Avançar para o conteúdo principal

O Mainato.



O Mainato
O Mainato, em Moçambique, era um empregado doméstico que se dedicava à lavandaria, lavava e engomava a roupa. Porém, o Exército também adotou essa designação aos indivíduos do sexo masculino que exerciam as funções de carregadores. Paralelamente, estes, para ganharem mais uns trocados, também lavavam o vestuário a alguns membros da tropa. Assim aparece na minha vida o Manel, era o carregador do 2º Pelotão, da minha Companhia. O Manuel era negro, teria cerca de 30 anos, da raça Macua, baixo – cerca de 1,60, com um defeito numa vista, bastante forte e bastante simpático, bom homem. Face a essa proximidade foi por mim contratado para tratar da minha roupa, pagava-lhe mensalmente Duzentos Escudos. Sempre cumpriu cabalmente os deveres do cargo que assumiu. Algumas peripécias dignas de registo aconteceram comigo e com aquela afável figura.
A primeira, foi quando notei que, de quando vez, lá vinha uma peça de roupa com os botões partidos. Na primeira situação não liguei muito, mas nas ocasiões seguintes, não deixei passar em branco o sarilho, consequentemente chamei o Manel à atenção dizendo-lhe que os factos não podiam repetir-se, pois qualquer dia ficava sem botões nas camisas e nas calças. Obrigá-lo-ia ir a Mueda, a penantes, comprar os botões ao China para resolver o imbróglio. Ele ria, ao mesmo tempo dizia:- “ Meus furiel não pode, as picada de Omar és maning pirigosa. Mas Manuel não sabes lavar a roupa sem partir botões…” Alto lá, como é que isso é possível, não há jeito de lavar a roupa sem partir botões? “Não meus furiel, queres ver?” Leva-me junto ao bidon onde lavava o vestuário e executa uma demonstração de como o fazia. Roupa na água retira-a e ensaboa, depois coloca-a numa tábua e com um pau prega-lhe fortes golpes ao mesmo tempo que a revirava. Stop, ó Manel não podes lavar a roupa deste modo, não admira que partas os botões. Expliquei-lhe como se fazia, as duas primeiras fases tudo bem, todavia, quando chegares à fase do pau, colocas a roupa na tábua e torce-a com as mãos, exemplifiquei a ação. “Meus furiel não podes! Assim roupa não ficas bem lavada e Manuel cansas maning”. Para mim tem que ser assim, se não troco de mainato. A custo lá disse;-“ Estás bem Manuel vais trabalhar assim, mas só para meus furiel.”
O Manuel também me forneceu um petisco novo. Realmente, no tempo das chuvas e após fortes aguaceiros, principalmente ao fim do dia, na base dos postes de iluminação do cercado do aquartelamento, apareciam umas formigas aladas que voavam em redor da lâmpada, segundos depois caíam-lhe as asas e tombavam aos magotes, faziam montes. Era uma autêntica guerra para as apanhar, principalmente o pessoal africano. Na primeira vez que vislumbrei o fenómeno a algazarra era tão grande que toda a gente veio ver o que estava ocorrendo. Chamei o Manuel e perguntei-lhe o que se estava a passar. Responde:- “ os pessoal estás a apanhares petisco, formigas ser muito bom, acompanhas bem uma Laurentina (cerveja) ”. Reparei que a resposta foi rápida e que o mesmo estava em pulgas para proceder à recolha da iguaria. Nesta conformidade, desliguei-o da conversa disse-lhe para ir a sua vida, conquanto incumbi-o de me trazer alguns exemplares para efetuar a degustação do novo alimento. Assim foi, passados uns minutos o Manuel foi ter comigo à messe dos Sargentos, passa-me para a mão um embrulho contendo um grande número de formigas. Perguntei-lhe como se comiam, rapidamente fez a demonstração, pegou numa e meteu-a na boca trincando-a ainda viva. “ És fácil, és mesmo assim…”, disse o Manuel. Se é assim vamos lá provar, fui acompanhado pelos meus colegas Ponte e Taveira, na verdade não fiquei fã. Apenas ingeri a prova, porém os meus acompanhantes devoraram o petisco até desaparecer no fundo do embrulho, dizendo que não era mau, tinha um sabor agradável ao pinhão e acompanhava bastante bem a Laurentina ou a 2M, tal como o tremoço e o amendoim, na Metrópole.
Em Dezembro de 1972, vim passar as férias à Metrópole, o Manuel sabendo disso, contactou-me no sentido de eu lhe comprar, um fio em ouro com um crucifixo, também em ouro, pois segundo ele, esse material “eras mais barato nos Portugal que em Nampula ou Porto Amélia…”. Passa-me para a mão uma a nota de mil escudos, de Moçambique, ao mesmo tempo que me perguntava se chegava. Respondi-lhe que sim, apesar disso se não chegasse eu poria o restante e depois acertávamos contas.
Já em Braga, na Ourivesaria Rubi, onde trabalhava o meu amigo de infância Fernando, procedi à compra das peças em ouro. Na realidade não foi difícil, escolhi aquele conjunto que se aproximava da quantia que o Manuel me tinha em entregue. O seu custo foi 900$00 (metropolitanos), fazendo o câmbio, na altura, daria em Escudos Moçambicanos - 1.127$00.
Em Janeiro, já em Omar, o Manuel veio ter comigo, para saber se eu lhe tinha comprado o tal fio com o crucifixo. Respondi-lhe afirmativamente, ao mesmo tempo que lhe entreguei uma caixa de plástico, embrulhada em papel de fantasia, que continha os objetos em questão. Avidamente desembrulhou o recetáculo e os olhos quase que lhe saíram das órbitas quando se deparou com os mesmos. Extremamente feliz perguntou-me se o dinheiro tinha chegado para a compra. Disse-lhe que não e fiz-lhe as contas, no entanto, disse-lhe que eu ainda não lhe tinha pago o mês de Dezembro, portanto ainda tinha que lhe dar 63$00. “ Não pagas meus furriel, eu não trabalhei pras vocês em Dezembro, (as férias ainda não eram pagas) Manuel vais trazer os 127$00 que faltam”. Foi um caso dos trabalhos para convencer o Manuel que não queria dinheiro nenhum, a custo lá cheguei a um acordo com ele que, naquele mês, Dezembro, ninguém pagava a ninguém.
Por fim em Agosto de 1973, quando me preparava para sair de Omar, tinha entregado ao Manuel toda a minha roupa, civil e militar, para lavar, alguma dela jazia no fundo da minha mala há dezoito meses, cheirava a mofo que tresandava. Na altura é que me veio entregar o serviço, perguntou-me se não lhe queria vender umas calças, eram de fazenda e listadas, bem como uma camisa de meia manga, tipo linho. Queria ainda que eu lhe vendesse o “cantante” (rádio a pilhas), um par de sapatos e uns óculos. Dizia ele “ as calças eram maning chunguilas “ com elas, com a camisa, o fio a sair da mesma, os sapatos, os cantante e os óculos, iria “engatar” todas as miúdas do Namialo, sua terra natal. Respondi-lhe, tudo é uma questão de preço, mas esclareci que os sapatos não lhe serviam, muito embora o pé dele tivesse o comprimento do meu. Contudo pelo facto de andar continuadamente descalço, tinha a planta bastante larga e o peito enormemente volumoso, o sapato não lhe cabia. Ainda assim ele respondia:- “ cabe meus furiel”, embora o esforço fosse imenso para introduzir o pé no sapato era, de todo em todo, impossível concretizar a ação. Mesmo perante esta adversidade, ele quis mesmo os sapatos. Acabei por anuir no negócio e disse-lhe, vamos a contas:- Passei a bola para as mãos do Manuel e ele, na boa-fé, disse-me:- “ cinco contos chega, meus furiel”. Cocei a cabeça, fiz-me difícil e disse, não sei! Ele já apavorado, com receio de que eu subisse muito a parada, ainda acrescentou, mais um conto, chega? Naquele jogo e para acabar o sofrimento do Manuel, acabei por dizer-lhe, ainda não te paguei o mês de Julho, bem com o serviço do mês de Agosto, por consequência, não te pago nada e levas o que queres sem me dares nenhum dinheiro e eu não satisfaço a dívida que tenho para contigo, estamos quites. O homem não queria crer, pensava que eu estava na brincadeira, “meus furriel não brincas com Manuel”. Não brinco nada se não gostas do negócio deixa aqui as coisas e não se fala mais nisso. Nem me deixou terminar a conversa, não respondeu nem sim nem não, juntou tudo num molhe e rapidamente as foi guardar nos seus aposentos.
No dia seguinte foi a minha vez de deixar Omar definitivamente, entre as várias despedidas a que mais me tocou foi a do Manuel. Em lágrimas deu-me um cumprimento, ao mesmo tempo que me ofereceu uma vara em pau-preto lavrada, dizendo “ Meus furriel, vou ter saudades de vocês, és homem maning de bom”, adeus. Respondi-lhe com um até sempre.
Não sei o que foi feito do Manuel se foi vítima ou não da independência. Se for vivo rondara a idade dos 80 anos. De uma forma ou de outra que esteja bem, que esteja em paz.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

M´Panze. Contactos com o IN.

M´Panze. Confrontos com o IN.                                                            Nesta zona, embora existissem bastantes indícios da acção bélica da frelimo, em nada se comparava com a situação vivida em Cabo Delgado. Ainda não tinha sido constatada a existiam de minas anti-carro, nem, tão pouco, anti-pessoais. Todavia, isso não obstou que houvesse contacto com IN e com resultados bastante negativos, em termo humanos, para a nossa Companhia. Sofremos duas emboscadas na picada, uma em Outubro e outra em Novembro. O aquartelamento, numa noite de Novembro foi molestado com uns tiros, uma espécie de ataque. Finalmente, já em Fevereiro, também durante a noite tivemos um reencontro em pleno mato. A ...

Hugo Viana e Quim, fora do Europeu.

Hugo Viana e Quim, fora do Europeu “Tudo leva a crer que o Seleccionador Nacional, vai dar-se ao luxo de deixar de fora o Bosingwa, o Hugo Viana, o Quim… Resumindo vai ser a Selecção dos amigos e afilhados, como é possível deixar de fora um atleta com a categoria do Hugo Viana. Recordo para quem não sabe que este atleta foi preterido pelo Paulo Bento quando da cedência do mesmo pelo Valência. Antes de ingressar nas fileiras do SC Braga, esteve para ser recrutado pelo SCP e só não o foi porque o treinador da altura daquele Clube, Paulo Bento, disse que ele não se enquadrava no perfil técnico táctico do Sporting. Acho esta afirmação, no mínimo caricata, não se enquadra porquê? Os passes certeiros do Hugo não servem o Cristiano Ronaldo ou o Nani. Os centros, tensos e guiados quase por GPS para a cabeça do ponta de lança da selecção, também não servem? A inteligência do Hugo no controlo do jogo, quer a defender ou a atacar também não serve? Ou a maior dos comentadores desportivos e...

Azia sulista.

Terça-feira, 8 de Março de 2011   A vitória do SC Braga sobre o SL Benfica foi tão evidente que nem sequer tinha pensado em escrever sobre ela. Também não é pelo facto dos benfiquistas, nomeadamente o seu presidente e o seu treinador, arranjarem desculpas para a derrota sofrida, pois no futebol a culpa da derrota é sempre de terceiros, jamais nossa. O que chateia, perdoem-me o termo, foi a maneira desbocada como o Sr. Vieira se referiu à gente de Braga. Obviamente que não dou aval a qualquer tipo de violência, nomeadamente à agressão Javi ao Alain, da entrada duríssima do Maxi Pereira sobre o Ukra, do pisão do Alain Kardec sobre o Sílvio, como também não aprovo o facto de alguns adeptos do SC Braga terem atirado uns isqueiros e duas ou três bolas de golfe para o relvado. Mas sejamos francos os arremessos foram tão escassos que essa atitude, embora criticável não passou por ser a demonstração da revolta que ainda existe em Braga face aos factos ocorridos na época passada. Não sei se...