava-se no mato em missão de patrulhamento, só regressaria ao quartel daí a dois dias. Sagal tinha como base umas antigas instalações de transformação da indústria de algodão. A coluna em bom andamento, cerca de dez km/hora, lá ia avançando. Por volta das 16,00 horas, a coluna parou e esteve cerca de duas horas imobilizada. Esta paragem, ocorreu num sítio chamado “Chandrilho” situava-se a dez km de Mueda. No sentido em que a coluna rolava, tratava-se de uma subida bastante íngreme e arenosa. Face a esse aspecto geológico, as viaturas não possuíam aderência para vencer aquela subida. Nesta conformidade, naquela zona encontrava-se um pelotão de Engenharia, com a respectiva segurança, que com máquinas com lagartas (escavadoras), com a pá empurravam as viaturas da coluna até ao cimo da subida. Obviamente que esta operação era demorada, dado o grande número de viaturas que precisavam de ajuda, e daí essa espera.
Nesta espera, aconteceu, presumidamente, o primeiro encontro com a Frelimo, a ser verdade foi o baptismo de fogo da Companhia. A dúvida coloca-se, pois para mim, este episódio que até foi caricato, pareceu mais uma confusão ou precipitação criada por algum elemento da frente da coluna do que uma emboscada da Frelimo, vamos aos factos:
O sol já se tinha posto, ainda não era noite, mas a visão já não era muito clara. A viatura em que eu seguia encontrava-se, imobilizada, a 4 km do Chandrilho, logo as primeiras viaturas já tinham chegado a Mueda. De repente, na frente da coluna ouviram-se uns tiros e o pessoal da retaguarda sem saber o que se passava, saltou imediatamente das viaturas respondendo com fogo. Na medida em que me pareceu que aquilo não passava de um equívoco, pois se fosse de facto uma emboscada, a mesma estava a acontecer era na frente da coluna, e nestas circunstâncias, a retaguarda apenas tinha que tomar posições defensivas e esperar. Com efeito, de pé, em cima da viatura, comecei a gritar alto ao fogo e para o pessoal ter calma, quando de repente ouvi na outra ponta da viatura, alguém aos gritos.
- Ai, meu Deus que eu vou morrer... Ai, minha Nossa Senhora do Sameiro, não vou voltar a ver a minha mãe... Ai que estou muito ferido. Eram de facto gritos lancinantes e aí tive dúvidas, e pensei para mim, se calhar esta merda é a sério. Consequentemente, deitei-me de imediato na carroçaria da Berliet e a rastejar fui em direcção do local donde partiam os gritos. O soldado, era o Ferraz, que por sinal também era de Padim da Graça - Braga, estava completamente em estado de choque. Quando cheguei perto dele perguntei-lhe onde tinha sido atingido. Todavia, ele só chamava por Deus, Nossa Senhora do Sameiro e Todos os Santos, mas, não me respondia. Então preguei-lhe duas bofetadas com força, uma em cada face para ver se ele saia daquele estado e, efectivamente, o Ferraz acalmou, conseguiu dizer-me que tinha sido atingido no pescoço. Para confirmar, meti a mão no pescoço do Ferraz, baixei ainda às costas e disse-lhe:
-         Não vejo ferimento nenhum. Aliás, não vejo nem sinto nenhum sangue no pescoço nem nas costas.
-         Mas estou muito ferido, meu Furriel, eu vou morrer, adeus mãezinha querida, disse o Ferraz.
-         Puta que pariu, a bala que te feriu acabou agora, mesmo, de me ferir a mim. Ao mesmo tempo tirava das costas do Ferraz um invólucro, ainda quente, de uma bala de G3 que por certo outro camarada havia disparado ainda em cima da viatura.
Na realidade, o que aconteceu foi isso mesmo, o soldado que ia ao lado dele disparou de cima da viatura para responder á eventual emboscada. Por azar o invólucro, quente da explosão do cartucho, ejectado pela janela da G3, atingiu o pescoço descendo para as costas, provocando queimaduras, a mais latente no pescoço, acabando por descer para as costas ficando entre o corpo e a camisa do mesmo. A inquietação, o nervosismo e o medo desencadearam a reacção do Ferraz.
 Nesta altura a minha dúvida voltou ao princípio, houve ou não emboscada? De qualquer maneira o episódio embora caricato deu sinais daquilo que doravante podia acontecer. Porém, ainda ouviu uma queixa do Ferraz:
-         Porra, meu Furriel, ainda me dói a cara das chapadas que me deu...
Neste momento, o Ferraz não sabia se lhe doía mais a queimadura do pescoço, a cara ou a vergonha pelo sucedido.
Entretanto, lá chegou a nossa vez de ser impelidos pela máquina de engenharia e já passava das sete horas. Consequentemente, era noite cerrada quando chegamos a Mueda. Depois de acomodar todo o pessoal, dirigiu-me com os restantes Furriéis e Sargentos para a Messe do já referido Sector D. Após um banho refrescante fui jantar e o tema de conversa durante o mesmo foi a emboscada ou a suposta emboscada do Chandrilho. As opiniões dividiam-se...
Contudo, uma coisa era certa, o clima de Mueda já cheirava a guerra, era distintamente diferente do ar que se respirava na Beira ou Porto Amélia. Nesta localidade, já eram visíveis as torres de vigilância, tanto nas instalações do Exercito como da Força Aérea. As conversas já se referiam a operações militares, a dificuldades que, eventualmente, se poderiam encontrar na próxima missão, fosse ela um patrulhamento, assalto a uma base inimiga ou á segurança de uma coluna. Outro sinal era o facto da população autóctone estar devidamente acantonada em aldeamentos. A placa identificativa da povoação, que se achava na entrada da mesma, era elucidativa: Mueda, terra de minas e morteirada.

A localidade era, essencialmente, um baluarte militar embora existisse população civil. A população indígena vivia num aldeamento. Havia um comerciante europeu que era conhecido pelo Santos e um outro paquistanês conhecido por China, vendiam de tudo, vestuário, artigos para alimentação, óculos, rádios de pilhas, artigos de higiene e limpeza, etc. Aqueles estabelecimentos, realmente, eram o pronuncio daquilo que mais tarde se tornou banal - os supermercados. No tocante, ao aspecto militar, ali se encontrava o Comando de Sector (D) que englobava um Batalhão Operacional, um Batalhão de Engenharia, um Hospital Militar, Companhias de Artilharia fixa, Serviços de Intendência e outros. Havia ainda a Base Aérea que tinha a sua própria segurança. No total, aquela localidade rondaria os 6.000 habitantes.
A saída para Omar estava marcada para 15 de Março. Na coluna iria também a CCS do Batalhão que iria para Mocímboa do Rovuma, na medida em que o percurso era comum até ao famoso Posto 34. Nesse local a picada bifurcava, para norte era Omar, mais 34 Kms e para Nordeste era Mocímboa do Rovuma, mais 20 km.

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