Altos Comandos, Fé ou desconfiança.
A fama da nossa Companhia junto aos altos comandos pelos vistos não era notável, esta suspeição baseia-se no facto de que a 3495 nos corredores e nos gabinetes do Quartel General de Porto Amélia e no Comando do Sector “D” em Mueda, era conhecida pelos “coiros” de Omar. Outrossim também se desconfiou que a nossa correspondência tivesse sido violada, várias vezes, em Porto Amélia. Também, não era por acaso que as nossas operações, mesmo em M´Panze, eram acompanhadas e confirmadas por via aérea. Recordo que durante uma operação no fim de cada dia, obrigatoriamente, via rádio, tínhamos que enviar as coordenadas do local onde pernoitávamos para a sede da Companhia que, por sua vez, as retransmitia para o Comando de Sector. Dizia-se que era para informar a Força Aérea da nossa localização, prevendo uma eventual acção daquela força naquela área. Todavia, não passava de uma manobra de controlo, dado que na maior das vezes quem sobrevoava o local assinalado, em horas impróprias, era uma DO, logo um avião de treino, observação, carga e transporte de passageiros. Estranho, pelo menos.
A visita que tivemos em Omar de um Inspector da PIDE/DGS, que em termos oficiais andaria a coordenar e a recolher informação, porém, a nosso ver a sua missão era outra. Efectivamente, acabou por dizer que tinha a informação que os “turras” passariam a cerca de 300 metros do aquartelamento, com a lanterna ligada e nós não fazíamos nada. Certamente, foi enviado para lá para confirmar essa informação. Azar, os gajos não passaram.
Finalmente, o Processo Disciplinar movido ao Capitão Miliciano Coimbra, com a conjectura que ele estava a jogar o jogo do inimigo, isto é, que não cumpria nem fazia cumprir com rigor as ordens emanadas das instituições superiores.
Acredito que esta desconfiança partiu da falta de resultados da Companhia, resultados para os Altos Comandos era deter ou abater inimigos e, principalmente, apanhar armamento. A par do passado político do Comandante de Companhia, naquela altura já era tido como esquerdista face ao envolvimento que este tinha tido no movimento estudantil de protesto levado a cabo, pelos alunos do ensino superior de Coimbra e Lisboa em 1969. Fazendo fé nesta suposição não se compreende o sistema, na medida em que foi este que lhe proporcionou o Curso de Capitães Milicianos, após a recruta e a especialidade tirada em Mafra. Em circunstâncias normais saía de lá como Aspirante e mais tarde como Alferes Miliciano. Realmente ao Curso de Capitães só iam, em princípio, os melhores e os de confiança do regime. Consequentemente, não se compreende a desconfiança.
Sou suspeito para afirmar que as desconfianças não possuíam qualquer suporte, mas garanto que nada fizemos para merecer este epíteto depreciativo de “coiros”. Jamais nos furtamos a qualquer responsabilidade. Nunca nos acobardamos perante o inimigo, em nenhuma circunstância fizemos o seu jogo. Isso não obstou a que quando chegávamos de uma Operação e nos era perguntado pelo resultado respondíamos com gosto que tinha sido de zero a zero. Aliás um empate fora de casa é sempre bom resultado. Esta resposta queria dizer e mostrava a nossa satisfação por ter cumprido mais uma missão sem qualquer tipo de baixa.
Nos dezoito meses que estivemos em Omar, passaram por lá três Companhias de Intervenção, duas Companhias de Comandos, uma Companhia de Engenharia e o Pelotão da Artilharia. Na realidade, se a suspeita tivesse alguma base, algum elemento destas Companhias, nomeadamente alguns Oficiais do Quadro, como por exemplo os Comandantes das Companhias de Comandos, com certeza que captavam algum indício da nossa eventual fuga à responsabilidade. Mas não, ninguém conseguiu tal desiderato, porque o mesmo, na verdade nunca existiu. Aliás, o Oficial de Operações do nosso batalhão, Major Braga ia amiudadas vezes a Omar e nunca via ou assistiu a nada de anormal, ou também era “coiro”.
Mas que tinham a pedrinha no sapato tinham, isso notou-se quando viemos para Manica. Na primeira colocação a CCAÇ 3496 que tinha estado em Negomano, local pacífico, no Barué ficou colocada em Chinguinhene, em princípio o pior local das três localidades, a CCAÇ 3497 que tinha estado em Nazombe, um local nada bom, porém, não se comparava a Omar, foi colocada no melhor local, Honde e nós, como é sabido fomos colocados em M´Panze, analisando e alicerçado pela lei das compensações eu não concordaria com as colocações da 95 e 97, mas com um pouco de jeito e boa vontade aceita-se. O que de facto foi estranho foi quando saímos de M´Panze por razões de fenómenos naturais e não termos sido transferidos para Manica – cidade, para onde foi a CCAÇ 3497 transferida desde Honde. Significa que nos mudaram para melhor forçados mas não quiseram que fossemos para muito melhor, nem que para isso tivessem sido constrangidos a realizar outro movimento de tropas e material.
Onde eles se podiam agarrar era à recusa que os nossos soldados tomaram contra as Operações longínquas no Honde, mas nem aí, essa atitude foi espontânea e só deles, como já disse não houve qualquer participação de Oficiais nem Sargentos na recusa. No entanto, lembro que essa atitude foi tomada em Maio de 1974, um mês depois do 25 de Abril quando ainda nem se sabia quando regressaríamos à Metrópole apesar de já possuirmos três meses de “mata-bicho”.
Para finalizar apenas quero afirmar que os altos comandos podiam não ter muita fé em nós. Mas a desconfiança era escusada, não merecia a pena ou como diz o Herman José, não havia necessidade.
Antes que a tinta acabe no meu tinteiro e seque no aparo, quero deixar aqui a homenagem aos que não regressaram, refiro-me a aqueles a quem dediquei estas crónicas. Descansem em paz.
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