A minha Escola de Futebol 4
Para encerrar o tema da minha escola de futebol, desta vez vou dedicar a escrita ao Campo dos Padres. Este campo situava-se na Mata da Ordem, onde se situa actualmente o Campo da Mata da Ordem, construído pelo Grupo Desportivo Bairro da Misericórdia, local assim chamado na medida em que o mesmo era pertença de uma Ordem Religiosa e utilizado pelos seus alunos para fins de recreio e desporto. O Seminário Menor existia na Estrada de São Martinho, para melhor localização, diga-se que na entrada do referido Seminário existia e ainda existe a Capela de São Lourenço, também popularmente conhecida por “Sé Velha”. Na Mata da Ordem, existia um campo de futebol, teria as medias de 30x60 metros, bem como um lago. Nesse lago, actualmente ainda existem vestígios do mesmo, havia uma fonte que o alimentava com uma água bastante pura, fresca e límpida. Havia também um barco. Consequentemente, estas condições proporcionavam condições óptimas para o divertimento. Jogávamos futebol, tomávamos banho no lago e bebíamos água fresca da fonte, para não falar de uma viagenzita de barco. Só que, exceptuando os últimos tempos de 1974 para cá, não obstante se solicitar permissão para poder utilizar as instalações, nunca o uso do espaço foi permitido pela direcção do seminário. Por consequência, durante o jogo da bola ou do banho no lago, se alguém gritasse “vêm aí os padres”, era recolher as roupas num ápice e fugir em direcção ao muro separador da bouça e saltar para o exterior. Por vezes a atrapalhação era tanta que nos estorvávamos uns outros e os arranhões e pequenas mazelas surgiam após o salto para a “liberdade”.
O campo embora não muito grande era plano e tinha balizas feitas com toros de pinheiro, todavia, perfeitamente quadrangulares. Era o melhor dos três que já mencionei. Os jogos aqui também eram disputados de modo informal. Com efeito, jogava quem aparecia, no entanto, se havia pessoal do Bairro da Misericórdia e do Bairro de São Martinho/Bairro Senhora do Monte, as equipas formavam-se consoante a localização das moradias dos intervenientes. As disputas eram sempre rijas e bem disputadas. Nessa altura para contrabalançar a existência do Grupo Desportivo Bairro da Misericórdia, naquela zona (Bairros São Martinho e Senhora do Monte) surgiu, fugazmente, o grupo denominado “Rangers of Texas”.
Efectivamente, em virtude do rectângulo de jogo, em área, ser quase idêntico ao Ringue Flávio Sá Leite, era ali que as equipas do Bairro da Misericórdia se preparavam para o Torneio de Futebol de Salão, efectuado anualmente, disputado naquele local e organizado umas vezes pelo Sporting Clube de Braga e outras pelo Académico Bascket Clube.
Importa referir que durante anos este campo e os dois referidos anteriormente, foram palco da formação de inúmeros atletas. Não havia treinador não existia director, era tudo efectuado apenas e só pela intuição. Realmente era o prazer de jogar à bola e os espaços livres ajudavam. Embora possa parecer um lugar-comum o Bairro da Misericórdia era uma “cantera” de jogadores de futebol, os melhores exemplos são: Mário, Serafim, António Mendes; Fernando “Pirocas”, Duarte, Neca, irmãos Marinho e Zé Maria, Manelzinho (GR) e já na última fase o Carlos Carvalhal, cito só estes porque foram profissionais do SC Braga, sendo certo que o Mário, o Fernando e o Carvalhal ainda passaram pelo FC Porto e o Marinho pelo Sporting de Lisboa. Existem dezenas senão centenas de atletas, criados na “escola do bairro”, que jogaram nas camadas jovens do SC Braga, em clubes das 2ª e 3ª Divisões e nos Regionais, quando nestas divisões havia competição e não era muito fácil entrar, não indico os seus nomes porque eles são tantos e para não me esquecer de nenhum é ficar pela citação geral.
Para terminar e de forma alguma quero comparar a formação de rua com a formação em Escolas ou em Clubes, porém e porque me parece um contra senso, tenho que afirmar que nunca o investimento na formação em futebol foi tão grande com actualmente e, por estranho que pareça, menos jogadores portugueses se vêm nas equipas profissionais, vamo-nos deixar de hipocrisias. Na verdade se realmente se forma usasse, se não, como dizia o Vale e Azevedo, compra-se feito. Não vamos enganar ninguém.
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