Epílogo
Não há dúvida nenhuma que o levantamento militar, já referenciado anteriormente, surtiu efeito positivo. Com efeito, na segunda quinzena de Maio veio a lume a notícia do nosso regresso à Metrópole, sem dia ainda certo, o regresso estaria aprazado para a segunda quinzena de Junho. Acontece que a viagem ia ser de novo por via aérea, consequentemente, cada passageiro só podia carregar consigo 25 kg de bagagem, 20 kg no porão e 5 kg como bagagem acompanhada. A restante bagagem, caso existisse, teria que ser enviada, para a Metrópole, por via marítima. Nesta conformidade, fui apontado pelo Comandante de Companhia, o Capitão Miliciano Coimbra, como o responsável pelo despacho dessa bagagem na Beira, bem como o levantamento da mesma em Lisboa e posteriormente remete-la, via ferroviária, para a residência de cada um. Nesta conformidade, no dia 25 de Maio disse adeus ao Honde. Efectivamente, com as duas bedford e uma berliet completamente carregadas de caixotes de madeira, saí em direcção á cidade da Beira. Foi um Sábado, a bagagem foi deixada no Batalhão. Na Segunda-Feira seguinte, na companhia dos meus camaradas Cruz, da CC 3496, do Magalhães da CC 3497 e do Ventura da CCS, fomos entregar todos os caixotes no porto daquela cidade. Surpresa, os estivadores do cais, estavam em greve, por razões salariais, razão pela qual a descarga teve que ser efectuada pelo pessoal da tropa. Armazenada a mercadoria e com a guia de desembaraço assinada e carimbada fomos á secretaria do Batalhão requisitar a viagem para a Metrópole. Eu era o único dos quatro Furriéis destacados para este serviço, no Batalhão 3874, que era operacional. Os restantes eram da especialidade de Manutenção e Alimentação Militar, aqueles que vulgarmente chamávamos de “Vago Mestre”. Realmente todos eles se admiraram não estar ali o Marta, visto ser o “Vago Mestre” da CCaç. 3495. Logicamente que lhes disse que não era a mim que cabia responder a essa pergunta. Apenas cumpri ordens, ordens destas cumprem-se imediatamente, sem olhar para trás. Na verdade, estávamos instalados na Messe de Sargentos e como é óbvio era praia de tarde e boîte (discoteca) á noite. Pela manhã, cerca das 11,00 horas, éramos, sempre, acordados pelo soldado impedido da messe, face á necessidade de proceder à limpeza do quarto. Eu e o Cruz, tínhamos a companhia de duas moças que havíamos conhecido em Vila Pery. Alugámos um Austin Mini e com elas fomos às praias de Ponta Gea, Palmeiras, Marora e Macuti, em termos naturais, eram lugares soberbos e bastante sossegados. Realmente, já ficavam nos subúrbios da cidade da Beira. Também, levantamos a hipótese de visitar o Parque Nacional da Gorongosa. No entanto, a gestão, deste parque, tinha desleixado um pouco perante eventuais hostilidades oriundas da frelimo, desta forma já não era muito seguro, até porque os animais selvagens tinham pouco controle, por questões de segurança, resolvemos não ir.
É, rigorosamente, verdadeiro que antes de iniciar o afã diário e após a primeira refeição do dia, passávamos sempre no Batalhão, para consultar a lista de embarque de passageiros do dia seguinte. Embora os dias corressem agradavelmente, ansiávamos pelo dia de regresso. Agora era a minha vez de ser o centro das atenções, cada vez que chegava à Beira pessoal de Braga, de imediato lhes era indicada a minha presença, foi assim com o Cerqueira das “palhotas”, com o Ferreira e o Armindo, companheiros da bola e do Liceu, com o Ivo que foi meu colega no Sá de Miranda, emprestou-me uma série de jornais e revistas que tinham crónicas oriundas de vários quadrantes políticos que versavam sobre o 25 de Abril e da grandiosa manifestação do 1º de Maio desse ano, devorei-as de fio a pavio. Também foi assim no dia 1 de Junho, quando vi o meu nome estampado na lista dos passageiros do dia seguinte. Nem queria acreditar, fiquei tão excitado que não identifiquei de imediato o autor do abraço que suportei quando vinha do placard da lista de embarque já citada, o autor era mais alto que eu, por conseguinte, nem o via muito bem. Quando começou a falar de imediato reconheci o Xico Loureiro, meu vizinho e amigo de infância. Companheiro das andanças futebolísticas. Foi um enorme prazer, apenas ensombrado pelo facto de ele começar o seu desterro africano. Porém, como já existiam notícias, embora, não confirmadas que já estavam em curso conversações com a frelimo, era sinónimo que a comissão do Xico iria ser menos perigosa e mais curta que a minha. Exceptuando o Ferreira e o Armindo, os restantes estavam a chegar a África, como dizia uma ária do Cancioneiro do Niassa: “ Afinal checas, danados o que vieram cá fazer? Vieram para me render!”.
A maior parte dos “recuerdos” para oferecer aos meus familiares, foram adquiridos no Casão Militar da Beira, não só pelo preço mas também pela qualidade do produto, especialmente os famosos serviços orientais, em casca de ovo, de chá e café, bem como o uísque e o licor dessa bebida. Também comprei alguns produtos artesanais, comprados directamente ao produtor. Neste campo, pode-se salientar os produtos manufacturados em pau-preto e pau-santo.
No dia 2 de Junho, um domingo, juntamente com os três camaradas do Batalhão, lá fui para o Aeroporto Internacional da Beira. Após gastar os últimos escudos moçambicanos, lembro-me de ter comprado a prenda para o meu pai, uns óculos de sol, bem como tabaco, no “free shop” do aeroporto. Passei para o sector militar. Na realidade, após o cumprimento das formalidades de embarque, entramos a bordo do avião, Boeing 707 da FAP, seriam cerca das 16,00 horas, quando a aeronave levantou voo. Efectuamos, cerca das 21,00 horas a inevitável escala em Luanda, quando chegamos a Lisboa, eram cerca de 3,00 horas, já no dia seguinte. Fomos ao quartel do RALIS que fica na Encarnação, perto de Moscavide, tratar da documentação militar e lá fomos mandados para casa ao abrigo de uma licença. Nós ainda continuávamos no activo, apenas passaríamos á disponibilidade quando findasse, com êxito, a nossa tarefa. Nessa noite, como não tinha transporte, fiquei na casa do meu camarada Cruz. Como tinha ainda uns trocados, resolvi fazer a viagem de Lisboa para o Porto, de avião. Nestes termos, aquele meu camarada deixou-me, cerca das 10,00 horas no Aeroporto Internacional da Portela. Por volta das 11,00 horas, o avião lá seguiu para o Porto. Quer dizer que antes do meio-dia, já estava a abraçar os meus pais, os meus irmãos e irmãs, o meu cunhado e cunhada os meus sobrinhos, destes, creio que só o Paulo se lembrava de mim, tinha sete anos, a Susana cinco, a Helena três e o Pedro dois. Recordo-me da cara do mais novinho, olhava-me como eu fosse um herói, talvez induzido pelo teor das histórias, supostamente heróicas, que o irmão mais velho, o Paulo, lhe contava a meu respeito. Lembro-me dele, meio espantado, a perguntar ao irmão: “Aquele é que é o tio Luís”.
Na medida em que de quinze em quinze dias tinha que renovar o “passaporte” que me atribuía a licença, assim nos dias 17 de Junho, 1 e 15 de Julho de 74, tive necessidade de ir ao RALIS para esse fim. Acontece que no dia 17, não regressei a Braga de imediato, esperei pelo dia seguinte, pois a 18 chegou a minha Companhia, lá estava eu no RALIS á espera deles para os abraçar a todos. Também, no dia 15, uma segunda-feira, coincidiu com a chegada a Lisboa do navio que transportava as minhas (do pessoal da Companhia) malas de porão. Mais uma vez sofri as “consequências da liberdade”, os estivadores na doca de Lisboa, também, nessa altura, estavam em greve, não só por razões salariais mas também por motivos de ordem laboral. Por consequência, as mercadorias não eram retiradas do porão do barco. A situação apenas foi desbloqueada no dia 18 (quinta-feira). Nesse dia, pela tarde, consegui transporte das ditas malas para o ex-RI 1, na Amadora, que nessa altura, era chamado Batalhão de Comandos, e comandado pelo famoso Major Jaime Neves. Consegui preencher todas as guias de transporte nesse dia, portanto, na sexta-feira, dia seguinte, logo pela manhã transportei-as para a Estação de Santa Apolónia e daí remetias para a casa de cada destinatário. Aliviado e satisfeito pelo dever cumprido, voltei ao RALIS, para passar definitivamente á disponibilidade e dizer adeus para sempre á tropa e aos militares. Antes de abandonar o quartel, perguntei porque não me pagavam o vencimento, referente ao tempo que decorreu entre 3 de Junho e 15 de Agosto. Disseram-me que não era com eles, era com o RI 1. Esta foi outra longa história com um final feliz para mim, todavia, só terminou em Fevereiro de 1976, ano e meio depois. Formalmente, o estatuto de disponibilidade apenas aconteceu a 15 de Agosto de 1974, quando findou a última licença que me foi atribuída pelo Exército Português. Embora guarde amizades e conserve sentimentos nobres adquiridos nesse meu período de vida, todavia, podem crer que se me obrigassem a ir para a tropa outra vez, nessa ocasião, não hesitaria, como o fiz nas férias de 1973.
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