Bento do Carvalho
Não resisti à tentação de escrever sobre o imbróglio que o Ricardo Carvalho arranjou objectivamente com a Federação Portuguesa de Futebol, por via do desencontro de ideias que teve com o Seleccionador Nacional Paulo Bento.
Antes de mais importa dizer que este tipo de atitude é muito normal no desporto em geral e no futebol em particular. No desporto profissional este tipo de atitude é mais raro, na medida em que o atleta está mais exposto e, no fundo, precisa do ordenado ao fim do mês para viver. A “guita”, em princípio, vai para a conta bancária do atleta a jogar, sentadinho no banco ou, mesmo, na bancada. Aliás, no futebol, a apreciação que o atleta faz do treinador, normalmente, é, mais ou menos, a seguinte: Para o atleta que joga normalmente o treinador é um supra sumo, para aquele que é utilizado menos vezes, o treinador é bom, mas podia melhorar em determinados aspectos, finalmente, para o jogador raramente utilizado o treinador é uma besta e não percebe nada de futebol, só está no lugar por grande “cunha” ou porque é afilhado do Presidente.
É precisamente neste contexto que a atitude do Ricardo Carvalho deve ser avaliada. O atleta ia ficar no banco, logo, o treinador é … Para não ser malcriado ignorante e injusto.
Realmente, como parece, não ia ser utilizado no jogo contra o Chipre, pois é certo e sabido que um treinador só utiliza um defesa que está no banco de suplentes em circunstâncias muito especiais. Perante esta realidade, o Ricardo, com o estatuto futebolístico que possui, titular numa das melhores equipas do mundo, sub-capitão da Selecção, campeão disto e daquilo. É obvio que seria um “vexame” o público vê-lo sentado no banco, vai daí o abandono, sem prestar ”cavaco” a ninguém. Logicamente, que é uma atitude malcriada e reprovável, traiu princípios, mas nunca traiu a Pátria, nunca traiu Portugal. O conceito de Pátria está muito acima do chuto na bola, ninguém defende a Pátria, em calções e t-shirt, dando biqueiradas numa bola. Tenho estatuto para dizer isto pois já defendi a dita Pátria de arma na mão e gosto do futebol como ninguém, todavia, não misturemos as coisas. Consequentemente, o prevaricador não é nenhum desertor, nem, outrossim, o Paulo Bento é mercenário. Aliás, a falta é de tratamento disciplinar e não de tratamento penal. Na minha opinião, a haver castigo deve ser, aplicado e cumprido, apenas no âmbito do campo onde a falta foi praticada.
No meio de isto tudo, recordo-me de um problema que o Ricardo Carvalho teve com o José Mourinho, no tempo do Chelsea. Em determinada altura, também colocou a hipótese do treinador não perceber nada de futebol quando afirmou que não percebia os motivos porque não jogava. O visado apenas lhe disse para ir avaliar o seu (dele) QI. A par desta lição, o Ricardo Carvalho também tinha o exemplo dos seus colegas de Selecção, Simão Sabrosa, Paulo Ferreira, Tiago e Miguel, estes, inteligentes, quando cheiraram a hipótese de não serem, sequer, chamados ao lote de seleccionáveis, mandaram uma cartinha à Federação alegando que devido á idade, aos serviços prestados, “rebeu beu pardais ao ninho”, solicitaram a desvinculação da dita. Pelos vistos há um provérbio popular que se pode aplicar ao atleta “Burro velho não aprende línguas”, de facto o Ricardo Carvalho não aprendeu. Mas, não obstante ter sido um “bento” do “carvalho”, mas, como diz a canção, tudo passa, tudo passará… Na certeza porém que mais tarde ou mais cedo vai haver outros ricardos carvalhos e outros paulos bentos. É a vida.
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